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Antes de ler Mensur, eu não queria nenhuma informação sobre a obra. Evitei ler textos, entrevistas e conversas sobre o assunto com quem já tinha lido. Eu sabia só que o Rafael Coutinho tinha levado 7 anos pra concluir o gibi.

No sábado, dia 1 de abril de 2017, ele foi até a Itiban, em Curitiba, pra promover o lançamento do gibi (ouça o bate-papo aqui). Eu fui assistir a mesa, sabendo que isso passaria uma rasteira na minha proposta inicial de não saber nada sobre o gibi. Mesmo correndo o risco de spoilers (não que eu ligue tanto) e de ser de alguma forma influenciado pelos comentários, encarei o bate-papo com o autor e me permiti uma exceção à regra autoimposta. E é diferente, é a visão da fonte e a relação do autor com a obra.

Rolou que a decisão de assistir a mesa foi acertadíssima. Eu não esperava (e também nunca tinha visto) um autor se abrir tanto sobre como foi a dinâmica com a obra, como foi afetado por ela e todas as ramificações assombradas por 7 anos de um cara debruçado sobre o gibi. As respostas honestas, pausadas, em tom sereno, porém, muito eloquentes, de uma intimidade que não é costumeira de um bate-papo sobre quadrinhos e de forte carga emocional, foram ouvidas atentamente por um público modesto, mas atento em absoluto silêncio. Quando as perguntas foram abertas para o público, nenhuma resposta foi monossilábica ou vazia ou evasiva, pelo contrário, foram extensas, quase confessionais, e se subdividiam em vários temas.

Rafael Coutinho na Itiban com LIber Paz

Rafael Coutinho parecia se sentir em casa, na frente de vários amigos. Falou sobre como Mensur foi um fantasma constante enquanto trabalhava em outros projetos, na vida pessoal.

Eu sei que essas declarações podem parecer exageradas, vou até me adiantar e colocar aqui que muita gente vai achar que é uma puxada de saco, mas tudo bem, talvez seja normal chegar a essa conclusão. Mas, pra quem achar isso, queria que você estivesse lá e visse como o bate-papo foi visceral, sem contenção de sentimentos e exposições da visão do autor.

Eu me identifiquei com várias declarações do Coutinho, especialmente as ligadas à infância e criação, em que ele descreveu coisas que vivi e pensei de maneira muito similar. Foi uma mesa que me tocou pessoalmente, e não vou me justificar pela opção de escrever sobre ela com sinceridade. Estar presente no dia foi um verdadeiro privilégio.

E numa situação como essa, vale sempre ressaltar o empenho da Itiban, que se dispõe a abrir as suas portas em sábados e, muitas vezes, domingos, com atividades que seguem até o começo da noite, sempre fomentando a cena local, apoiando os artistas e oferecendo um atendimento ímpar ao público. Lojas como a Itiban (e a Ugra, de São Paulo, que segue um molde similar com atividades) merecem o reconhecimento do público e dos profissionais de quadrinhos.

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Sobre Mensur, Coutinho lançou uma obra que ainda vai ecoar muito pelo cenário nacional, o que não é uma coisa muito frequente. Eu li a primeira vez e adorei. Li numa sentada, apesar das pouco mais de 200 páginas e das imagens minuciosas que pedem muita atenção do leitor.

Depois de ter visto a mesa da Itiban, foi impossível não perceber no gibi o peso impregnado na construção da obra. Estava, sim, influenciado pelas declarações do Coutinho, mas isso só acrescentou à experiência. Saber que aquela obra extensa, minuciosa, com uma trama muito bem delineada e amarrada, que pede segundas e terceiras leituras carrega uma carga tão densa dá uma nova dimensão ao alcance das possibilidades de leitura.

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No meu caso, isso aconteceu nos bate-papos com os amigos Balburdes Líber, Maria, Lielson e Felipe. Foi através dos nossos olhares variados que a obra foi se moldando antes mesmo de eu tomar uma segunda leitura. E isso eu acho que é o efeito de uma grande obra: quando a gente debate, pensa sobre ela, procura ver com os amigos se a sua interpretação tá no caminho certo, se aquele painel indica o que você pensa ou não, os detalhes da trama, as suposições. É por isso que eu acho que Mensur ainda vai ecoar muito em 2017 e além. É uma obra que deve ser debatida, relida, debatida novamente, relida de novo. Gibis esquecíveis não fazem isso.

Muito evidente em Mensur, e o que auxilia para que seja considerada uma grande obra, são também as questões sociais e de gênero. Não são os elementos em primeiro plano, mas também não servem só de “cenário”. São elementos evidentes, constantes e bem delineados, como a postura do Gordo em relação às mulheres (um escroto misógino, dominador e estuprador), que é a característica que o define como personagem, além de outros personagens que se comportam de maneira similar aparecerem no decorrer da história. Já a postura do Gringo, o protagonista, é descrita como oposta (apesar de ter abandonado a mãe por 7 anos, o que pode, inclusive, ser um ato simbólico inserido pelo autor, não fica claro o motivo do distanciamento) de uma forma bem evidente.

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Além disso, o Gringo é um rapaz que cursou a faculdade de medicina, teria todas as chances de passar a vida longe da periferia, na torre de marfim da elite, porém, opta por diversos trabalhos braçais, vive da maneira mais simples possível. “Eu queria ser pobre”, disse o Coutinho sobre um aspecto da sua infância na mesa da Itiban. Viu como não deu pra ler o livro sem conectar com o peso do evento daquele sábado?

Eu acho que falei mais da mesa do que sobre o gibi em si, mas ok, foi uma decisão consciente. Admito que sou incapaz  de conter aquela obra numa resenha. Acho que os meus colegas do blog vão fazer isso com maior competência. Então, fica o resumo: Mensur é isso, uma trama pesada, densa, muito bem delineada, com inúmeras informações nas imagens preto e branco de linhas fluidas do autor e suas paginações incomuns, ousadas, modernas e arrojadas, com diversos comentários sociais e de gênero, um gibi que cresce conforme é debatido e analisado por diferentes olhares. Ao mesmo tempo que me sinto ansioso pelos próximos projetos do Coutinho, quero deixar que a sombra de Mensur cresça merecidamente, como aquela obra que você redescobre de tempos em tempos.