
Não é lá muita novidade o engalfinhamento entre quadrinhos e autobiografias. Quantos gibis em que o personagem tem o mesmo nome da autoria na capa? Uma carrada, né?
Esse lance de contar sua própria vida em quadrinhos é produtivo. Produtivo no sentido de gerar páginas e páginas com as (nem sempre empolgantes) vidas de quadrinistas.
Meio que todo mês tem lançamento de um gibi autobio, seja de editora grande, seja independente. A gente pode começar a pensar nos nomões tipo Robert Crumb e Will Eisner, entre trocentos outros, que se quadrinizaram, gerando todo um estofo pra que ficar falando de si fosse legítimo, fosse bonito, fosse comercial. E enquanto Eisner contava suas histórias no subúrbio de Nova York com delicado verniz poético, Crumb se expunha como uma pessoa escrota com grossas camadas de lama.

Até aqui tudo bem, mas daí que em algum ponto da constelação da história, as autobiografias em gibi saem do cercadinho e chegam nas listas dito sérias e nos prêmios dito sérios e no gosto do grande público (dito sério), tipo Maus, Persépolis, Fun Home.
Um pensamento lateral: há também de se considerar a importância que a autoficção ganhou no cinema e na literatura nas últimas décadas, gerando uma compreensão pública de que falar de si não é só aceitável, como pode ser muito massa. Vale lembrar que existe muita intrusão do autor na ficção; cito, por exemplo, o quanto da vida de James Joyce está em sua literatura, e como a vida da Sofia Copolla invade seus roteiros.
Já não sei mais se foi o fator biográfico que pesou na percepção de literatice dessas obras ou se foi a percepção de literatice em obras que, por acaso, eram autobio, criou esse efeito literário no “se desenhar” na página. Já vivemos o ponto da história que a própria noção de graphic novel se confunde com a de autobiografia em quadrinhos.
Voltemos a um exemplo jogado ali em cima.

Em Alison Bechdel, a questão biográfica sempre foi um ativo da autora. Na tira Dykes to Watch Out For (saiu uma seleção dessas tiras no Brasil: O essencial de perigosas sapatas, Todavia, 2021, tradução de Carol Bensimon), Bechdel já trazia recortes do que ela, namoradas e amigas tinham passado pra construir a vida ficcional daquele grupo de mulheres. Ela tem até uma alter EGA lá, a Mo. Ao construir suas obras longas, o passo para a autobiografia escancarada era apenas o óbvio a se fazer. E nos três livros que entrega a partir de então, trabalha em algo que gosto de pensar como se fosse um quadrinho-ensaio.
Falar de si pode ser uma boa terapia – muitas vezes, é bem nisso que consiste o processo terapêutico. Falar de si em quadrinhos pode ser muito importante para expor traumas, lidar com medos e ansiedades, pensar sobre o próprio comportamento. Mas nem sempre a escrita terapêutica é uma obra interessante. De novo, é possível se relacionar com obras ruins, tipo aqueles filmes jaguaras que a gente viu na infância e que nunca vai admitir que são umas nabas. É possível estabelecer relações com locais, com plantas, com sapatos, mas nem sempre isso vai ser mediado por um trabalho de linguagem em que aquilo ganhe força.
As lembranças podem ser ativadas por uma lista de palavras, por uma bolachinha proustiana, por uma estampa de camisa; são valiosas, são humanas, mas são cavalos loucos que correm por aí e, às vezes, nos atropelam, às vezes nos levam no lombo e, às vezes, não.
Proponho que é impossível transitar por uma linguagem, por um meio, sem usar aquela linguagem. É possível não inovar, trabalhar com códigos absolutamente aceitos e conhecidos, é possível usar de rabiscos e não de desenhos, é possível subtrair o texto ao máximo, mas não tem jeito, fazer quadrinhos é usar o pensamento de quadrinhos. E negar ou não perceber isso, nos leva a obras que torcem pela empatia da memória, em lugar de agir pelo trabalho dos/com os quadrinhos.

Daí aqui eu paro tudo pra falar de Filosofia do mamilo (Veneta, 2024), de Kael Vitorelo.
(mas que volta sem noção, hein? Não podia falar logo do gibi da pessoa?)
Mas então: Vitorelo é uma autora que já chamava atenção na sua Tilt (independente, 2018), fez postal pro parça Ramon Vitral, e tem produzido histórias beeeeeem interessantes em coletâneas de quadrinhos. E aí veio o Kit Gay (Veneta, 2021) (segura essa informação que a gente já volta) e então Filosofia do mamilo. Ah, no meio disso o espetacular Ugrito Judite (Ugra Press, 2022).

Ou seja, Vitorelo ocupa aquele ponto na cena em que qualquer coisa que sai das mãos dela deveria ser lido.
A artista, que é uma pessoa trans e não binária, tem lidado justamente com essa temática em sua obra mais recente, inclusive nos dois livros que saíram pela Veneta. Aí a gente já vê a entrada autobiográfica. É claro que Vitorelo podia tratar desses temas sem se incluir de forma explícita, mas se inclui. E aqui a narrativa ganha, porque se trata de perrengues que ela passou por ser quem é, potencializando a nossa percepção sobre a obra, no famoso efeito de “caramba, então isso é verdade?”.
(Algumas vezes, tudo que sobra é “o gibi é ruim, mas, caramba, então isso é verdade?” – decididamente, não é o caso de Filosofia do mamilo).
A trama é o imbróglio jurídico, médico e burocrático que a autora sofreu pra conseguir a cirurgia da remoção dos seios. Por mais que a situação esteja documentada e realmente tenha sido passada pelo CPF de Kael Vitorelo, me interessa muito mais o modo como o gibi foi elaborado do que os fios que o ligam à realidade.
Lá em cima falei de Kit gay, outro livro de Vitorelo. Nele, a gente já vê a autora trabalhar em um formato COLATERAL aos quadrinhos.

Não é um quadrinho no sentido mais comum da palavra, mas é feito por uma quadrinista, lançado por uma casa editorial reconhecida pelos quadrinhos, circulou na cena brasileira de quadrinhos, foi vendida pra quem lê quadrinhos. Em termos que desenvolvo na minha tese, eu diria que Kit gay está inserido no sistema quadrinístico e ser ou não um gibi é algo de menor importância dentro dessa perspectiva: o livro existe, usa algumas MANHAS de quadrinho, informa sobre gênero e sexualidade, diverte, tira onda com os conservadores. Só vitórias (A MC já comentou brevemente aqui no Balbúrdia mesmo sobre isso)
Já Judite é uma space opera que justapõe o texto bíblico de Judite. É um quadrinho pequeno, que acho que vale mais INSTIGAR a ler do que EXPLANAR sobre ele, porque com 8 conto você compra e lê (tira o escorpião do bolso).
Lembra que eu falei que considero que a Bechdel faz quadrinho-ensaio? Pois então, Vitorelo também fez no Filosofia do mamilo. Seriam características desse “gênero” quadrinístico uma atenção maior ao tema que a narrativa, inserção de elementos autobiográficos ou históricos ou “reais”, e a postulação de uma tese e sua devida argumentação. Por hoje, serve esse pouco aqui.

(esse tema deve render um texto específico ainda, mas não prometo nada. A MC e eu temos um artigo acadêmico sobre a Bechdel no prelo também. São exemplos desses ensaios em quadrinhos as obras Liv Strömquist [publicada por aqui pela Quadrinhos na Cia.] e Odyr na sua história da MPQ: Samba [Brasa, 2024])
Em seu ensaio, Vitorelo testa e atesta a invisibilidade pra questões desviantes da binariedade de gênero, em que tudo que foge a norma “isso ou aquilo” acaba sem lugar e etiquetado como inexistente.
O quadrinho gira em torno de Vitorelo e seus perrengues pra tentar se operar, o que é autobiográfico. O lance aqui é que a autora desdobra quadrinisticamente a situação.
Primeiro, ao investir em quadrinho-ensaio, o que já ligeiramente comentei. Nesse modelo, as colagens de recortes de texto de revistas e jornais são uma prática comum. Vitorelo também desenha documentos, exames e processos judiciais, em um modo de engolir a realidade pelo desenho (algo também usual no quadrinho-ensaio). Isso tudo ao lado da autorrepresentação da autora dão um verniz de efeito de autenticidade em tudo que a obra mostra. Essa autenticidade aqui é importante em nome do efeito emocional que se faz necessário pra falar de algo que inspira tanto ódio no coração e violência, como a burocracia dos planos de saúde.

Do ponto de vista técnico, há que se destacar o uso das texturas nos desenhos, sempre conduzindo o tom emocional da história. Esse recurso é de uma delicadeza e de uma eficiência comovente. Observe os fundos, como aquele cinza não é um fundão sem graça, mas diversas variações, aumentando e reduzindo a iluminação da página com um recurso puramente de desenho.
Já a quadrinização corre mais solta, com páginas que variam de grade e de peso, o que, nesse caso, traz dinâmica pro gibi – o famoso efeito “não consigo parar de ler”. Ajudam nisso também a disposição textual, pois por mais que a quantidade de texto seja grande, por meio de blocos bem ajustados, uma frase puxa a outra e gera um fluxo. E aí já aproveito pra falar que Vitorelo escreve bem demais. Sua argumentação é sensata e bem pensada, enquanto o desespero fica pra personagem na situação kafkiana que ela vive(u).
O fazer de si personagem traz a dicotomia do afastamento previsto pela ficcionalização, ao mesmo tempo que há uma proximidade inexorável da memória, com amarras reforçadas pelos momentos de angústia e de incerteza no passado.
(daqui em diante vou tratar de detalhes do final do livro. Se não quiser saber disso antes de ler o gibi, pare agora)

Pois bem, tá sabendo que vou comentar o desfecho, né?
Uma última chance pra sair e voltar depois.
Tá.
Vitorelo tem um problema narrativo na mão. Como Filosofia do mamilo traz os fatos que aconteceram com a autora, o final só poderia ser o fato dado.
Pois então: Vitorelo consegue a cirurgia por meio de uma derrota. Ela mesma precisa usar todas as economias pra bancar a operação. O que, diriam os estudiosos de atos e curvas dramáticas, é um ponto errado narrativo. Porém, Vitorelo tem uma caixa de recursos muito grande à mão. Ela faz aquilo que seria um anticlímax dentro de uma narrativa convencional virar uma superdiscussão sobre a sucessão de becos sem saída legalistas para onde ela foi enviada, um depois do outro, até o ponto em que ela desiste e consegue seu objetivo pagando por ele.
Esse ponto baixo da narrativa não poderia encerrar uma obra que traz novas perspectivas sobre gênero e as mesmas visadas sobre a burocracia e o sufocamento que os planos de saúde impõem às pessoas. Daí que a autora encerra o quadrinho com um passeio pela praia, sem camisa, após a operação, em que uma criança reinstaura a dúvida sobre o encaixe binominal. Ou melhor, não é a dúvida, mas a dubiedade, a definição escorregadia sobre gênero, um dos objetivos da autora nessa obra.
Dessa dubiedade restaurada, a pessoa que leu o livro encontra uma pacificação inquieta, pois traz uma espécie de consolação pelo final em que a protagonista consegue seu objetivo, ao mesmo tempo que a vitória dela carrega as marcas das mesmas incompreensões e inflexibilidades de um sistema que resiste a mudar.
Mas a cada obra dessas, as coisas dão um balançada. E não é assim que as coisas começam a se mexer, de pouco em pouco?
