[Um Sorvete com vocês] Almoçando de Lingerie

Antes de tudo:

O APERITIVO

(é gostoso e é de graça, mas pode pular)

Um convite pra todos/as os/as quadrinistas que leiam isto: preciso andar com vocês, tomar um sorvete com vocês. Saber das suas coisas, contar as minhas.

Desde 2011 vou no FIQ (Festival Internacional de Quadrinho de BH ou Minha Segunda Casa no Mundo) e tem sido muito bonito assistir o crescimento massivo e contínuo no número de autores e autoras de quadrinhos no Brasil desde que comecei eu mesmo a produzir. São autores que, assim como eu, estão apenas começando.

Falamos muito de experimentar e de buscar coisas novas com nossos trabalhos, mas raramente desenvolvemos discursos concretos  a respeito das ideias que temos a propor. Nós nem mesmo temos grande conhecimento das noções básicas de quadrinhos, pra ser sincero. Será que temos mesmo alguma coisa nova pra dizer ou explorar? Acredito que sim! Mesmo. Mas sem um esforço de solidificação das nossas propostas e de entender melhor o que já foi explorado e pensado, talvez acabemos andando em círculos dentro do nosso próprio entusiasmo. Não estou dizendo que essa pequena coluna, de regularidade espaçada e feita ela mesma por um quadrinista novo que mal sabe de porra nenhuma, vai estruturar a cabeça de quem quer que seja. Mas ela começa como uma humilde tentativa de exploração, de diversão.

Afinal, uma das coisas que mais ajudou a desenvolver meu trabalho foi ter grandes amigos com quem conversar , produzir e pensar quadrinhos desde o começo.

E é nessa VAIBE que começo essa coluna: como uma tentativa de propor debates, trocas de ideias, conceitos, informações e conteúdos com outros/outras quadrinistas, em especial os que sejam novos e necessitem furiosamente disso, como eu. E claro, o convite se estende a qualquer um que também esteja interessado em adubar as próprias ideias sobre o assunto.

Vamos ver se no meio dessa peregrinação experimental a gente espeta uma ou outra verruga que grite. Agora, vamos começar.

NA PONTA DOS GARFOS

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Aqui NESSA ENTREVISTA no Quadrinhos para Barbados, o Marcello Quintanilha fala um pouco sobre o pensamento dele a respeito de paginação nos quadrinhos (algo que ele já mencionou em outras ocasiões). Ele diz não acreditar no que chama de “dinâmica da página” – referente, acredito, à ideia de pensar e planejar a página toda numa história em quadrinhos, tratando-a como unidade narrativa com caráter próprio para além dos quadros – ainda que formada por eles. Nas suas próprias palavras: “Eu não acredito que meu trabalho devesse estar circunscrito ao espaço da página. Porque quando você é capaz de retirar o caráter de unidade narrativa da página e transferir o caráter de unidade narrativa para o quadro, o que você faz é trabalhar com a linguagem em estado puro. E isso é o que mais me interessa quando eu faço quadrinhos”.

Em UMA OUTRA ENTREVISTA ele menciona isso também como fator importante de praticidade para trabalhar com o impresso. Faz sentido: abandonar um pensamento de página possibilita, caso a história seja adaptada para nova plataforma ou formato físico que difira em medidas do original, uma rediagramação total dos quadros sem perda da intenção original do artista e do ritmo que ele propôs. Cita como exemplo o processo de reformatação total da sua história Fealdade de Fabiano Gorila (para uma incorporação dela em um outro livro de formato físico diferente, o Almas Públicas). Sobre isso, Quintanilha diz: “Minha maneira de construir a narrativa me leva a retirar da página seu caráter de unidade narrativa, fator que reduzo ao quadro propriamente dito. Sob essa perspectiva, me sinto livre para reformatar as histórias sem comprometer sua estrutura narrativa.”

O CARDÁPIO

O pensamento do Quintanilha, pra mim, é muito interessante. Parece que com essa visão ele aproxima mais o quadrinho da literatura. Será que com esse emparelhamento, um processo mais fluido, não surge como possibilidade para autores de quadrinhos? É um processo que exige muito mais um pensamento de continuidade, de um quadro pro outro, do que uma preocupação de estruturação da página. Será que esse pensamento não torna menos absurdamente complicado o processo de editar um quadrinho? Afinal, vamos supor que você tenha um quadrinho de 20 páginas. De repente, numa releitura final da sua obra, você percebe que poderia ter encaixado três, quatro quadros a mais numa sequência da página 13. Você fica obcecado – a sequência precisa desses quadros agora. O problema é que só existem duas maneiras de consertar isso: refazer a página toda, ou encaixar os quadros e refazer todas as páginas seguintes. Desanimador, né? No processo que Quintanilha propõe, penso que não precisa funcionar assim. Podemos somar uma “linha” de eventos na página e reestruturar o resto de maneira muito mais fácil. Podemos até mesmo mecanizar: criar “linhas” e “parágrafos”, o que vai tornar esse processo de edição mais claro. Por um lado, se com esse pensamento o Quintanilha desconsidera possibilidades de criação únicas que estão atreladas a pensar a página como um todo, e até mesmo desconsidera recursos considerados básicos como o gancho da virada de uma página pra outra, por outro ele gera novas liberdades, possibilitando que o ato de refazer, alterar, enfim, construir e reconstruir uma sequência narrativa em uma história em quadrinhos não seja algo tão absurdo.

Durante algum tempo, no ano passado, eu estive muito interessado em fazer quadrinhos de uma maneira mais “automática”, que me possibilitasse criar longos fluxos de consciência pelas páginas, quase que desabafos quadrinizados, expressões puras da mente. Estava tentando recriar em quadrinhos sensações que tive ao ler a obra de alguns beatniks, como Kerouac e Ginsberg. E óbvio que, como eu queria desenhar longas sequências de quadrinhos impulsiva e deliberadamente, a probabilidade de sair uma quantidade gigante de merda no meio daquilo tudo era enorme. Então, uma das maiores dificuldades era entender como construir esse tipo de quadrinho de uma maneira que me permitisse, depois, editar e remontar, cortar o desnecessário, somar novas partes – como se fosse um texto escrito no Word. Essas minhas ideias não geraram nada muito concreto e parti pra outra, mas segui a pesquisa. O que nos traz ao pensamento do Quintanilha.

PRATO VAZIO

(o garçom aqui é péssimo)

Afinal, existe um jeito de produzir quadrinhos de maneira mais fluida? Não sei, é difícil dizer. Fluido é uma palavra complicada. O próprio Quintanilha mencionou em um curso que, às vezes, leva até uma semana numa página. Quadrinhos dão trabalho e custam muito tempo. É um fato. Então, vejo agora que o que eu buscava era um jeito de produzir quadrinhos que, no fim, seria tão difícil quanto qualquer outro – mas que no processo permitisse  um envolvimento de fluxos de consciência que gerariam resultados que “soassem” mais fluidos, mais instintivos, mais crus. Queria mesmo ter um tanto de matéria crua ali no meio. Linhas de pensamento que se apresentassem como mais orgânicas do que o habitual pra quem lesse. Queria, enfim, um processo que permitisse pensamentos mais honestos surgirem de maneira que fosse surpreendente mesmo pra mim – mas que, ao mesmo tempo, não me impedisse de lapidar o que  surgisse desses transes.

Existem muitas maneiras de se produzir bons quadrinhos, maneiras experimentais ou mais tradicionais, e acho que nenhuma delas fuja(ou deveria fugir, haha) de qualquer tipo de esforço – é muito mais, talvez, sobre entender o esforço que você quer ter pra gerar o resultado que você busca. Ao ver com clareza agora, penso que já temos, faz um bom tempo, alguns quadrinistas que parecem ter teorias e processos criativos que se encaixam na ideia desse processo mais fluido. Curiosamente, os nomes que penso têm, todos eles, conexões declaradas com a literatura. Como o Leandro Melite (que disse ter feito A Desistência do Azul inteiramente no improviso, sem roteiro), o Fabio Zimbres (que já mencionou ter criado muitas histórias direto na caneta, sem lápis ou roteiro) e mesmo o próprio Quintanilha.

PIMENTA NO SANDUÍCHE

Em UM BATE-PAPO COM JOE SACCO, Chris Ware formula uma opinião que parece ir para um caminho totalmente oposto. Após um comentário sobre a estrutura meticulosa de suas páginas, Ware diz o seguinte (e eu recomendo a todos clicarem no link, porque essa minha tradução livre pode não ser a mais confiável):

“Bem, essa é a unidade básica dos quadrinhos. É a página. Eu não acredito que seja o quadro. O quadro é na verdade uma imagem subdividida da página em si”. Vamos lá. Pra mim, o que Ware diz é que primeiro visualizamos a página como algo completo, um vulto que gera uma impressão imediata. Em sequência, talvez numa tentativa instintiva de compreender o que vê, nossa mente entende que o passo seguinte é desdobrar a página em quadros, analisar essas pequenas ilhas de momentos (compondo o arquipélago que seria a página), para compreender o que foi aquilo que sentimos ao primeiro contato com o todo. Lemos, então, os quadrinhos. Assim, podemos concluir que uma página congela, em uma só imagem estática, múltiplos planos temporais – diversas facetas de uma mesma ação, emoção, momento. E Ware sempre fala de sua crença de que olhar para uma página de quadrinhos é como olhar de frente para uma memória. Entender isso parece um passo crucial para entender a maneira que ele pensa seus quadrinhos. Ele comenta no próprio bate-papo: “Eu tento pensar que olhar para uma página aberta é como olhar para uma memória. E eu acredito que os quadrinhos são, fundamentalmente, uma arte da memória. (…) às vezes, eu tento estruturar uma página como se ela estive fluindo toda a partir do centro, como um átomo ou um… sistema planetário – como se tudo estivesse orbitando ao redor de algo. E não como se estivesse tudo espalhado – tipo, só ‘isso acontece e então isso e depois isso’. E algumas dessas páginas são assim porque as vezes esse é o jeito como nós lembramos das coisas”.

WareBuilding.gif
O meio gera e também ressignifica todo o restante da página. Muito interessante também é olhar a importância que Ware dá para certos objetos que cumprem papel na trama. Surgem sem fundo ou requadro, contando histórias por conta.

NUMA ENTREVISTA PARA A PARIS REVIEW (que deve ser uma das minhas entrevistas preferidas de qualquer autor falando sobre quadrinhos), ele se aprofunda mais nisso (dos quadrinhos como memória). Aqui se percebe também como ele se esforça para que o conceito geral dele de quadrinhos atravesse e permeie cada elemento do trabalho dele, desde as composições de página até a perspectiva dentro dos quadros:

(….)

PARIS REVIEW

É por isso que você normalmente não usa perspectiva quando está desenhando o espaço [físico] nos seus quadrinhos?

WARE

Eu evito o uso da perspectiva porque eu não acho que ela, dentro da bidimensionalidade dos quadrinhos, traduza de forma eficiente o jeito do qual realmente nos lembramos dos espaços físicos. A perspectiva isométrica, que coordena os eixos da mesma maneira, parece se harmonizar melhor a minha memória emocional do que qualquer massa de ângulos conflitantes.Os japoneses, na sua arte narrativa, já adotaram esse método há milhares de anos. Além disso a perspectiva simplesmente faz a página parecer uma bagunça, e nos quadrinhos a composição é preeminente.

Art Spiegelman definiu os quadrinhos como a arte de transformar tempo em espaço – o que eu considero a melhor definição do meio já elaborada. O quadrinista precisa se manter atento a composição da página como um todo, enquanto se foca na história sendo criada pelas conexões entre os painéis individuais. Eu acho que isso reflete o jeito como nós experienciamos a vida – estando atentos ao momento presente, mas rodeados de algumas lembranças turvas do passado e também de vagas antecipações da direção pra onde estamos seguindo, tudo isso contribuindo para a forma que damos ao que gostamos de pensar como sendo nossa vida. Eu tento achatar experiências e memórias na página para que o leitor possa ver, sentir e se emocionar o máximo possível com tudo isso, mas não é tão diferente assim de compor música ou de planejar um prédio.

(…)

Lindo, né? Mas paro por aqui – isso já é assunto pra um próximo encontro.

Agradecimentos especiais ao Lielson, pela revisão, e ao Paulo, pela ajuda forte na tradução de alguns trechos!

3 comentários em “[Um Sorvete com vocês] Almoçando de Lingerie”

  1. Ótimo texto, Pedro! 🙂 Interessantes esse conceitos de “unidade mínima do quadrinho”; há depender de como o quadrinista entenda essa unidade, a formatação das páginas e quadros será completamente diferente, podendo, inclusive, optar por um ou outro conceito na hora da produção, buscando novos resultados. Bacana!
    Curiosamente, todos os quadrinistas citados, assim como você, são responsáveis por todas as etapas da produção. Como você acha que se dá essa relação quando roteiro e desenho estão separados? Cabe ao roteirista “enxergar” essas unidades e passá-las ao roteiro e ao desenhista, ou ao ilustrador pensá-las, adaptá-las de acordo com o roteiro?

    Curtido por 2 pessoas

  2. Bacana, Pedro. Principalmente por botar gente diferente pra discutir. O lance da “unidade mínima” é uma discussão antiga em outros campos. Ganhou peso principalmente com a virada linguística do início do século XX, quando procuraram isso na literatura. No cinema, já faz quase um século que foram atrás disso também, sempre gerando impasses. Tô comentando isso tudo porque nesses campos os caras acharam uma saída interessante: a unidade mínima importa apenas como uma medida metodológica de produção. No cinema, por exemplo, quando organizamos um filme, a unidade mínima é o plano (imagem entre cortes), porém, jamais o plano seria considerado a unidade mínima do cinema em essência. O lance é que a reflexão da unidade mínima interessa principalmente ao autor que precisa de um método, por isso, não por acaso, tu citou apenas quadrinistas, e nenhum teórico dos quadrinhos. Embora existam teóricos que apostem na unidade mínima, o que se observa hoje é a tendência oposta, isto é, de observar os quadrinhos a partir de sua rede diante de uma incapacidade de encontrar um “morfema” dos quadrinhos (caso do Groensteen, Cohn, Miodrag).

    Enfim, apenas dando combustível pra continuidade do papo. 🙂 Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Belo texto, Pedro!
    Reflexões muito interessantes as que você traz no seu texto. Espero que isso leve outros autores a também pensarem sobre a linguagem dos quadrinhos e exporem suas ideias.
    Continue com empreitada! Valeu! 🙂

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