1984, de Fido nesti

Fido Nesti assumiu a bronca de adaptar o texto de George Orwell 1984 para os quadrinhos (Quadrinhos na Cia., 2020)*. A missão dessa vez não pedia apenas o duro embate entre o que fica e o que sai, o que vai pra imagem e o que permanece em texto, mas também de conseguir se sobressair em meio a tantas obras com o nome do autor inglês na capa.

Eis que chegamos ao ano George Orwell. Não, não é o ano em que se passa o romance distópico 1984, cujo título já nos aponta a data, mas ano em que as obras do autor entraram em domínio público (este 2021). Uma passeada (virtual, pois pandemia) pelas livrarias faz com que nossos olhos sejam soterrados pela abundância de novas traduções desse clássico e de Revolução dos bichos / Fazenda dos animais (vale ler a questão da mudança do título em português aqui).

O 1984 ampliou seu teor de tema pop e difundido por causa do reality show Big Brother, com edições em diversos países. A influência do livro é tão intensa que a ultradireita dos EUA (rapidamente copiada pela daqui) passou a usar o adjetivo “orwellian” pra dizer que foram vítimas de autoritarismo como se estivessem no universo do livro (esse duplipensar dá toda uma apreciação requintada pra bagaça).

Duplipensar, para quem não conhece o termo inventado pelo mesmo Orwell, significa aceitar ao mesmo tempo duas crenças contraditórias, como declarar-se defender a vida de crianças mas obrigá-las a gerar frutos de estupro, ou se dizer contra a corrupção enquanto se sonega impostos etc. (ensaio específico sobre duplipensar em esfera federal aqui).

Sempre gosto de pensar em que ponto da história uma obra se apresenta na cena em que passa a fazer parte. O livro de Nesti chegou no desvairado ano de 2020, por um lado antecipando o catatau de lançamentos de 2021 da “marca Orwell”; por outro, trazendo pra baila novamente a ficção que trata de pós-verdade, manipulação, autoritarismo, controle dos corpos e mentes (que é mais ou menos o que a gente enfrenta todos os dias atualmente).

O Grande Irmão é uma farsa, uma ficção dentro da ficção com propósito de personalizar as atenções, direcionar os afetos e reforçar a manipulação. Winston, o protagonista, é responsável por reescrever notícias da Eurásia (um dos três grandes continentes em que o mundo se divide) para que o passado corresponda ao presente, destruindo marcas daquilo que foi feito e que agora precisa ser negado (similar ao ministro da saúde do Brasil que nega que tenha indicado um tratamento precoce ineficaz contra Covid-19 depois de ter feito a recomendação diversas vezes – só que no universo do Orwell tem gente que apaga essa informação e faz com que a fala atual vire verdade: essa é a pós-verdade orwelliana).

O romance de Orwell tem estilo jornalístico e direto, com narrativa em terceira pessoa com intervenções de discurso direto de Winston. Essa aposta na simplicidade, que parece buscar o fato e apresentá-lo como é, se contrapõe de maneira sagaz às diversas maneiras de mentir dentro da obra. Também parece ser a única forma de narrar possível em um cenário de tanto controle sobre as palavras.

E justamente aqui me parece estar a maior dificuldade de adaptar essa prosa para outros meios: o objetivo da novafala (um inglês simplificado proposto pelo governo da Oceania sobre seus cidadãos) é controle do pensamento. Os personagens podem ser presos e acusados por pensarem em um crime. Na página 48 da adaptação, Syme, um dos responsáveis pela elaboração do novo idioma, explica a Winston: “A verdadeira finalidade da novafala é estreitar o âmbito do pensamento. No fim, teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo”. Ao retirar termos subversivos que poderiam levar a perder a autoridade, o autoritarismo espera eliminar a possibilidade de revolta.

A libertação de Winston (bem como à chegada a seu ponto trágico sem retorno) é quando começa a escrever em um diário às escondidas. A mesma palavra que o liberta, o condena. A manipulação do texto na pós-verdade, o duplipensar representado em slogans como “Liberdade é escravidão” e “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado“, mostram que o controle do discurso é o verdadeiro poder. Ter a verdade não é relevante se você pode criá-la ou distorcê-la.

Como colocar toda essa presença da palavra em termos gráficos? Lembremos, a palavra na história em quadrinhos é imagem. Certo, mas de que forma usar as possibilidades visuais para fazer com que a palavra se apresente confortável vestida em imagem?

No quadrinho, Fido fez a opção de contar a história com uma grade-base de 9 quadros por página, com variações que não desrespeitam esse padrão. Se esse procedimento parece tentar encontrar um paralelo para forma de narrar de Orwell (e acredito que seja uma boa), por outro lado, limita as opções de interferência gráfica do artista às páginas inteiras e alguns quadros. Uma variação acontece quando Winston lê a obra proibida de Goldstein, o grande traidor da Oceania, em que Nesti apresenta uma simulação do livro, como que encaixando um livro ilustrado em meio aos quadrinhos.

As cores soturnas e sem vivacidade são a escolha mais indicada para a representação desse universo totalitário e sem euforia. É uma opção que o filme de Michael Radford também faz (Nesti cita visualmente o filme em algumas passagens, embora de forma inconsciente).

Vivemos um período em que está muito clara a importância do discurso como poder e de que a disputa de discursos é o cerne da luta entre a liberdade e os autoritários. Quanto mais meios, mais discursos e mais possibilidades de fraturar e infectar esse discurso.

Nesti reposiciona o texto de Orwell de maneira muito respeitosa, com a opção de se colocar como um emissária desse discurso que já é forte em si. Embora toda criação derivada aponte e indique sua fonte, Nesti conseguiu apresentar um 1984 angustiante, soterrador e muito visual.

*Agradecemos à Companhia das Letras pelo envio do livro.

Publicado por lielson

Francisco Beltrão (1980) - Curitiba (2000) - São Paulo (2011) - Salvador (2017) - São Gonçalo (2018) - Santa Maria (2019).

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