[Tradução] Manifesto da Graphic Novel (revisado), de Eddie Campbell

Tenho estudado teorias de quadrinho e durante a leitura do A Novela Gráfica, de Santiago García (Martins Fontes, 2012, tradução de Magda Lopes), logo no comecinho, é citado o “Eddie Campbell’s (Revised) Graphic Novel Manifesto”, do homem que desenhou entre trocentas coisas, Do Inferno, escrito por Alan Moore (Veneta, 2014, tradução de João Paulo Martins). O manifesto é fácil de achar na internet e tinha pensado em traduzir ele aqui, mas aí descubro que TREZE anos atrás (em 2006), o crítico português e roteirista de quadrinhos Pedro Moura já fez o trabalho – o original é de 2004. Então, simplesmente copio aqui sua tradução e dou uma adaptada para o português brasileiro.

Também optei, a certo contragosto, manter o termo anglófono graphic novel em vez da sua tradução para “ROMANCE gráfico” (tradutores do meu Brasil: “novel” não é novela, é romance; “novella” é novela). Segue:

Há tanta discordância (entre nós) e mal-entendidos (no grande público) em torno de “graphic novel”, que já está na hora de definir alguns princípios.

  1. “Graphic novel” é um termo desagradável, mas vamos com ele mesmo, para compreendermos que graphic [gráfico] não tem nada a ver com design gráfico e que novel [romance] não tem nada a ver com os romances (tal como “Impressionismo” não é um termo verdadeiramente aplicável, pois foi utilizado primeiro como insulto, e depois, como provocação, adotado).

  2. Como não nos referimos de modo algum ao tradicional romance literário, não defendemos que o graphic novel deva ter as mesmas dimensões, sequer o mesmo peso físico. Assim, termos suplementares como “novela” ou “conto” etc., não serão usados, pois só servem para confundir o público em relação ao nosso objetivo (ver abaixo), e dá a entender que a intenção é criar a versões ilustradas da literatura universal, quando, na verdade, miramos mais longe: a saber, forjar arte completamente nova, que não baixe a cabeça às regras arbitrárias de outra arte anterior.

  3. A “graphic novel” representa mais um movimento do que uma forma. Por isso, podemos falar de “antecedentes” da graphic novel, como os livros de xilogravura de Lynd Ward. Porém, não nos interessa utilizar o termo retrospectivamente.

  4. Apesar da e do artista de graphic novels [romancista gráfico? graphic novelista?] considerar quem lhe antecedeu genial e profético, pessoas cujo o trabalho é imprescindível para criar o seu próprio, não querem que O Progresso de uma Prostituta, de William Hogarth, ofusque-lhe quando conseguir alguma projeção, para si ou para a arte como um todo.

  5. Uma vez que o termo se refere a um movimento, a um evento contínuo, mais do que a uma forma, não há nada a ganhar com sua definição ou “determinação”. O conceito tem cerca de trinta anos, apesar de tanto o movimento quanto o nome terem sido usados casualmente há uns dez anos antes. Uma vez que continua a crescer, é bem possível que seja completamente diferente ano que vem.

  6. O objetivo da e do artista de graphic novels é pegar a forma de gibi [comic book], que agora nos envergonha, e elevá-la a nível mais ambicioso e mais significativo, o que implica normalmente aumentar o tamanho — mas cuidado para não entrar em disputas de quais são os tamanhos certos. Se um artista apresentar coletânea de pequenos contos como sua nova graphic novel (como Will Eisner fez em Um Contrato Com Deus, por exemplo), não devemos entrar em picuínhas; apenas vamos examinar se essa graphic novel é boa ou má coletânea. Se a pessoa fez uma graphic novel com personagens de outro lugar, como as várias vezes que Jimmy Corrigan (Chris Ware) apareceu fora de seu título principal, ou como acontece em Gilbert Hernandez etc., ou até mesmo outros personagens que não queremos em nossa “sociedade secreta”, não vamos desconsiderar o trabalho por essa simples razão. Se o seu livro já não se parecer de modo algum com história em quadrinhos, também não vamos entrar em miudezas. Basta que nos perguntemos se esse trabalho aumenta ou não a totalidade do conhecimento humano.

  7. O termo graphic novel não será usado como indicativo de formato comercial (tal como “encadernado”, “capa dura”, “formato de luxo”). Pode ser trabalho inédito ou publicado em episódios ou partes. O que vale é a intenção, mesmo que ela só apareça depois da publicação original.

  8. Os temas das e dos artistas de graphic novel são toda a existência, inclusive, suas próprias vidas. Artistas desprezam os “gêneros” e todos seus clichês horrorosos, apesar de manterem ampla perspectiva. Se ressentem particularmente da noção, ainda muito difundida, e não sem razão, de que histórias em quadrinhos são subgênero da ficção científica ou da fantasia heroica.

  9. Artistas de graphic novel jamais pensariam em empregar o termo graphic novel entre seus pares. Prefeririam, mais comumente, “último livro” ou “trabalho em andamento”, ou “a mesma treta de sempre”, ou até mesmo “quadrinhos” etc. O termo deve ser empregado como insígnia ou bandeira velha que se levanta ao ouvir o chamado de batalha, ou quando se engasga ao perguntar onde fica tal seção na livraria que não conhecemos. Editoras poderão usar como bem entenderem, até significar ainda menos do que o nada que já significa. Mais: artistas de graphic novel têm bem a noção de que a próxima geração de artistas de história em quadrinhos escolherão as menores formas possíveis e que vão ridicularizar a arrogância de quem veio antes.

  10. As e os artistas de graphic novels reservam-se o direito de alterar todos os itens dispostos, se isso ajudar as vendas.

Manifesto em inglês.

Tradução do Pedro Moura.

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