[Bartheman] Waldo e seus precursores

Tem um tempinho, Lielson Zeni e eu encontramos esse texto abaixo, sobre o personagem-chave de O bulevar dos sonhos partidos, tradução minha para a todavia, com preparação de texto do Lielson. Reencontrei agora, enquanto tentava arrumar as coisas para esquecer do mundo.

Afinal, estamos no limiar da loucura…

***

“Uma esquizofrenia habita todo artista”

“Se eu prefiro gato a cachorros, é porque não existe gato policial”

(Jean Cocteau, 1889-1963)

cocteau.png

Certa vez, achei ter visto um gato na sombra do canto do apartamento. A princípio, considerei um devaneio de sábado à tarde. Depois de alguma intimidade com o Waldo de Kim Deitch, pensei se não seria possível que um gato waldiano me espreitasse, e me arrependi de não ter aberto bem os olhos e deixado aquele gato atravessar a parede entre minha sanidade e a beira da loucura. Desde então, venho reconhecendo a “voz” de Waldo, ou seus hábitos, em gatos de diversas artes e de diversas épocas. Registrarei uma antologia deles aqui (ou melhor, uma fantasmagoria), em ordem cronológica.

Os primeiros gatos surgiram entre os sumérios, que não conseguiram domesticá-los, mas cunharam a primeira grafia: letra sumeria.png. “Su-a”, gato, também significava “errar”, caminhar sem destino e, até, estar fora do lugar. Talvez fora de si. Mas também algo que se basta por si só, ou se fecha em si, como em um antigo provérbio sumério, que dizia: “um gato é gato por ser um gato”.[1] E é um tanto assim que os personagens de Deitch são assombrados pelo gato Waldo, viajam para dentro de si, mas para sair dos eixos, caminhar para a loucura. Já os hieróglifos ilustravam a raça felina conhecida como “Mau Egípcio” – o que não deve ser por acaso. Além disso, duas deusas tinham feições bichanas, e a primeira delas, Mafdet, era filha de Tot, deus da escrita e do jogo, e ela a protetora das bibliotecas dos templos. Como vemos em Bulevar dos sonhos partidos, Waldo também é uma espécie de protetor e guia de diversas personagens para a entrada no universo das artes. Ele teria aparecido a Deitch pela primeira vez depois que ele fumou uma estranha erva em um cachimbo mais estranho ainda.[2] Não deve ser por acaso que os egípcios são dos primeiros povos a experimentar drogas para invocar deuses e espíritos. Tudo acompanhado e protegido pelos gatos, que eles domesticaram primeiro.

O segundo gato que gostaria de registrar é Plutão, do conto “O gato preto”, de Edgar Allan Poe (1843). Gostaria de salientar que o grande salto dos antigos até a esses tempos bem modernos foi porque os gatos foram massacrados na Idade Média.[3] O gato era adorado pelos pagãos, e a Igreja não queria saber de qualquer inteligência que pudesse desafiar seu obscurantismo. Não obstante, algumas iluminaras apresentam um estranho gato azul, empunhando ferramentas bizarras, atípicas para suas patas fofas.

gato medieval.png

gato medieval 3

gato medieval 2

Com a pouca literatura disponível, com tantos incêndios em bibliotecas e artistas enforcados, não é possível identificar com certeza se esse gato medieval não seria um ancestral ou, melhor, o próprio Waldo. “Em tais condições, poderíamos estar diante do Waldo e não saberíamos com segurança que se trata dele.” Mas em “O gato preto” Plutão enlouquece o narrador, que mata o bicho e a mulher e, num retorno sobrenatural, denuncia onde está o cadáver, condenando o personagem, além da loucura, à força da lei. Essa força enlouquecedora talvez seja a principal relação que se estabelece entre Waldo e seus assombrados, que em Bulevar dos sonhos partidos não conduz a nenhum assassinato, mas não é nem um pouco inocente. Já Charles Baudelaire, maior leitor de Poe, escreveu suas Flores do mal sob o encanto de haxixe e talvez de um gato, que ele considerava um ser mágico:

 

C’est l’esprit familier du lieu ;
Il juge, il préside, il inspire
Toutes choses dans son empire ;
Peut-être est-il fée, est-il dieu ?[1]

 

O terceiro Waldo procede de uma fonte mais previsível, o gato Chesire de Lewis Carroll (1865), que atravessa o caminho de Alice logo depois dela ter experimentado a estranha fumaça do narguilé da Lagarta. O gato do sorriso amarelo – quiçá satânico – perturba a jovem menina, a ponto de ela duvidar de si mesma. “… ‘Somos todos loucos aqui. Sou louco. Você é louca.’ / ‘Como você sabe que sou louca?’ disse Alice. / ‘Você deve ser,’ disse o Gato, ‘ou você não teria vindo aqui.’” O gato Chesire, assim como Waldo, atravessa espaços e tempos diferentes, aparecendo e desaparecendo. A quarta das prefigurações foi a que encontrei em “Uma pequena fábula”, de Franz Kafka (1914-1924). O cruel gato só surge ao final do conto pra devorar o rato que fugiu dele o tempo todo por um labirinto   e lhe cai diretamente na boca, destino inevitável. Waldo poderia bem ser esse bichano cruel, pois ele leva Ted Mishkin pelo rabo, ou pela caneta, arrastando-o consigo por um labirinto, em que histórias se tornam paredes e encurralam ao mesmo tempo que oferecem saídas, que mostram ser apenas outras paredes. O sobrenome Mishkin se refere à palavra russa para “ratinho” – não deve ser por acaso, e é o mesmo nome do príncipe enlouquecido de O idiota, de Dostoiévski (1869). Diferente dos ratos ladinos de Krazy Kat (Herriman), Tom & Jerry (Hanna e Barbera, mas também Gene Deitch) e Underworld (Kaz), os ratos que caem na pata de gatos como Waldo e o gato kafkaniano não têm escapatória.

Minhas notas registram igualmente dois gatos. O primeiro apareceu para Pablo Picasso e ele o capturou no quadro cubista Gato e o pássaro (1939) – na verdade, esse não é o primeiro Waldo do pintor, mas talvez o mais evidentemente waldiano dos gatos dele. O azul predominante na tela e a crueldade pra expor as vísceras de quem o acompanha são pistas poderosas.[2] O outro é Behemot, o gato fáustico de Mikhail Bulgakov em O mestre e margarida (1966), que anda por toda Moscou infernizando os humanos que encontra. Diabos, se esse não for um Waldo legítimo não sei mais o que poderia ser.

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Gato e pássaro, de Picasso. Retirado daqui

Kim Deitch não nega que seu Waldo toma a forma de diversos gatos que assombram os desenhos animados desde suas primeiras produções. Ele constata que Félix, Julius e gatos anônimos das animações de Paul Terry eram elementos entrópicos desses desenhos, desencadeando loucuras inimagináveis. Os contemporâneos de Deitch também foram assombrados por gatos, como Robert Crumb por Fritz e Kaz pelo Smoking Cat. Mas Kim vivia com esses gatos desde a infância, acompanhando seu pai, roteirista, nos estúdios de animação nos anos 1950. Ele teve contato com a primeira geração de animadores que tinham conseguido expandir bastante essa arte em uma época sem limitações caretas, que a indústria, desde Disney, implementou. E ele conseguiu ver o que lhes assombrava, essa impossibilidade de soltar tudo nos desenhos, em uma sociedade cada vez mais medicada, dopada, controlada. Esse gato assombroso, existindo ou não, é signo dessa loucura criativa desses artistas. Deitch desenhou Waldo para homenageá-los, ou teria sido Waldo que lhe apareceu por contágio? Em cada um desses gatos reside a idiossincrasia de Waldo, em grau maior ou menor, mas se Deitch não tivesse descrito Waldo , não a perceberíamos; ou seja, ela não existiria.

 

(Jorge Luis Borges, 1986)

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Borges e Beppo

[1] “É o espírito familiar do lugar;/ Ele julga, ele preside, ele inspira/ Todas as coisas em seu império; / Talvez seja fada, será ele deus?”, em Le Chat II (1857).

[2] A historiadora da arte Dominique Sterckx reconhece nesse quadro de Picasso uma referência à La belle cuisinière de François Boucher (1735), em que um pássaro sangrando, no canto da tela, por vezes é assombrado por um gato. Nem todo mundo consegue enxergar esse gato na tela.

[1] Veja-se o artigo de Paul Garelli a esse propósito, “Les animaux assyriens”, publicado na revista Historia, de maio de 1967.

[2] Não deve ser por acaso que William Burroughs, notório narconauta literato, era apaixonado por gatos também. Em O gato por dentro (1992), ele tenta retratar vários de seus gatos. Não sabemos se esses gatos eram reais ou alucinações.

[3] Como pode ser visto em O grande massacre de gatos, de Robert Darnton (1984).

***

A gente falou do livro aqui.

 

Lielson Zeni é editor e roteirista, Maria Clara Carneiro é professora e tradutora, escrevem para o Balburdia.net e moram com dois gatos (três?), mas também curtem outros bichos. (Agradecimentos a Adriano Scandolara e Davide Crippa pela ajuda erudita).

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Bartheman

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