[Vem comigo] O cadáver animado de Frédéric Boilet em O Espinafre de Yukiko

Capa de O Espinafre de Yukiko

Abrimos os olhos para Tóquio. Quadros pretos e, então, luz, formas fotorrealistas e paisagens urbanas. Estamos passeando por fragmentos de Tóquio conduzidos por uma narração econômica, uma voz. De quem é essa voz? Voltamos ao sonho. Folha de caderno como uma abertura de capítulo. O início da história: um retorno ao lugar antes do livro. Ao olharmos para Yukiko pela primeira vez, estamos em um mundo onde aquele livro ainda não foi feito. Estamos lendo sua feitura, o seu desenlace antes do útero, enquanto contemplamos imagens de ausência.

“Quadros pretos e, então, luz…”

Ausências peculiares que dizem continuamente que algo está aqui. Pensar a ausência leva a entender que algo desapareceu. Havia alguma coisa nesse lugar, nesse espaço vazio, que não está mais. Uma perda (talvez?). Ou um apagamento. Um ocultamento. Uma morte.  Uma ausência que expressa a presença daquilo que falta. Não seria essa toda a ausência? Ou pelo menos a expressão da ausência?

Acredito que não exatamente. Acredito que haja pelo menos dois modos comuns de retratar a ausência. 

A primeira é através da falta de algo. Pensemos no poema “Uma faca só lâmina”, de João Cabral de Melo Neto. Na primeira sequência de estrofes, há uma ausência sendo expressa pelo uso de conjunções subordinadas comparativas (assim como… / igual a… / qual…) sem um referente. As primeiras estrofes do poema são orações subordinadas que carecem de uma oração principal. É uma ausência na sintaxe dos versos. Quando João Cabral diz:

Assim como uma bala

enterrada no corpo,

fazendo mais espesso

um dos lados do morto

Não há o “aquilo que é como uma bala”. Não há sujeito.

A segunda maneira é pela transformação da ausência em um tema ou um signo que remete à ela. João Cabral também usa desse mecanismo em “Uma faca só lâmina”. Na sequência seguinte de estrofes, ao dizer:

Seja bala, relógio,

ou a lâmina colérica,

é contudo uma ausência

o que esse homem leva

A ausência é materializada nos versos do poema. É invocada como signo, não só metáfora. Ela não oculta a si mesmo (como estava fazendo no segmento anterior), mas revela-se.

Fetiche e fantasia.

Voltando às primeiras páginas de Espinafre de Yukiko (Conrad, 2005, tradução de Ana Ban), o leitor está em um olhar, na visão de um alguém. Um alguém sem rosto, que é o leitor ao mesmo tempo em que não é. O alguém — que por uma mera conveniência será associado ao autor — esconde-se tímido dos olhos daqueles que vai julgá-lo. Ele nos projeta em seus olhos. Ele nos pede compreensão e entendimento, antes mesmo que o leitor saiba a quem vai avaliar. E o primeiro fato do qual somos informados é a Yukiko.

Se o autor é como um voyeur que fantasia e fetichiza a imagem dessa mulher, somos postos na mesma posição e convidados a ver, contemplar e fantasiar. “Nossa… Mas você é mesmo linda de se olhar… Seu pescoço… Seus ombros… Sua barriga… Seu espinafre…” (pp. 8 à 12). Não por acaso, a primeira imagem de Yukiko focaliza justamente seu pescoço e seus ombros. Somos projetados no espaço vazio, no voyeur tímido, e somos forçados a participar. Quando Yukiko olha o autor, ela nos vê. Somos o preenchimento da ausência do sujeito. Somos a afirmação da morte que paira sobre o quadrinho.

Convite ao voyeurismo.

Georges Bataille tece a relação entre morte e erotismo a partir de Emily Brontë, em sua leitura de O Morro dos Ventos Uivantes, um capítulo de seu A literatura e o mal (Autêntica, 2017, tradução de Fernando Scheibe). Não é o primeiro autor que observa que a sexualidade implica na morte, mas, no desenvolvimento de seu pensamento, a morte implica em destruição. “Reproduzir-se é desaparecer” (2017, p. 14), mas não por meio da concepção de uma criança, que vai lhe substituir e assumir seu lugar no futuro (a perpetuação do eu). Reproduzir-se — que é um mero eufemismo para sexo — é destruir a si mesmo. É apagar-se como indivíduo. É a morte como ser de solidão. “Quer se trate de erotismo puro (de amor-paixão), quer da sensualidade dos corpos, a intensidade é maior na medida em que a destruição, a morte do ser transparecem” (2017, p. 15). E é necessário pensar em destruição ao se ler O Espinafre de Yukiko, pois é um quadrinho de destruições contínuas, mortes sequenciadas.

A primeira e principal é naturalmente a morte do autor. O texto é um espaço onde aquele que escreve não pára de desaparecer, como disserta Michel Foucault na palestra “O que é um autor?” (contido em Estética: Literatura e pintura, música e cinema, Editora Forense Universitária, 2009, p. 268, tradução de Inês Autran Dourado Barbosa). Roland Barthes, no texto que inspira a palestra de Foucault (“A morte do autor”), rastreia a origem desse desaparecimento à Mallarmé, que busca o apagamento do “eu” em privilégio do texto (Rumor da língua, Martins Fontes, 2012, p. 59, tradução de Mario Laranjeira). Fazer o texto falar por si só.

Em O Espinafre, o autor, que também é personagem, é uma ausência que continuamente se apaga, mas também se revela. Ele é a estética e a mão que perpassa as páginas e os quadros, e o texto que se impõe e cadencia o livro, assim como é o personagem que conduz a história. Só que não o vemos na maioria das páginas e somos postos, como leitor, no espaço vazio deixado por esse personagem-autor. Estamos no seu túmulo: o quadro lacunar que transmite a incompletude da falta de uma presença. A imagem ausente.

A morte e a escrita possuem uma relação íntima e antiga, como notado por Foucault (2009, p. 268). Por vezes, como uma maneira de afastar a morte (pensando em As Mil e uma Noites), por vezes, como maneira de cortejá-la, de seduzi-la.

Em O Espinafre, a morte significa a produção do livro, o filho não pretendido, a destruição daquilo que era antes, a destruição do sujeito. Significa a morte do relacionamento e a morte de Frédéric Boilet como o personagem que viveu o romance com essa jovem japonesa. Ao término da história, ele deixa de ser personagem e torna-se apenas o homem que a perdeu. Contar a história é uma maneira de mantê-la consigo, de se agarrar às imagens de Yukiko por mais algum tempo. É também uma maneira de perpetuar-se, de imortalizar-se, mesmo através de sua morte. Pois relacionar-se é investir em algo além de si mesmo, assim como produzir um livro. O livro substitui a projeção de imortalidade do relacionamento, mas significa sacrifício. Significa apagar a si mesmo e morrer, se destruir. E Frédéric Boilet faz isso tornando-se imagem ausente. Ausência expressa das mesmas duas formas que expus em “Uma faca só lâmina”: a partir da falta do personagem como imagem que conduz a trama e a partir do signo da ausência que se apresenta de diferentes maneiras ao longo do quadrinho — como na possibilidade constante dos dois se separarem e do prazo de validade do relacionamento. 

“a morte significa a produção do livro, o filho não pretendido, a destruição daquilo que era antes…”

O Espinafre de Yukiko não é uma história de um amor para se lutar, mas um amor para se perder. O quadrinho é uma lembrança revisitada e refeita dos melhores momentos do curto relacionamento. Ato cruel performado pelo autor de rememorar a própria destruição, de contemplar a própria morte, seja no processo de produção do livro, seja nas cenas de sexo. 

A grande crueldade de Boilet é impor ao leitor o seu papel de Otelo, o papel do perdedor no sentido mais pleno daquele que perde algo. Ou, nesse caso, daquele que abre mão de algo. Boilet não luta, não se revolta, mas busca a destruição. É um suicida. Daí reside o seu grande sadismo, o que me leva novamente a Bataille, onde, “no sadismo, trata-se de gozar com a destruição contemplada, a destruição mais amarga sendo a morte do ser humano” (2017, p. 15). 

O mal, que surge como tema em consequência do sadismo, é a atração pela morte, é o seu cobiçar tão vividamente que, no final, ele se levanta, abandona Yukiko, caminha para um café e produz a história. Torna sua perda a perda de outros, enquanto oculta-se. Por vergonha ou por compreensão? Apagando-se, ele se projeta em outros e abre um espaço vazio que deve ser preenchido durante a leitura. O curto relacionamento, quase uma exposição não confiável, são fatos dispostos à avaliação do leitor. 

Como cadáver animado, Boilet é a estética invisível pela qual passa os olhos de quem lê, sem perturbar, sem fazer pensar duas vezes. Parece até validar não apenas a veracidade do relato, mas a honestidade do relatante, enfeitando de artifícios a mão que conduz a história, escondendo-a, sem ideologia, em plena vista. 

E o que você acha?