[Vá com o Carmo] Jiro Taniguchi e a soberania do tempo em dois quadrinhos

O Homem Que Passeia - Devir Devir

Vivemos em um tempo que não nos pertence, vivemos na sociedade do efêmero, do simultâneo, do excesso, no tempo do consumo que acaba por consumir a nós mesmos. Quando pensamos nos quadrinhos ou na nossa relação com os quadrinhos (de quem lê e de quem faz) podemos facilmente perceber bem como esse “tempo do capital” nos consome rapidamente pelas pernas.

O leitor, por sua vez, assoberbado pela quantidade de lançamentos, pelo custo, por seu limite de crédito, pelas lacunas de sua coleção, tem que escolher entre clássicos republicados, autores inéditos, edições omnibus, autores independentes, grandes nomes, e enfim…. o que comprar? E é esse o ponto. Sempre nos preocupamos com o que comprar, mas será que estamos preocupados com o que vamos ler?

A sanha do consumo nos impulsiona a adquirir, obter, comprar, colecionar, completar, exibir… ou no caso do autor, em vender, terminar, lançar, divulgar, engajar, propagar, garantir, ocupar, se sustentar… nos dois casos aqui grosseiramente resumidos, onde fica a experiência?

 O que proponho aqui não é uma reflexão sobre as fragilidades do mercado de quadrinhos brasileiro, sobre as mazelas dos autores nacionais em colocar o seu produto na praça, e nem mesmo sobre o consumo diretamente. Essas são discussões também necessárias e de primeira grandeza, mas o que proponho por hora, é uma reflexão sobre o tempo e a autonomia que nos falta em relação ao nosso próprio tempo.

Em uma aula magna, o escritor moçambicano, Mia Couto chama a atenção para a precariedade de nossa relação com o tempo, sempre pautada pela quantidade quando deveria ser pautada pela soberania. O que me faz pensar no quanto somos realmente donos desse tempo que sempre nos falta.

Parece que essa falta de soberania não é uma questão apenas aqui no ocidente. Jiro Taniguchi em sua produção mais madura, O HOMEM QUE PASSEIA (Devir, 2019, tradução de Arnaldo Oka), nos desafia a parar e a contemplar o efêmero, o transitório e o banal, subvertendo a imagem mental que todo ocidental faz das metrópoles japonesas: high-tech, neon, superpopulosas e efervescentes, impossíveis.

Em sua obra, A cidade é um espaço de devaneio. Seu protagonista está sempre aberto ao caminhar e a se conectar com o mundo, não o mundo do transporte e da velocidade, o mundo da máquina e do capital, mas aquele mundo essencial e primordial que só se encontra quando não se está procurando, o mundo das pequenas coisas. Para encontrar esse mundo é preciso estar disponível para ele, é preciso se desprender do tempo chronos, da quantificação e da mensura, o tempo do valor, da sucessão equânime e controladora de nossa vida, do calendário de compromissos, o tempo do trabalho, com início e fim determinados, e se entregar ao tempo kairós, o tempo oportuno, da ocasião adequada, do momento único, que pode ser infinito mas que também pode escapar e não voltar mais. O espírito do flâneur do século XIX ressurge no Japão contemporânea e nos mostra que ainda há tempo.

Página da edição de O Homem que Passeia

Já em O GOURMET SOLITÁRIO (Devir, 2020, tradução de Arnaldo Oka), Jiro Taniguchi e Masayuki Kusumi  nos convidam a celebrar um outra forma de experienciar a temporalidade: aion é o tempo indeterminado, com início mas sem um fim determinado, uma totalidade sem bordas, uma suspensão do chronos. Flanando por bairros diversos de um Japão poliédrico, o protagonista se lança em experiências gustativas das mais diversas (e exóticas aos olhos ocidentais) em busca de saciar não só a fome, mas também um “bem-viver” expresso nas minúcias do ordinário, nos intervalos cada vez mais curtos de uma vida que nos exige a cada dia mais.

Página da edição de O Gourmet solitário

Parafraseando Francesco Careri, essas duas obras constroem uma ponte entre o caminhar e o parar, entre o ir e o ficar, entre o nômade e o sedentário. As deambulações sem destino, paradeiro ou final determinado das personagens de Taniguchi evocam o flânerie dos surrealistas parisienses que se deixavam perder pelas famosas passagens, o que por sua vez, nos remete a ideia de deriva, termo náutico que expressa bem as ambiguidades e o desejo do acaso, o navegar ao sabor da correnteza. Mas em toda caminhada sempre há o parar. Essas longas pausas em Taniguchi se abrem para a reflexão e o devaneio, para o encontro com a experiência e consigo mesmo.

Mas como podemos nos (re)apropriar desse tempo (kairós/aion) e recuperar a nossa soberania? precisamos nós de mais tempo?

Como nos lembra Mia Couto, não precisamos de mais horas em cada dia, ou mais dias na semana, não precisamos de mais tempo. O que realmente precisamos é de um tempo que seja nosso.

A lição que Jiro Taniguchi nos lega é a valorização do tempo da experiência. Em um mundo ideal, o tempo de quem lê, de quem produz, deveria ser pautado pela soberania, e não pela quantidade.

Publicado por Valter do Carmo Moreira

Professor, pesquisador, autor de histórias em quadrinhos e artista plástico.

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