[Crônicas de Belluke] As formas circulares nos trabalhos de Leander e Cristal Moura

O Seburubu em Natal/RN

Leander Moura, com sua vasta barba preta e cabelos igualmente noturnos, é um desses sujeitos idiossincráticos das feiras de quadrinhos que não atraem atenção demais, mas capturam a atenção. Você passa por sua mesa numa feira qualquer, vê as capas dos livros recheadas de sutileza, nota as formas, climas e ambientações, abre as páginas porque só se ver com a mão, observa as fortes sombras nos seus quadros, as linhas grossas, o uso dos espaços em branco. Nesse meio tempo, ele vai até você, te cumprimenta e desata a falar intensamente e com muito entusiasmo sobre seus quadrinhos. Ou quem se aproxima é Cristal Moura, de cabelos coloridos e óculos, sua parceira de vida e de trabalho, professora da rede pública, ilustradora, tatuadora e quadrinista, normalmente com um sorriso e uma piada ácida no gatilho. Os dois fazem quadrinhos de terror e dividem a autoria de parte significativa de seus trabalhos, seja nos livros lançados pela Editora Escribas como Horas Escuras (2018) e A Besta (2023), seja nos livros lançados de modo independente como Insonho (2019), Carpe Diem (2024) e no recente Era uma Vez (2025). Eles são, no geral, o oposto do estereótipo dos tarados pelo gênero com seus visuais escuros e caras fechadas. Pelo contrário, o casal do horror é gentil e simpático e, volta e meia, usa branco.

Leander autografando Horas Escuras no Seburubu

No dia 12 de janeiro, encontrei Leander sentado no chão do Seburubu ao lado de quadros, discos, pilhas de livros e frente a uma caixa de quadrinhos, conversando com dois personagens típicos do sebo que estavam sentados no sofá. Cristal, por sua vez, estava dando aula, afinal era uma tarde nublada de segunda-feira.

O Seburubu é um desses lugares vivos, ainda que ocultos nas sarjetas de Natal/RN, uma artéria pulsante que jorra a conta-gotas arte para dentro da cidade. É um lugar colorido, repleto de pinturas e adesivos nas paredes, sempre imerso no som de um disco de vinil. Um lugar que reúne quadrinistas, poetas, cordelistas, músicos, maconheiros e alcoólatras de todos os tipos, em lançamentos de livros, exposições, mostra de filmes, shows e o que mais vier a acontecer. Infelizmente, a cidade com nome de feriado costuma menosprezar seus polos culturais e valorizar shoppings. Ainda mais quando esses polos conseguem espaço no centro, lugar cada vez mais decadente e esquecido, um eco lamurioso de um passado estimulante que se torna pouco a pouco mais afastado do presente.

Quando cheguei, Leander interrompeu a conversa com os dois no sofá e me cumprimentou. Eu puxei uma cadeira e escutei ele falar de Era Uma Vez, o seu novo lançamento. Enquanto ele mexia nas edições e escrevia dedicatórias, notei novamente – e, ao mesmo tempo, pela primeira vez – a lua e os olhos do lobo na capa do quadrinho.

Capa de Era Uma Vez, lançado de modo independente em 2025

Era Uma Vez retoma o texto de Charles Perrault e brinca com a história de Chapeuzinho Vermelho dentro de uma perspectiva atual. Sua capa mostra um lobo de ponta-cabeça no lugar do reflexo sombrio de uma garotinha de pés tortos vista na parte de cima da capa. O lobo está em uma poça que não sabemos se é de sangue ou de água. A poça parece vir da sombra da garota, como se escorresse de suas pernas igual menstruação. Ela parece ser um símbolo de passagem, de transformação, da garota imatura e indefesa ao predador obscuro e sem feição. Ao mesmo tempo, é como se a garota parisse o lobo e desse vida a um horror oculto na sua própria natureza. O algoz original da narrativa de Perrault está igualado a sua vítima, amalgamados numa mesma imagem.

E junto aos dois encontramos a lua, elemento recorrente nas histórias de lobisomem. Tema caro a Leander e Cristal que lançaram em 2023 A Besta, quadrinho sobre um circo que chega na cidade de Parnamirim/RN trazendo consigo um homem com um “segredo sombrio”. Na capa de A Besta, reencontramos um lobo semelhante ao visto em Era Uma Vez. Aqui, ele toma o protagonismo de modo solitário dentro da superfície vermelha. Seus olhos, entretanto, seguem vazios, como dois grandes espaços em branco que preservam a sua postura ameaçadora.

Capa de A Besta, lançado pela Editora Escribas em 2023

Os olhos parecem signos que contrapõem o humano e o bestial ao longo do quadrinho. Muitas vezes, tecem uma teia de olhares que expressam o mal e a desumanização causada pelo mal por meio do apagamento dos detalhes. A arte retorna a formas mais simples, como o círculo branco, quando os personagens são regidos por impulsos básicos ou são tomados por uma natureza vil. Uma busca pelo instante presente, o agora, em detrimento a ordenação moral da vida. No caso do lobisomem, o amaldiçoado não possui total regência sobre si mesmo. Ele vai uma vez a cada lua cheia perder a razão; torna-se um outro que não é humano e não é senhor de suas faculdades. Ele se torna todo governado pelo mal, uma besta pelo título do quadrinho, que não saberia diferenciar a pessoa que mais odeia da pessoa que mais ama, e todas são vítimas de seu frenesi assassino. E ele, enquanto pessoa, é igualmente destruído, uma vítima contínua de um presente que se insurge e mata o seu próprio futuro, esteja ele em seus filhos, em sua esposa, em seus amigos.

O olhar do lobisomem em A Besta

Nisso, a arte do quadrinho revela o desgoverno da criatura e torna seus olhos, portas da alma, dois espaços vazios, um reflexo do apagamento de sua identidade. O lobisomem de Leander e Cristal é uma sombra de violência e animalidade que condensa o peso dramático do amaldiçoado, sua culpa e sua degradação. 

Por outro lado, o mal também se apossa dos demais personagens e seus olhos – que costumeiramente aparecem primeiro dotados de detalhes – se tornam imagens mais simples. Os olhos brancos parecem perguntar o que faz alguém ser humano ao retratar o apagamento da compaixão, da empatia e da solidariedade com o outro em prol de ganho pessoal. Encontro um exemplo disso na sequência em que o protagonista de A Besta é sequestrado. Os três indivíduos que o capturam vão gradualmente perdendo as feições até se tornarem sombras de olhos brancos, de maneira semelhante à criatura do título.

Os sequestradores em A Besta, inspirados nos quadrinistas Marcos Garcia e Gabriel Dantas (Bife de Unicórnio) e no ilustrador Júlio Carvalho
Os olhos brancos dos sequestradores

Em outro momento, no clímax de A Besta, o dono do circo decide enfrentar a criatura. Seus olhos a contemplam, com pupila e íris, frente ao mal que é gravado em sua retina. Após a sua morte, os detalhes são tomados pela criatura e seus olhos se tornam duas lacunas brancas no seu cadáver ensanguentado. Eles são consumidos pela violência, tomados pelo desespero e pavor. No fim, resta um objeto vazio, uma alma devorada pelo amaldiçoado que a perseguirá por toda a vida.

O mal gravado em sua retina
Os olhos conquistados pela criatura

As almas consumidas pela besta, inclusive, aparecem no quadrinho como fantasmas que perseguem e atormentam o protagonista, e seus olhos são como duas luas soltas no abismo escuro. A imagem da lua, por sua vez, marca a passagem de tempo na história, como um relógio que marca os momentos da narrativa e torna imagética a passagem por cada um dos três atos. Assim como representa a mudança entre homem e besta, humano e animal, o limiar entre a violência da criatura e a degradação da pessoa.

A lua em A Besta

A lua, vale destacar, é uma forma circular, assim como os olhos; isto é, uma linha contínua que retorna a si mesma, de modo repetitivo, como um homem que se torna lobo e depois homem e retorna a ser lobo. É um ciclo que se repete ao longo da narrativa e denota também uma prisão. O amaldiçoado não pode quebrar o ciclo. Ele não pode escapar dessa prisão. Em A Besta, o tema do aprisionamento é parte da narrativa, visto que o protagonista foi capturado por um circo e está prestes a ser exposto como atração para o mundo. Só que a sua prisão é inerente à sua condição, e ela possui um caráter cíclico de sempre se repetir nas noites de lua cheia.

Em Horas Escuras, também temos um amaldiçoado aprisionado por um segredo sombrio. Nesse caso, uma família abriu mão da própria filha à uma entidade obscura, levada pelo desespero causado pela fome e pela miséria. Novamente, o futuro expresso na próxima geração é destruído pelo presente. A vida é conquistada pela morte, essa presença maligna que se alastra. Isso me remete às imagens das caveiras ao longo do quadrinho que se assemelham a um círculo interrompido em sua base. O crânio é costumeiramente retratado, em Horas Escuras, de modo intacto na parte superior sem mandíbula abaixo, como uma volta que se inicia, mas não se completa. Uma figura da morte que expressa a interrupção da linha da vida.

As caveiras em Horas Escuras

Os personagens nada podem fazer contra o que enfrentam, mas ainda seguem o impulso animal de tentar vencer a coisa maldita por meio da violência. Justamente o que ocorre no início de Horas Escuras quando José entra numa caverna, portando sua espingarda, e se vê no interior da própria casa. Antes de entrar, contudo, ele espera a hora mais escura, e nisso o quadrinho nos mostra a imagem da lua se apagando e sendo tomada pela escuridão. A lua, de modo semelhante a seu uso em A Besta, é um limiar, uma passagem entre um momento de luz e vida e um de escuridão e morte. Um ponto de não retorno para José, que escolhe deliberadamente seguir o seu caminho maldito até as últimas consequências. Entrar na caverna significa trilhar o caminho contrário à luz.

À espera da hora mais escura

Lá, ele encontra uma porta aberta, guardada por dois olhos brancos sem pupilas que o convidam a atravessar. Ele sabe: atrás da porta está a coisa maligna que busca destruí-lo e que levou a sua filha. Isso nos é dito depois, pois a narrativa é estruturada de trás pra frente. Quando vemos a porta, os olhos são um convite e uma armadilha. Eles o atraem e o repelem, o medo e a fascinação andam lado a lado e instam os passos de José. Depois da passagem, há uma escada que o leva para baixo, uma clássica descida ao inferno nos moldes de Orfeu em busca da pessoa amada. Para José, Eurídice é a sua filha.

A presença maligna por trás da porta

No entanto, diferentemente do personagem da mitologia grega, não existe retorno para José, nem de olhos fechados. A lua se apagou atrás dele e somente a escuridão restou. Na prisão simbólica que José se encontra, suas ações são conduzidas até a escada e a entidade oculta no final da descida como um fio de água é levado pelo ralo. A água nada pode fazer contra o movimento espiralado que o conduz por meio da gravidade até a forma circular do ralo. E por mais que a espiral não seja tematizada visualmente por Leander e Cristal, o movimento cíclico de descida ao limiar parece expressar de modo simbólico o percurso de seu protagonista. Nesse sentido, lembro de Uzumaki (Devir, 2020, tradução de Arnaldo Oka), de Junji Ito, no qual a espiral se encontra na pessoa, corroendo-a de dentro para fora, apossando-se dela. De maneira análoga, José é consumido pela necessidade de enfrentar a entidade maldita, de buscar a própria destruição. O pecado original que o fez perder a filha é um centro gravitacional para todas as suas ações, sendo elas sempre uma resposta a essa perda.

A Besta é como um filme da Bloomhouse e Horas Escuras é como um filme da A24”, disse Leander em certo momento naquele dia no sebo. Com a mente longe, peguei a conversa no meio do caminho. Imaginei que o comentário vinha principalmente da estrutura não linear de Horas Escuras, organizado de trás pra frente, que implicava em um movimento de leitura cíclico sem se fechar. Se o leitor quisesse seguir a ordem das páginas, ele teria uma caveira sem mandíbula, um círculo interrompido em seu retorno. Uma história que se concluí nas primeiras páginas e não possuí clímax no fim. Não há, inclusive, tessitura narrativa entre o começo e o final, as duas coisas são como partes à espera de serem ligadas pela leitura. Ainda assim o quadrinho parece sugerir um retorno para o seu começo, isto é uma releitura. O leitor, obviamente, é livre para começar a ler de onde quiser, mas, ao fazer, não importa de onde, ele se encontra em um círculo que não se completa.

A Besta, por sua vez, não. Ela possuí começo, meio e fim estruturado de modo lógico e linear, entretanto, ela me revela a última forma circular que pude perceber naquele dia no sebo: o movimento de contínuo retorno às narrativas que formam o nosso folclore e cultura. Para Leander e Cristal essas narrativas se encontram na figura do lobisomem, da Chapeuzinho Vermelho, nas histórias de fantasmas. É um trabalho por cima do que já foi contado. Dois pares de olhos inquietos e expressivos que se voltam a esses personagens e os encontram, transformados, numa realidade mais tipicamente brasileira e mais tipicamente nordestina. “O que eles revelam à luz da lua?”, em resumo. Sintomático, afinal, da arte antropofágica do Brasil e do zeitgeist atual de nossos quadrinhos, seja no mainstream seja no underground

Pensamos continuamente nas narrativas que nos formam e formam a nossa família e cultura, narrativas que constituem a nossa imagem fragmentada de nação. Uma busca por compreender o presente através do passado. Os enfoques e os objetos mudam, é verdade, mas o impulso, à meu ver, parece o mesmo.

Leander e Cristal no evento Astro Geek, em Parnamirim/RN, no dia 30 de novembro. Imagem cedida pelo autor.

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