[Cuba Liber] E tudo isso pra quê?

Krazy Kat

Veja se não é uma boa ideia.

Sabe aqueles quadrinhos clássicos que eram publicados em páginas inteiras dos jornais domingueiros nas décadas de 1930, 40, 50? Lá nos EUA? Little Nemo, Krazy Kat, Terry e os Piratas, Príncipe Valente… E aqui no Brasil? Quanta coisa bacana não tinha nas páginas da Tico-Tico? O que importa aqui é pensar o trabalho dessas pessoas. McCay, Herriman, Caniff, Foster, Luiz Sá, J. Carlos. Tentar imaginar como esses caras pensavam e trabalhavam suas páginas, suas histórias. Quem lia essas histórias? Pra quem eram feitas? O que contavam? Por quê?

Imagina pensar essas coisas e fazer um projeto assim: uma publicação barata, acessível, formato jornal, mas aquele jornal grande, aquela página imensa.  Daí você escala seu time de autores. Insira aqui os nomes da sua preferência. Dá como limite a composição dentro do espaço de uma prancha inteira, contextualiza aqueles quadrinhos de página inteira da primeira metade do século XX e diz pro sujeito fazer o que quiser a partir daí. Porque você confia nele.

Sendo bem utópico, imagina que aparece um leprechaun que se oferece pra pagar a impressão de uma tiragem absurdamente grande do seu projeto, incluindo a distribuição. E garantindo a publicação semanal contínua durante doze semanas. Só porque sim. Vamos, seja condescendente comigo. Imagina. Faça um esforço.

Dentro dessas condições todas, que tipo de histórias seriam feitas? O que contariam? Como seria a aparência dessas páginas? Como seria o conjunto da obra? Consegue imaginar?

Lógico que há vários projetos semelhantes, mas solte sua imaginação. Faça a sua seleção de autores. Imagine os seus favoritos pilhados pra dar o melhor de si.

Imaginou?

Pois é.

Wednesday-Comics

Wednesday Comics.

É o que tem pra hoje.

A ideia foi do Mark Chiarello, editor responsável por outros projetos como Solo, DC – A Nova Fronteira e Batman: Black & White. A intenção era brincar com a lembrança dos quadrinhos daquelas velhas páginas dominicais. Chiarello conta que as crianças acompanhavam diariamente as aventuras contadas nas tirinhas preto-e-branco dos jornais, que ganhavam uma página inteira e colorida aos domingos. Chiarello fala de toda uma nostalgia, todo o sabor de uma infância que, curiosamente, ele admite que não viveu. Nasceu tarde demais pra aproveitar esses quadrinhos.

Daí a ideia de fazer uma publicação gigante, que antes de ser uma homenagem, era um diferencial no formato das publicações e podia ser um bom atrativo para os leitores. O nome, Wednesday Comics, fazia um trocadilho com as clássicas páginas dominicais e com o dia em que as novidades chegam às comic shops norte-americanas, quarta-feira.

Foram 12 edições e o formato das páginas era de 35x50cm. Aberto ficava 50 por 70. Um cobertor. Além do tamanho gigante e de todo o jeitão de jornal, cada edição de Wednesday Comics trazia 15 histórias. Ou melhor, 15 páginas de 15 histórias diferentes. Cada página um capítulo ou unidade narrativa fechada, como uma tirinha de quadrinhos. Assim, o leitor comprava seu Wednesday Comics e acompanhava fragmentos de histórias que se intercalavam em pranchas de visual impactante. Pôsteres em quadrinhos.

Eu gosto muito dessa ideia.

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Mas.

Eu não acompanhei a publicação original. Eu comprei a encadernada.

Ela apresenta as páginas reunidas na sequência de cada história. Então, se você lê a encadernada, você lê cada história de uma vez só, sem a intercalação de fragmentos narrativos e a espera de uma semana pra poder ler a próxima página. As páginas foram reduzidas em relação ao original, ficando com 29x45cm. Ainda assim, é um bocado desajeitado o manuseio da preciosa hardcover. A versão jornal podia ser dobrada, mas isso é impensável com a encadernada.

Se a gente pensa naquele conceito de página dominical e histórias seriadas, a encadernada meio que mata a ideia toda do projeto e vira só uma antologia de HQs da galerinha da DC Comics. Ok que o formato gigante e o visual de muitas páginas tornam o livro muito atraente. E, poxa, tem uma galera bacana participando. Neil Gaiman, José García-Lópes, Kurt Busiek, Michael Allred, Paul Pope…

Mas.

Em algum momento a gente acaba lendo essas histórias.

Talvez o problema seja uma questão de público. Ou de intenção. Ou de uma profissionalização que acaba caindo numa espécie de burocratização. Uma repetição de cacoetes, de formulazinhas manjadas. Por exemplo, o protagonista desenvolver uma tensão sexual mal resolvida com a personagem feminina que morre. A proposição de uma situação extraordinária que se desfaz magicamente garantindo que as coisas voltem a ser como sempre foram. Sempre um cara bom que vai lutar e vencer um cara mau. Acho que talvez seja essa repetição de soluções e estruturas que vai dando um cansaço na leitura. Um desencanto.

Fico pensando em como tentar argumentar sobre supostas limitações das histórias, sobre essa ingenuidade que me parece preguiça, comodismo. Uma repetição de estruturas e ideias que não trazem nada de novo. Fico pensando se faz sentido cobrar esse tipo de coisa desse tipo de produto ou se sou só eu que estou sendo chato.

O texto de introdução do Chiarello evoca as tais páginas dominicais, fala das séries de aventuras.  Fala de experiências que não vivenciou e fala sobre como essas páginas foram “superadas” pelo gibi de super-heróis. Parece-me que não há intenção de homenagear ou de pensar aquelas histórias. É tudo desculpa pra criar um formato diferente que torne o produto mais atraente e vendável. A nostalgia vira uma espécie de valor agregado do produto, mas é uma nostalgia esquisita. É uma nostalgia não vivida, falsa.

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Príncipe Valente é a referência pra Ryan Sook compor umas páginas lindas de ver. É a história que mais explicitamente evoca o tipo de quadrinho das páginas dominicais clássicas. Little Nemo é a base pra história da Mulher-Maravilha desenhada por Ben Caldwell, que apesar de oferecer páginas bonitas, não empolga e nem chega perto da arte de McCay.

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Como toda coletânea, há trabalhos mais interessantes e outros menos. Há páginas belíssimas e ótimas sacadas. Pra mim, o melhor da edição toda é a história do Flash, feita por Karl Kerschl e Brenden Fletcher. As páginas são lindas, brincam com a ideia de tiras paralelas que contam as histórias de Flash e Iris West. Há o uso de retículas misturado com a coloração digital e a variação de desenhos e arte-final que vão fazendo uma bela colagem com a memória gráfica das tiras de jornal.  E a história basicamente é “Time travel! A man races ten minutes into his past to stop an evil gorila from threatening his future.”  Realidades paralelas, encontrar com si mesmo, gorilas falantes, tentar evitar o final do casamento. É a melhor história, mas ainda assim fica uma sensação estranha, como se pudesse ter ido mais longe. Ou como se os autores tivessem visualizado uma possibilidade de ir mais longe e deliberadamente tivesse deixado pra lá.

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Pra ilustrar melhor, Paul Pope trabalha bem a sua história de Adam Strange, mas é mais ou menos a mesma coisa. Um bom visual, boas ideias, coisas interessantes. Mas quando a gente pensa no que Moebius já fez, no modo como abraçava o fantástico, dá pra perceber que Pope faz uma história bacana, trabalha com ideias e imagens alucinantes, mas ainda mantém os pés no chão.

Flash e Adam Strange flertam com o fantástico, mas de forma contida, controlada, comportada. Sempre explicando uma lógica, sempre enfatizando uma ordem tranquila que será preservada. Poderíamos argumentar que essas histórias e seus super-heróis são, afinal, ficções infantis, pra embalar a imaginação das crianças ao mesmo tempo que repete continuamente o mantra de respeito à autoridades e estruturas estabelecidas.

Mas se consideramos que essas histórias são voltadas para o público infantil, fica estranho olhar pra esse livro, grande, pesado, luxuoso e caro. É muito provável que boa parte das pessoas que compram e consomem esse produto não sejam crianças. São adultos, que acham a arte linda, mas também reconhecem que as tramas deixam a desejar.

E eu me pergunto o que pensam as pessoas que fazem essas histórias? Elas seguem orientações? Elas pensam “vou fazer um quadrinho pensando no que iria divertir um garoto de 8 anos e que depois vai ser consumido prioritariamente por homens adultos que podem gastar 50 dólares em um livro luxuoso”? Elas pensam em experimentar limites da linguagem, questionar ideias pré-estabelecidas ou querem apenas fazer seu trabalho da melhor maneira possível, da maneira mais inofensiva possível?

Originalidade, experimentalismo, domínio da linguagem, temas e abordagens… existem vários parâmetros que poderíamos considerar pra avaliar uma obra. O que interessa não é chegar a uma sentença, mas discutir e refletir. Eu olho pra esse tipo de produto, pra esse livrão lindo, com páginas belamente desenhadas e percebo toda uma técnica, uma produção, uma maestria. Mas quando leio as tais histórias sinto uma decepção triste. E sei que não sou o único. Tudo isso pra quê? Pra ver o Batman em uma história exatamente igual a duzentas outras, só que em página grande? Um produto luxuoso, caro, que celebra a homogeneidade de narrativas simplistas e repetitivas.

Daí penso na industrialização dos quadrinhos, na manutenção de um mercado. Afinal, esse Wednesday Comics não é o exemplo de quadrinho industrial? De produto desenvolvido pra atender uma demanda de mercado? Com conceito, diferenciais e atrativos? Dentro dessas condições, aquelas histórias poderiam ser concebidas de maneira diferente? Deveriam ser diferentes?

E quem se importa?

Shut up and take my money.

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