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Sábado dos Meus Amores

Marcello Quintanilha é um inventor dos quadrinhos. Nas orelhas de seu primeiro livro, Fealdade de Fabiano Gorila (1999), o seu editor de sempre no Brasil, Rogério de Campos, já afirmava isso sobre meu conterrâneo de Niterói-RJ, que mora há mais de uma década em Barcelona.

A originalidade da arte de Quintanilha é notável em qualquer folheada rápida em suas obras, nas quais é possível perceber que não há nada parecido com aquilo. Chama atenção a estética única de seus balões de fala e das caixas de legendas. Visualmente, é impressionante a arte realista pintada em Sábados dos Meus Amores (2009) e Almas Públicas (2011) como também é o realismo de texturas, retículas e manchas de Tungstênio (2014), Talco de Vidro (2015) e agora em Hinário Nacional (2016). Ainda assim, é no vigor de seu texto literário que reside a maior força de seus quadrinhos no objetivo de esculpir a realidade.

Inspirado por Machado de Assis e Rubem Braga, sobressaem-se em suas obras o talento do autor como observador de pessoas e sua habilidade em narrar crônicas sobre pequenos dramas individuais do cotidiano. Seus personagens têm motivações ordinárias, são falhos e imperfeitos, e por tudo isso são verossímeis ao ponto de quase podermos tocá-los. Não há dúvidas: eles existem.

Página de Almas Públicas

Os diálogos coloquiais enriquecem de sentidos ao atribuir sotaque, faixa-etária e classe social aos personagens. Não bastasse isso, Quintanilha também tem domínio no uso de narradores em suas histórias, variando habilmente entre o narrador protagonista, o narrador onisciente e o narrador observador. Cada recurso utilizado cria diferentes camadas de leitura, tornando suas obras densas e multidimensionais.

Se Sábados dos Meus Amores e Almas Públicas seguiam uma linha de crônicas sobre brasileiros ordinários em arte pintada, o autor não se deixou marcar apenas por essas características e, surpreendentemente, se reinventou durante a sequência recente de trabalhos com menor intervalo de publicação.

Página de Tungstênio

Em Tungstênio, seu primeiro trabalho longo, se Quintanilha corria o risco de errar ao sair do seu domínio e estender as narrativas, isso foi superado ao se apoiar na sua habilidade de construir personagens com motivações bem específicas e interligá-los dentro da mesma história. Como em um jogo de xadrez em que cada peça tem uma diferente função no tabuleiro. Tungstênio dominou as listas de melhores histórias em quadrinhos de 2014, foi publicada em países da Europa em 2015 e premiada em 2016 no Festival d’Angoulême, principal premiação de quadrinhos do velho continente.

Talco de vidro

Já mais seguro com a narrativa longa, Talco de Vidro é focada em desenvolver sua primeira personagem de classe-média alta em uma história pessimista sobre a inveja e propositalmente contaminada pelo contexto sócio-político brasileiro atual ao destacar a tensão entre as classes sociais. Com estética mais minimalista em relação aos trabalhos anteriores, Talco de Vidro mergulha na mente e nas emoções da protagonista e nos apresenta um narrador antológico, cínico, que debocha da personagem e às vezes parece que também do próprio leitor. Com desfecho impactante – me fez falar CARALHO em voz alta na virada da última página – para mim, é o ponto mais alto da carreira de Quintanilha até o momento.

Em seu novo álbum, Hinário Nacional, Quintanilha segue inventando e reinventando seus quadrinhos ao retomar a produção de histórias curtas, mas com traço minimalista em sequência ao trabalho anterior. Seus narradores continuam afiados e a coleção de personagens incrivelmente verossímeis continua aumentando. O livro coleta seis pequenas tragédias que nos causam desconfortos reais durante a leitura. Parece uma obra de transição na produção do artista.

Hinário Nacional

Ao mesmo tempo em que retoma e reforça características marcantes de obras anteriores, o autor aprimora algumas habilidades como a fragmentação narrativa da primeira história, quando o presente é entrecortado por momentos anteriores de flashback, e as falas fora de campo, recurso cinematográfico em que diálogos são exibidos sem apresentar os personagens visualmente. Nos quadrinhos de Quintanilha, muitas vezes texto e imagens seguem como narrativas paralelas que culminam em forte clímax ao se combinarem. Como na história título, em que ilustração apresenta uma vespa ferroando uma lagarta para deixar seus ovos enquanto uma estudante narra um problema enfrentado.

Em entrevista recente, ele disse que acreditava no quadro como unidade mínima narrativa. É evidente que na maior parte de sua obra, o artista produz cada quadro isoladamente para depois distribuí-los em páginas. Por exemplo, as histórias publicadas em Fealdade de Fabiano Gorila tinham de dois a três quadros por página, e quando republicadas em Almas Públicas com formato maior, os quadros foram redistribuídos reduzindo a quantidade de páginas. Em uma das histórias do novo livro, que também tem formato reduzido, ele leva essa concepção ao extremo e experimenta o texto isolado em uma página e uma ilustração na página ao lado.

Muito se discute sobre quadrinhos serem uma arte mais derivada da literatura ou artes visuais e até mesmo do cinema. Marcello Quintanilha, que é um artista dos grandes e não necessariamente um debatedor, faz com que este tipo de discussão perca sentido completamente. Com alfabeto próprio, Quintanilha potencializa em proporção universal as possibilidades dos quadrinhos como linguagem autônoma.

Daniel dos Santos é jornalista, escreve quadrinhos desde 2013 e no ano passado lançou no FIQ seu primeiro álbum, A Passeio, com Ciro. Ele é vascaíno nascido em Niterói-RJ, terra dos ídolos Edmundo e Marcello Quintanilha, mas mora em Palmas-TO desde criança.