[Vá com o Carmo] “Intervalos” de Grazi Fonseca e Rodrigo Stradiotto: Entre a experiência e a generosidade

“Intervalos” de Grazi Fonseca e Rodrigo Stradiotto

Dentre os resultados da residência artística virtual da Bienal de Quadrinhos de Curitiba online: “Notas & Traços”, que contou com a tutoria de Luiz Gê e Arrigo Barnabé, gostaria de chamar a atenção para uma experiência em especial, o trabalho apresentado por Grazi Fonseca e Rodrigo Stradiotto, a HQ interativa: INTERVALOS (Residência Bienal – Notas & Traços, 2021).

Sim, acho que devemos nos referir a esse trabalho como uma experiência mesmo. Como descrito no resumo do site, a HQ resulta da interação simbiótica da linguagem dos quadrinhos e a da música, criando um ambiente imersivo e interativo. Experienciar esse espaço virtual, por mais simples que possa parecer (a única exigência feita ao leitor/observador/ouvinte, a princípio, não passa de alguns cliques) pode apresentar um grande desafio para alguns leitores habituados às experiências mais convencionais de leitura. Explico.

Quando falo em experiência para definir o trabalho proposto pela dupla Grazi/Rodrigo, me refiro não só a “experiência” enquanto substantivo, que sugere experimentação, o ato ou efeito de experimentar, mas também ao adjetivo “experimental”, que se fundamenta na experiência empírica e sensorial, consubstanciando uma atitude que busca romper com as convenções estabelecidas da tradição, aqui no caso, dos quadrinhos.

Para romper com as convenções dos quadrinhos, Grazi joga com os elementos mais básicos e fundamentais da linguagem visual, reduz sua matéria aos termos mínimos: o ponto, a linha, o plano e as cores primárias. Renuncia a qualquer indício verbal, e afronta à pressuposta sequencialidade das HQs ao dar ênfase a simultaneidade. Troca a superfície hegemônica tradicional dos quadrinhos (de um elemento sobre o outro, por exemplo: figura sobre o fundo) por um plano geométrico baseada em coordenadas bidimensionais, num (não tão) discreto elogio ao neoplasticismo do pintor holandês, Mondrian.

Quadro de “Intervalos” e “Composição em Vermelho, amarelo, azul e preto” (1926), de Piet Mondrian

A filosofia neoplástica é fundada no desejo utópico de construir um novo mundo pautado pelo equilíbrio das tenções e pela equidade, traduzido em termos plástico-formais na disposição das formas, linhas e no contrabalanceamento das cores no espaço.

O jogo aqui é plástico, não narrativo.

E é nesse ponto que a exigência da obra ultrapassa a demanda de alguns cliques que acionam a progressão dos quadros e da música. Aqui, ela passa a demandar uma participação mais do que ativa do leitor/observador/ouvinte, ela requer não uma participação física (como o clic), ou mental (de interpretação) mas um exercício de generosidade. É necessário se entregar a experiência.

É justamente o abandono das convenções e das tradições que pautam e orientam o leitor habitual de quadrinhos que se interpõe como uma muralha. Nesse sentido, revela consigo o desafio não só da obra, mas de nosso tempo.

A sugestão deixada pelos autores para o aproveitamento da experiência em seus melhores termos, seria acessar à página de um desktop (e não do celular), dada a construção tabular do encadeamento progressivo dos quadros, bem como usar de fones de ouvido, para um mergulho mais profundo em sua atmosfera; são ações fundamentais para a consolidação do espaço de imersão proposto.

Página de “Intervalos”

Rodrigo Stradiotto não esconde seu apreço pelo minimalismo de um Philip Glass ao propor pequenas variações de ritmo hipnótico que se transformam em um loop ao aguardar a ação do leitor/observador/ouvinte (um clique) para continuar a progressão.

Cada clique parece reverberar na banda sonora, alterando o centro tonal de uma escala, ao passo que a nova escala, ora se sobrepõe a anterior, ora a substitui, oscilando entre uma sobreposição cacofônica e uma paisagem sonora lofi metalizada cujos sintetizadores se encontram em algum lugar entre o a banda alemã Kraftwerk (e sua ambientação futurista) e a banda sonora de um videogame de 16 bits que voluntaria ou involuntariamente, induz à memória sensorial/afetiva de quem dedicou algum tempo da vida aos jogos eletrônicos, reafirmando a voluntariedade presumível para pôr em curso a experiência.  

Para complementar essa experiência sensorial, Grazi brinca com as tensões da construção de um plano pictórico geométrico-matemático ao opor o plano Cartesiano, orientado pelos eixos X e Y (horizontal e vertical) que trata da espacialização bidimensional da superfície, contra a construção espacial tridimensional proposto pela geometria Euclidiana, orientada pelos eixos X, Y e Z (horizontal, vertical e diagonal)transformando o plano em uma superfície empírica que oscila entre o bidimensional e o tridimensional.

Dois quadros de “Intervalos”

O que, a princípio, sugere um jogo formal e racional é perturbado pela presença humana (presumivelmente o alter ego da própria Grazi) capaz de atravessar o espaço racional e utópico da geometria e da matemática, literalmente, com as próprias mãos. Essa presença antrópica e orgânica em um espaço tão racional se dá com certa melancolia potencializada pela claustrofobia causada pelo acúmulo e pela repetição (de círculos coloridos e de Grazis).

Com a inserção da presença humana, Grazi se afasta do neoplasticismo de Mondrian, para estabelecer um diálogo direto com a Arte Contemporânea, acrescendo um tom subjetivo e pessoal ao discurso puramente formal.

Quadro de “Intervalos”

É exatamente a progressão desse padrão de acúmulo e de repetição que encontra respaldo e espelhamento na investida sonora de Rodrigo, complementando a curiosa sensação de desconforto causada no leitor/observador/ouvinte.

Essa obsessão pela repetição e, sobretudo, do padrão de círculos, está presente também em outros trabalha da Grazi, como em sua obra anterior, Partir, selecionado na convocatória Des.Gráfica/Mis em 2018. Mas em INTERVALOS, a obsessão pela repetição de padrões aliado com as cores, associa o trabalho ao da artista plástica Japonesa, Yayoi Kusama. Ambas unem a repetição, a acumulação, o design e a antropização na construção de seus universos poéticos.

“Infinity Mirror Room” (1965) de Yayoi Kusama

INTERVALOS é uma experiência singular que desafia às fronteiras da linguagem e, por isso mesmo, causa estranhamento, desconforto e, por vezes, dúvida e incredulidade (isso é quadrinho?).

Para apreciar esse tipo história em quadrinhos que desafia os limites da linguagem e que, em vez de contar uma história, propõe uma experiência formal e sensorial, é preciso estar disposto a abandonar os critérios adquiridos e acumulados pela experiência pregressa de leituras convencionais, é preciso se entregar a experiência e olhar (e ouvir) com generosidade.

Publicado por Valter do Carmo Moreira

Professor, pesquisador, autor de histórias em quadrinhos e artista plástico. www.valtermoreira.com.br

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