[Vem comigo] Claire Bretécher

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“Esqueci minha pílula, aí esqueci que tinha esquecido, aí esqueci da senhora, mas agora me lembrei, então me dá a pílula do dia seguinte ou eu te passo”

Há muito tempo gostaria de escrever sobre a Claire Bretécher. Pena conseguir apenas hoje, dia da morte da autora, aos 79 anos. Bretécher, uma grande socióloga, segundo Roland Barthes, descrevia a hipocrisia burguesa e seu tédio. Começou a fazer quadrinhos nos anos 1960, tendo participado da Pilote de René Goscinny, e fundado a Écho des Savanes com outros autores da primeira revista, jovens cansados do editor em cima do muro.

Além de ter escrito a vida de Santa Teresa D’Ávila em quadrinhos (na verdade uma série cômica sobre a santa), suas séries mais famosas foram Les Frustrés, em que apareciam em geral famílias e amigos discutindo falsas amenidades, e Agrippine, uma adolescente… adolescente, “sem papas na língua”.

As poses de Agrippine

Aquele humor ácido e cheio de tédio: ela respondia secamente em entrevistas, que detestava. Não fazia a mínima questão de agradar. E seus personagens eram um tanto assim.

Lá pelo minuto 4, ela dá patadas no jornalista, que revida. A Catherine Meurisse (que sobreviveu por um atraso ao Charlie Hebdo) comenta que essa maneira de não agradar deveria ser um modelo, ainda hoje. O vídeo percorre a exposição de Bretécher na Biblioteca Pública de Informação do museu de arte contemporânea Georges Pompidou, em 2015.

Lembro de algumas páginas de um tribunal que julgava toda uma família. As maiores atrocidades e perversidades cometidas, mas tudo hipocritamente bem justificado pelas relações estabelecidas.

No Brasil, aparentemente só teve essa edição da heróica Marca de Fantasia (obrigada, Dandara, pela lembrança!). Hora de uma edição antológica?

“não é uma dificuldade pesada ser homem nas histórias em quadrinhos?”

(Achei, no entanto, um livro sobre ela em português!)

[Bartheman] "No meu tempo…" ou: os melhores quadrinhos da primeira década do século XXI

Enquanto o mundo faz suas listas dos melhores e melhores da nata do disco, do gibi, do livro, do diabo a quatro, comecei a pensar na década anterior e como comecei a ler quadrinhos mais intensivamente. Então, em vez de uma retrospectiva da década anterior, começo essa série aqui com lembranças do tempo da Carochinha.

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[Videoshow] Balbúrdia na Sala Tatuí

Quando comecei aqui no Balbúrdia, minha primeira proposta foi a de criar uma oficina permanente de quadrinhos sob restrição, na rubrica 1, 2, 3… já! Está um tanto desatualizada por aqui, mas Lielson e eu continuamos a difundir essas técnicas de escrita e de quadrinhos por aqui, por ali. E este mês, em São Paulo, capital, vamos levar as oficinas para a Sala Tatuí.

No dia 28 de janeiro, oficina de escrita sob restrição (ou seja, OuLiPo). a ideia de escrita criativa vista pelo lado de criação de regras autoimpostas, exercícios de criatividade e pequenos processos contra o tal bloqueio.

No dia 29 de janeiro, é a vez da oficina de Quadrinhos sob restrição (OuBaPo). E nem precisa saber desenhar!

O Oulipo ou Oficina de literatura Potencial (Ouvroir de littérature potentielle) é um grupo de autores que se reúne para pensar coletivamente como produzir a partir de um jogo, de criar uma dificuldade extra para além das restrições de gênero/estilo. Ao contrário do que se espera, tais restrições democratizam mais a escrita, pois aprofundam a compreensão do processo de criação literária, uma consciência maior do texto para além de uma impressão de um sujeito (o gênio). É antirromântico, e se tenta anti-acaso. E, em geral, é engraçado. O Oubapo é o grupo análogo em quadrinhos (Ouvroir de bande dessinée potentielle). O potencial dos grupos significa isso, mais restrições para futuros autores, abrir caminhos. Além de permitir o jogo sem pretensões de obras-primas.

A Sala Tatuí é um desmembramento da Banca Tatuí, que há pelo menos 6 anos ocupa um espaço importante na venda de obras independentes. E é um projeto da Lote 42, editora da Cecília Arbolave e João Varella, também organizadores da Miolo(s)!.

Se interessou? então você pode se inscrever por aqui: Escrita (28/01) | Quadrinhos (29/01)

[A Consciência de Zeni] Dicionário Crítico

Este texto é um pouco engodo, porque a marca [A Consciência de Zeni] é pra colunas. Hoje, vai só um link, mas vale como uma coluna.

Uma publicação de texto meu em dossiê voltado para as histórias em quadrinhos, organizado pelo Ciro Marcondes, do Raio Laser, e Alexandre Linck, do Quadrinhos na Sarjeta.

Sugiro um passeio por toda a revista, mas como sou de vaidades, este aqui é meu artigo. É uma versão da minha apresentação no Jornadas Internacionais de Quadrinhos de 2019.

Eu tentei hackear o estilo de Walter Benjamin (o Kenneth Goldsmith achou um quadrinho com o Benjamin! foi de lá que peguei a imagem de abertura, mas até o momento não identificamos seu autor), misturar com o de Georges Bataille na produção de um dicionário crítico de histórias em quadrinhos. O porquê de ser dicionário, da escolha dos estilos e os próprios verbetes estão explicadinhos lá no artigo, que convido geral pra ler.

[Videoshow] Minhas traduções em 2019

O Érico Assis lembrou de postar os livros massa que ele traduziu e não vai poder votar nos melhores do ano. Como sou copiona, vai aqui a minha lista de traduções que VOCÊ poderá escolher como melhor do ano!

TANKA, de Sergio Toppi. Editora Figura.
A Figura vem se esmerado em trazer os maiores ilustradores de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Tanka é o terceiro livro do italiano Sergio Toppi que traduzo para a editora (também verti os dois volumes de Sharaz-De). Nesse livro, o autor explora um Japão imaginário, com os senhores feudais corruptíveis, guerreiros caídos e princesas solitárias.
*Traduzido do italiano.

A MÁSCARA DA MORTE RUBRA e outros contos de Poe, de Dino Battaglia e Laura Battaglia. Editora Figura.
Alguns dos melhores contos de Edgar Allan Poe adaptados pelo ilustrador italiano: além do conto de título homônimo, “Ligeia”, “A extraordinária aventura de Hans Pfaall” e o meu preferido, “A queda da casa de Usher”.
*Traduzido do italiano.

FRANCIS, de Loputyn. Editora Darkside.
Como “fundadora” da Darkside (trabalhei como editora lá em seus primórdios, até me dedicar à pesquisa e ensino a partir de 2013), sempre bate um orgulhinho vendo a que ponto chegaram: um público cativo e edições maravilhosas. E bate ainda mais um orgulhinho por continuar colaborando com traduções bonitas assim.
Francis é a história de uma bruxinha em formação. Mas como muitas jovens, ela não quer saber do sistema meritocrático e prefere a gandaia. Até que Francis aparece…

AURORA NAS SOMBRAS, de Fabien Vehlman e Kerascöet. Editora Darkside.
A obra do casal de desenhistas Kerascöet (Marie Pommepuy e Sébastien Cosset) e do roteirista Fabien Vehlman prima pela beleza que esconde ações absurdas. Criaturinhas terríveis que enganam, e a pobre Aurora só queria organizar a vida comum…
*Traduzido do francês.

TRAVESTI, de Edmond Baudoin (adaptação de romance de Mircea Cărtărescu). Editora Veneta.
Baudoin tem um pincel maravilhoso, o traço dele dança nas páginas. Apesar de ter participado da primeira Rio Comicon em 2010, o quadrinista, que publica desde o final dos anos 1970, só teve um livro anteriormente publicado no Brasil, ilustrações de um romance de Fred Vargas, Quatro rios.
Autor de muitos relatos ternos de viagem, seu passeio pela Budapeste do autor e do protagonista de Travesti se intercala com os relatos de sonho e delírio do romance um tanto surrealista do Cărtărescu. A autoficção do autor romeno se mistura às leituras do quadrinista francês, e vamos descobrindo pelas imagens e pelo texto a história de Victor, sua irmã e Loulou. É um livro denso, que explora a sexualidade do personagem narrador, um chato na adolescência com o único desejo de ser um grande escritor – e todo o resto reprimido.
*Traduzido do francês.

JEANINE, de Matthias Picard. Editora Veneta.
Já comentei sobre esse livro aqui, bem antes do projeto avançar. Li as primeiras páginas da entrevista em quadrinhos da Jeanine/Isa a Sueca na finada revista Lapin, da L’Association. Mais ou menos nessa época passei a acompanhar as postagens de Monique Prada, e a conhecer o ativismo das trabalhadoras sexuais.
Uma das minhas maiores alegrias é ter um posfácio da escritora e ativista Monique nessa tradução, em que ela atualiza ali o histórico dessa luta. Matthias observa sua vizinha e duvida de suas histórias – uma senhorinha prostituta, com problemas de saúde, será mesmo que ela lutou na guerra e nas trincheiras pela regulamentação do trabalho sexual? O traço de Matthias é fino e contínuo, às vezes um pincel à la Baudoin vai nos trazendo essa história real, de uma mulher real, mesmo se a memória às vezes falha.
(E recomendo muito a Monique! Para entender o trabalho sexual em uma perspectiva feminista bem ancorada nas questões de classe e lutas sociais).
*Traduzido do francês.

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