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Existem grandes possibilidades de não termos o maior festival de histórias em quadrinhos do país desse ano por falta de verbas.

NOVIDADES DE 12 DE ABRIL DE 2017: a prefeitura de Belo Horizonte confirmou via sua página de Facebook e também pelo Twitter que o FIQ Ficou. Ou seja, uhuuuuuu, vai ter FIQ esse ano! Ainda não se sabe o que causou a mudança de planos, mas a movimentação de toda a cena brasileira de quadrinhos em prol do evento pode ter contribuído pra termos mais um Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte.

Essa questão do FiQ faz pensar: é obrigação do Estado manter esses eventos de Cultura? Na minha opinião, é sim.

Teve uma discussão dessas na França anos atrás (veja a animaçãoa baixo com legenda em espanhol):

Conversando com amigos, há quem diga que o pessoal dos quadrinhos devia se organizar nos moldes dos eventos independentes (tipo a Feira Plana) e tirar a dependência do Estado. Eu acho que esses eventos independentes são fundamentais, acho que a iniciativa individual é fundamental, mas é preciso tomar cuidado para não tornar a ideia de “iniciativa” um tipo de mentalidade inflexível.

O que eu quero dizer é que “iniciativa” é uma coisa importante, não se faz nada sem iniciativa, sem ação. Entretanto, é fundamental diferenciar “iniciativa” enquanto atitude humana do tal discurso do “empreendedor”.

No discurso do “empreendedor”, a ideia de iniciativa vira uma mentalidade cega pautada pela concorrência, produtividade, público-alvo, busca incessante por lucro e todo aquele palavrório que no fim se resume a uma filosofia insalubre de “te vira” e “cada um por si”.

A gente que faz quadrinhos não lida apenas com uma dimensão. Criar uma história em quadrinhos não é apenas produzir uma mercadoria pra ser comercializada. O “sucesso” ou “fracasso” de uma história em quadrinhos não deveria ser medido apenas pelo lucro que ela oferece. Todos que lidam com quadrinhos, ou com qualquer outra produção cultural, sabem (ou deveriam saber) das dimensões estéticas, simbólicas, sociais e diversas outras envolvidas no processo.

Há muitas coisas que não podem, não devem, ser reduzidas a meras mercadorias. E o grande problema é que, se a filosofia do “empreendedor” vale pra Cultura, também vale pra Saúde, Educação, Segurança e diversas outras dimensões públicas. Tudo vira mercadoria pra ser vendida e comprada por quem puder. Um sistema que exclui quem não possui capital.

A ideia do “produto viável” e a busca por lucro começa a orientar todas as dimensões da nossa sociedade e isso implica em coisas como o presidente da FUNAI achar que os índios precisam ser “produtivos”, isto é, justificar sua existência encaixando-se no circuito de “produção”.

Mas esse circuito de produção encobre relações de poder. Quem possui capital, usa a desculpa do lucro ou da viabilidade econômica pra decidir o que existe ou não.

Deixa eu enfatizar: a existência de uma atividade ou de uma pessoa precisa ser justificada pelo seu papel dentro de uma cadeia de produção que visa apenas o lucro. Não se fala de bem-estar porque presume-se que lucro é sinônimo de bem-estar.

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E segue o reforço dessa lógica de capital e de uma estrutura de dominação. Pra mim, a não realização do FIQ acaba sendo um desses gestos do sistema pra mostrar o que pode e o que não pode ser realizado. O cancelamento do festival reforça as estruturas e hierarquias de poder estabelecidas por quem possui capital.

Acho que o FIQ, assim como outros eventos de Cultura são responsabilidade do Estado, assim como as estruturas de Saúde e Educação públicas. A formação e o bem-estar de um povo são obrigações do Estado.

Na prática, o Estado brasileiro é voltado para o favorecimento de grandes empresários e possuidores de capital. As práticas de corrupção e as reformas adotadas pelo ilegítimo golpista Temer beneficiam os grandes empresários a partir do sacrifício da maioria da população.

Diante disso tudo, o que nos resta é combater essas mentalidades, procurar coletivamente formas mais justas de produção e cobrar mudanças na estrutura do Estado e de nosso sistema socioeconômico como um todo.

Para o FIQ, o que podemos sugerir é a realização de um evento alternativo, de caráter de protesto e reivindicação. Talvez um encontro na própria cidade de Belo Horizonte, em que comecemos a discutir, juntos, nossa realidade, nossos rumos futuros.

As histórias em quadrinhos nos unem. Por elas apresentamos visões de mundo e discutimos ou reforçamos os valores da nossa sociedade e cultura. Não devemos desistir disso.

Texto de Liber Paz, subscrito por toda a equipe do Balbúrdia