[Vem Comigo] Asa Quebrada

Depois de roterizar o quadrinho A arte de voar (Veneta, 2012, tradução de José Feres Sabino) – desenhado por Kim – para entender o suicídio do seu pai, Antonio Altarriba escreve Asa quebrada (Veneta, 2018, tradução de Marcelo Barbão), sobre a história da sua mãe (a arte fica novamente com Kim). O objetivo do livro é, de forma assumida, um pedido de desculpas do autor pelo apagamento da mãe em A arte de voar.

Nunca tinha me dado conta de que em A arte de voar o Altarriba apagava a mãe da história e a tornava personagem secundária e sem graça até a Maria Clara me dizer que não gosta do livro justamente por isso. Uma das razões de eu não ver esse movimento é por ter me envolvido com o quadrinho dado interesse pela história dos anarquistas espanhóis; a outra é, obviamente, que homens são muito menos perceptivos ao apagamento de figuras femininas que as mulheres. Fica o mea culpa nesta postagem.

Já o mea culpa de Antonio Altarriba é um livro inteiro dedicado a sua mãe, Petra, que enfim recebe o destaque na narrativa e, assim, ele tenta corrigir o erro narrativo (psicanalítico?) da obra anterior. Altarriba parece se encantar com o que descobre da vida de Petra, fatos que não foram contados por ela, que sempre preferiu a discrição e o anonimato. A arte de Kim é realista (com alguma simplificação facial) e ajuda a dar peso pra esse mundo que poderia se construir só como memória, mas ganha contornos de história, peso que não a deixa sair do chão.

Petra é alguém direta, que não se interessa pelo que não pode ser feito. Suas ações nunca se pautam por sonhos, mas por necessidade e obrigação moral. O chão.

Quando em conjunto, as duas obras contam do próprio autor, em uma espécie de autobiografia alugada a partir das biografias de seu pai e sua mãe. Altarriba, porém, se entrega no gesto, quando entende que diminuiu a mãe em A arte de voar e precisa lhe fazer justiça e escreve um segundo livro. O entendimento e a culpa de que deixou a mãe de lado é uma narrativa em si, que corre por fora dos livros e entre eles, jamais agregada a história, embora, me contradigo, tenho certeza que essa narrativa pessoal é fundamental para Asa quebrada.

A asa quebrada do título é tanto o braço esquerdo paralisado de Petra (leia o livro e descubra como aconteceu), quanto o indicativo do pássaro que jamais poderá voar. Para sua mãe, não há o céu em sobrevoo, há a poeira, vegetação e, às vezes, algo surpreendente sob a pedra.

Agradecimento à Ana Alice Pereira que nos emprestou o Asa quebrada.

***

Como anda difícil o tempo praqueles TEXTÃO que tanto gosto, resolvi correr pro lado que é possível no momento: textos menores e pontuais, porém frequentes (na medida do possível). Me proponho a postar todo dia (ou quase) (quando alguém escrever, eu pulo o dia também) (provavelmente não nos finais de semana – nem feriados) (ou quando estiver em viagem) (já vi que vai sobrar pouca data pra postar) até dia 24 de junho de 2020, resenhas rápidas de livros ou revistas que arrecém li ou que catei da estante e me lembrei de algo que vale compartilhar com vocês.

Chamei a proposta de “Um Quadrinho por Vez”, porque tem um duplo sentido tanto de eu falar de um só gibi cada vez (embora hoje meio que falei de dois) quanto a leitura da página de história em quadrinhos ser um quadro depois do outro (embora eu saiba que no primeiro contato a gente meio que absorve a página toda e depois vai de painel em painel), além da anedotinha do sábio que conta como se devora um elefante inteiro (atenção: acho elefantes fodas e sou contra comer a carne deles.#SomosTodosElefantes).

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