[Vá com o Carmo] Alberto Breccia, Alfred Hitchcock e a poética do feio na HQ “Buscavidas”

Capa de “Busca vidas” e Alfred Hitchcock no set de “Os Pássaros”

Em BUSCAVIDAS de Carlos Trillo e Alberto Breccia (Comix Zone, 2020, tradução de Jana Bianchi) o leitor acompanha as peregrinações de um muito excêntrico colecionador em busca de… histórias! Seu protagonista/narrador pode não ter nome, mas muito se assemelha a efígie icônica de Alfred Hitchcock e não por acaso, a estrutura episódica das histórias escritas por Trillo nos remete de imediato ao clássico programa de TV dos anos 1950; Alfred Hitchcock presents, ciceroneada pelo mestre do suspense em pessoa.

Para além do aspecto físico mais evidente, o Colecionador também empresta da persona ficcional do diretor de cinema seu humor sombrio e mordaz, além do cinismo característico muito bem explorado nas aberturas de cada um dos episódios da série Alfred Hitchcock presents.

A obra foi publicada originalmente entre 1981-1982, período final do que poderíamos chamar de segunda fase da ditadura militar argentina (a primeira foi de 1966 até 1976), autodenominado de “Processo de Reorganização Nacional”, também conhecido como Guerra Sucia (Guerra Suja) que durou de 1976 até 1983, caracterizado pelo terrorismo de Estado, violação massiva dos direitos humanos, tortura, mortes e desaparecimentos.

A edição da Comix Zone traz, além dos 13 contos originais, um 14° publicado em 1984 agraciado com a participação de Mort Cinder e Ezra Winston, protagonistas de outra série desenhada por Breccia (Mort Cinder, publicado pela Figura em 2019, com tradução de Ernani Ssó) e escrita por Héctor Germán Oesterheld, “desaparecido” pela ditadura militar argentina em 1977.

Detalhe uma página de “Busca vidas”

A sombra da ditadura (nunca citada diretamente) se projeta sobre todas as narrativas. O leitor atento poderá perceber a “sutil” repressão policial e a extrema violência do “Processo de reorganização nacional”  que perpassa, na surdina das histórias em foco, por meio de onomatopeias, balões e silhuetas espalhadas pelas páginas.

Para citar uma das várias referências, podemos ver na imagem a seguir um abutre carregando um homem no canto superior esquerdo do quadro, que faz referência direta aos chamados “voos da morte”, uma das formas que o Estado argentino encontrou para “sumir” quem se levantasse contra a ditadura, manobra que consistia em jogar as pessoas ao mar ainda vivas.

Detalhe uma página de “Busca vidas”

Já a arte de Alberto Breccia, em um preto e branco de alto contraste, busca no expressionismo de artistas como Emil Nolde a tenaz deformação física de seus personagens, além da abolição dos limites entre figura e fundo.

“Mann und Wibchen”, 1912 de Emil Nolde

O Expressionismo enquanto movimento artístico de vanguarda surgido na Europa no início do século XX, mais precisamente na Alemanha, se contrapões ao positivismo de movimentos contemporâneos como Impressionismo e o Naturalismo. Manifesta diante das agruras da realidade alemã uma atitude volitiva, por vezes agressiva, em um processo de subjetivação por meio da deformação. A poética expressionista é a primeira poética do feio.

“Strange Wanderers”, 1923 de Emil Nolde

É nessa mesma chave que Breccia assume a fealdade objetiva (que diz respeito à forma plástica) para representar a fealdade subjetiva (a realidade presente da Argentina).

A deformação expressionista e, por extensão, a de Breccia, não é uma caricatura da realidade, é a beleza transposta da dimensão ideal para a dimensão do real, invertendo seu próprio significado, tornando-se uma beleza demoníaca.

 A organicidade de seu desenho consegue superar a convencional tensão entre primeiro e segundo plano, evocando a bidimensionalidade da página num amálgama de figura e fundo, narração e narrativa, personagens e cenário, memória e imaginação.

Detalhe uma página da edição argentina de “Busca vidas”

Suas figuras ostensivamente feias, subvertem o cânone de representação corrente dos quadrinhos, adquirindo uma força descomunalmente proporcional ao teor não das histórias, mas do subtexto, o que nos remete novamente a Alfred Hitchcock.

Uma página de “Busca vidas”

Hitchcock foi o responsável por popularizar um dispositivo de enredo utilizado como estratégia propulsora ou motivadora da ação do protagonista que o persegue, chamado MacGuffin.

O MacGuffin pode ser um objeto físico, como o dinheiro roubado em Psicose; um lugar, como o planeta Edmunds em Interstellar; uma pessoa, como é o caso do Ryan em O Resgate do soldado Ryan ou mesmo um conceito abstrato como as confidências catalogadas pelo Colecionador em Buscavidas.

As histórias coletadas pelo Colecionador são apenas elementos superficiais, disparates que abrem caminhos para a verdadeira investigação proposta por Trillo e Breccia: a capacidade humana de alienação e banalização do Mal, tomando a fealdade como fio condutor que denuncia e desmarcara.

De forma oposta, o cinema de Alfred Hitchcock também lida em suas entrelinhas com natureza perversa humana manifesta, por sua vez, não pela fealdade homológica, mas na frivolidade e no hedonismo burguês que encontra seu ápice em Festim diabólico (Rope, 1948).

Buscavidas de Trillo e Breccia, prestes a completar 40 anos da primeira publicação, com muito pouco nos dá uma grande lição sobre as potencialidades da linguagem dos quadrinhos e a ainda pouco explorada poética do feio.

Publicado por Valter do Carmo Moreira

Professor, pesquisador, autor de histórias em quadrinhos e artista plástico.

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