[Bartheman] Grampo 2021

Grampo Tipo C 3 Polegadas Nove54 | Leroy Merlin

2020 é um ano interminável e ao mesmo tempo de uma agressividade ligeira: já anunciamos as listas do Grampo 21 e ainda estava nos meus rascunhos um começo de texto sobre minha lista do Grampo 20. Impossível lembrar de como eu era quando fiz a minha lista de então, era antes de março. Como diz a minha amiga Dafne Rossi, desde 2020 estamos contando o tempo em anos de cachorro.

Para falar das minha lista 21, vou tentar ser sucinta e escrever rápido, antes que me esqueça.

Um dos meus primeiros textos aqui no Balbúrdia era para tentar explicar a minha lista. Como bem disse o Ramon no último sábado, a ideia dessas listas do Grampo é uma fotografia do momento, e o tempo passa e a gente muda as vontades (e esquece, como esqueci 2019). Mas sempre tento dar alguma coesão, um motivo que refreie até a minha vontade pura, quadrinhos de apenas um tipo. Tento pensar em importâncias que reflitam o instante vivido, e com o exercício de imaginar o que pode contar sobre o nosso tempo.

E eis minha lista:

1) #@*%!!! (IMS);

2) Sabrina (Veneta);

3) Berlim (Veneta);

4) Carniça e a Blindagem Mística – Parte 1: É Bonito o Meu Punhal (independente);

5) Revista Pé-de-Cabra #3 (Pé-de-Cabra);

6) Ugrito #21: Eu Fiz uma História em Quadrinhos (Ugra Press);

7) Beco do Rosário (Veneta);

8) Sinuca Paranóide (Pé-de-Cabra);

9) Donos da Terra (Elefante);

10) A Alma que Caiu do Corpo (Veneta).

Esse foi o ano que tentei pensar mais quadrinhos que fale mais de nosso mundo. Decidi colocar dois quadrinhos que falam da questão indígena, A alma que caiu do corpo, do André Toral e Donos da Terra, de Daniela Fernandes Alarcon, Glicéria Jesus da Silva e Vitor Flynn Paciornik. O primeiro, uma edição atualizada de histórias esparsas de um dos nossos mais importantes quadrinistas e antropólogo, mistura histórias ouvidas por aí, cenas vistas também, pelo interior do Brasil. O segundo também foi roteirizado por uma antropóloga e uma indígena, e fala da resistência de um povo no Sul da Bahia. Nos últimos dois anos a violência contra indígenas e quilombolas está sendo sustentada pelo Estado na cara dura, e ainda não houve justiça pelos indígenas mortos (mais de 8 mil) durante a Ditadura iniciada em 1964. Esses quadrinhos nos colocam um pouco em contato com essas histórias, em desenho e quadrinização clássicos, na justa sobriedade que as narrativas exigem.

A Alma Que Caiu do Corpo – Loja Monstra
Os Donos da Terra (Daniela Fernandes, Vitor Flynn, Glicéria Jesus)

Da mesma forma, Beco do Rosário, da Ana Koehler e Carniça e a Blindagem Mística, do Shiko foram dois quadrinhos muito bem construídos em torno de relações periféricas da nossa história: a própria constituição das margens das capitais (no caso, a periferia de Porto Alegre) e a bandidagem no Sertão. Ambos são artistas do movimento, da cor, da aventura: aquelas histórias legais de acompanhar, e que imaginam outros lugares para o feminino, para a mulher, na nossa História.

Carniça e a Blindagem Mística - Pt. 01: É Bonito o Meu Punhal (Shik
Beco do Rosário - Editora Veneta

Não vou comentar de novo o Sabrina, pois escrevi sobre ele aqui. Já Berlim, do Jason Lutes (tradução de Alexandre Boide), de desenho extremamente meditado, traz uma narrativa polifônica em que o uso da página é primoroso. Tudo bem cuidado, tudo em seu lugar, mesmo se o mundo estava acabando por ali (e de novo, por aqui). Nós três organizadores do Grampo concordamos na infelicidade desse quadrinho ter sido pouco lido (um paralelepípedo, que é como os franceses chamam um tijolão). São desses livros para serem adotados nas escolas e explica não apenas o mundo, mas consegue costurar um tecido ficcional belo para nos fazer refletir sobre o horror.

Berlim - Editora Veneta

Não consegui evitar incluir uma derrisão pura como é o Sinuca Paranoide, de Victor Bello. Até a Pé-de-Cabra 3 foi uma edição em que a derrisão escancarava um dos grandes centros transmissores de nossa desgraça (apesar de seu editor, Carlos Panhoca, pensar como uma homenagem): a televisão brasileira. Além disso, como disse a amiga Amanda Miranda, comentando a mesma revista, essas antologias são uma forma de feira em papel: onde esbarramos nos autores que encontraríamos no espaço público de um festival qualquer, em um ano em que não pudemos encontrar ninguém. E essa edição tem muita gente que eu desconhecia, e vou colocar todos os nomes aqui para vocês conhecerem, também:

Benson Chin, Bernardo França, Karina D’Alessandre, Fralvez, Andre Nicolau, Victor Bello, Bruna MZF, Beatriz Shiro, Adriane Palmira, Renan Cesar, Fabio Lyra, João B. Godoi, Emilly Bonna, Señor Gualda, Moletom Fantasma, Arame Surtado, Bruno Nascimento, Mari Sori, Panhoca, Chico Felix, Pietro Soldi, Guilherme Caldas, Olavo Rocha, Kellen Carvalho, Iara Darkka, Leonardo Prado, Paulo Patrocinio, Thiago Souza, Victor Stephan, Marco Viera, Pedro D’Apremont, Lobo Ramirez, Fabio Zimbres, Kainã Lacerda, Sama, Adriano Janja, Batista, Carambola, Eme Podre, Jadiel Korake, Carlos Carcassa, Cynthia B., Braian Malfatti, Galvão Bertazzi.

Revista Pé-de-Cabra #3, vários autores

Tão incrível publicar tanta gente em uma edição tão bonita (capa do Benson com contracapa do Galvão), que vou deixar aqui minha fanart do último empreendimento do editor Carlos Panhoca (em sociedade com Gabriel Góes), o Tiger Fist.

Human Paws, por MC&LZ, d’après Batista

A narrativa absurda de Sinuca Paranoide nos confirma Victor Bello como um dos melhores textos do quadrinho nacional: em histórias sempre cheias de peripécias, o texto se descola completamente da realidade. Cada personagem tem tiques de linguagem como pessoas para quem finalmente passaram a palavra, como atendentes de telemarketing que usassem o manual in real life, porque é a única coisa que sabem sobre a vida. E, não bastando o absurdo, o desenho também usa recursos próprios a esse desconforto, cada personagem com seu maneirismo, seu modo de pensar e se mover na história. Não sei, ainda vou precisar me debruçar sobre os quadrinhos do Victor pra entender o que tem de tão engraçado, só sei que eu rio.

Sinuca Paranóide – Loja Monstra

A derrisão é importante para caramba nesses tempos de recrudescimento da censura, do terror ao humor, dessa pulsão de morte governando o país. Para esse Grampo, elegi o Victor representante desse gênero, no pequeno universo de quotas que crio para as minhas listas. E, na quota experimentação, Fabio Zimbres acaba sempre campeão do meu coração (aliás, emprestei meu Vida Boa para você? Não encontrei ainda). Eu fiz uma história em quadrinhos é uma história simples, mas Zimbres brinca com a página, brinca com a gente, no formatinho Ugrito que faz pensar na coleção criada pelo FZ, a miniTonto, de um tempo em que eu não vivia quadrinhos.

Ugrito #21: Eu Fiz Uma História em Quadrinhos (Fabio Zimbres)

Por último, gostaria de falar sobre o meu primeiro lugar, esse quadrinho tão impronunciável como tudo o que a gente sentiu e nem conseguiu colocar em palavras no ano que ainda nem passou. #@*%!!! talvez seja o quadrinho que mais me fez chorar na vida, em um momento que ainda não tinha caído toda a ficha para mim. Eu já tinha perdido a minha avó, perdia uma tia para o Covid quando o Diego Gerlach mandou para a gente a história, ainda no esboço. Levei uns dois dias para abrir, e não consegui ler inteira de um trato. Não apenas por chorar tudo o que ainda não tinha chorado, mas por me emocionar em como ele conseguiu colocar em quadrinhos toda aquela dor sem ficar piegas, sem autocomiseração, e ainda uma história linda sobre sobrevivência – aliás, de viver como for possível, antes que a gente enlouqueça.

Tenho bastante orgulho de ser amiga de Diego Gerlach, que conheci há mais de dez anos no Rio Comicon. Bastante observador, Gerlach tem um texto pleno de estilo próprio e bem particular, um vocabulário rico e robusto, além de um uso metódico do ruído e da profusão no desenho. À diferença do barroco desconcertado do Victor Bello, que aponta para a inaptidão de a gente dizer as coisas mais simples, o barroco do texto gerlachiano tem uma profundidade de um filósofo das ruas: rebuscado e inesperado. E nessa história tão íntima, de um momento doloroso e tão real, e que só pudemos acompanhar a 5 horas de ônibus e trem em que não poderíamos embarcar (e ainda não podemos), Gerlach soube construir um edifício poético particular.

Em um tempo em que os abraços estão interditados e ainda há gente dançando nos túmulos de nossos avós, é importante pra caramba saber que ainda tem pessoas que pensam tão bem e veem tão claramente o mundo que desmorona a nossa volta.

Publicado por mckamiquase

Maria Clara Ramos Carneiro on ResearchGate https://orcid.org/0000-0003-2332-1109

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