[Vem comigo] Gefangene

Dia desses, conversando com outros dois amigos, lembramos de Gefangene, do Koostella (Zarabatana, 2010). Lembramos como lembramos bem do livro, toda sua estrutura, e seu prefácio impactante: Gefangene provavelmente circulou pouco, desses livrinhos reservados a um nicho de leitores de quadrinhos mais conceituais, embora sua leitura seja extremamente simples e o tema bem atual.

A sinopse do livro dá a ambientação da história:

Em Gefangene – Sem Saída, Koostella, cartunista, brasileiro, 30 anos, 1,80 de altura, 77 quilos, sem antecedentes criminais, transporta seus leitores para dentro do espremido universo das cadeias. Neste pequeno espaço de 9 quadrinhos por página, onde pessoas tentam sobreviver sob a duvidosa custódia do Estado e com sua saúde à mercê dos companheiros de cela, Koostella conta 31 histórias de desesperança, paranoia, ironia e vingança. E, como se não fosse suficiente, o autor ainda obriga os personagens a se expressar através de mímica, respeitando uma incontornável lei do silêncio.

Claro que, enquanto percorremos as histórias, sentimos alívio por não vivermos restringidos por essas duras regras e agradecemos por não vermos o sol nascer quadrado, dia após dia, nem vamos precisar trocar este livro por cigarros depois da leitura. Porém, inevitavelmente vai crescendo aquela sensação de que vivemos presos do lado de fora, sujeitos a outras leis arbitrárias.

Sinopse de Gefangene, de Koostella

O livro é então composto de quadrinhos mudos, sempre na mesma estrutura quadradinha e fechadinha, as sarjetas fazendo as vezes de grades de cela.

O motivo (no sentido musical) do livro são as prisões (gefangene é a palavra alemã para prisioneiros). Em seu prefácio, Koostella explica as origens do livro: sendo estrangeiro em um país europeu, precisava ser um cidadão melhor que o cidadão natural daquele país. Nesse clima, sentia-se vigiado constantemente (o que explica a sinopse precisar suas características), pois Koostella é um de tantos que foi tentar valer seu direito universal de migrar.

Artigo XIII:
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.
Artigo XIV:

1. Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
Artigo XV:
1.Todo homem tem direito a uma nacionalidade.

Declaração Universal dos Direitos Humanos

Lembrávamos desse livro em sua simplicidade na forma, e em como essa simplicidade expressava toda uma rede complexa de sentidos. Com cores infernais (tons quentes, sanguinolentos), sem discurso verbal e cenas tão fortes, é um pequeno clássico brasileiro.

Nele, lembramos da clausura, do cárcere, da camisa de força, e também da censura, da mordaça, da casa de correção, do gueto. No dicionário analógico, esses são os “meios de constrangimento”, os que obrigam a ser dentro de determinadas regras.

A atualidade desse livro não vem apenas da nova massa de migrantes das guerras e da miséria que chegam até nós – o Brasil sendo, sobretudo, pouso temporário de milhares, milhões. Somos o segundo país da América do Sul com mais gente indo embora e, mesmo assim, recebemos bem mal (e pouco) os que migram. A atualidade desse livro também vem dessa antiga nova casta retomando o poder, com a ampliação ou ênfase nessas estratégias de constrangimento. A atualidade desse livro é que ainda não mudamos as regras de sempre, os sistemas de censura, de cárcere, de gueto, da casa de correção, do cárcere, da censura. Continuam sendo as mesmas pessoas indo para a prisão, ainda são as mesmas pessoas vigiadas pela mesma elite autoritária, elite que nega o diálogo, encerra os cidadão sob tabus, nega a cidadania plena – estrangeiros no próprio país, pois não têm ainda o acesso à essa cidadania, limitada a poucos, aos donos da terra, aos donos das prisões, onde o estado é governo de poucos sobre muitos… e por isso, ainda estrangeiros, nessa Terra Estrangeira.


Em Politique étrangère, quadrinho de Lewis Trondheim e Jochen Gerner (L’Association, 2005), somos apresentados a um interessante conto fabuloso: um estranho (étranger) estrangeiro (étranger) cai dos céus, sobre o castelo do Rei. Naquele reino, nunca tinham ouvido falar de terras estrangeiras, só conheciam a si. Seria aquele estrangeiro um amigo ou inimigo? O estrangeiro/estranho alega ter perdido a memória, e coloca o Rei em um impasse: o que fazer, matá-lo, condená-lo ao encarceramento perpétuo, perdoar-lhe? O que fazer diante do estrangeiro?

 – Doutor, [pergunta o rei ao médico que cuida do estrangeiro] é possível que [o estrangeiro] tenha perdido a memória?        
– Sim, majestade.       
– E como saber quais eram suas intenções antes de que ele aterrissasse sobre meu castelo?      
– Pelo soro da verdade, talvez.          
– Hum… Por nada mais… sério?         
– O que o senhor sugere? A hipnose?  
– Não… A tortura.

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