
Hoje morremos de tristeza nós todos. Perdemos a Satrapi.
Marjane escreveu sobre o luto inúmeras vezes: sobre a dor irreconciliável de perder seu mundo material e psíquico, quando a guerra modificou de forma irreversível seu país, seu povo e sua família. Sobre a ruptura igualmente irreversível de ser estrangeira em país estrangeiro e em seu próprio país1. Sobre a dor absurda que é se reconhecer só. Narrou uma morte de tristeza real em Frango com ameixas2. A notícia de sua morte, publicada hoje pelos principais jornais franceses e do mundo, diziam que ela morreu de tristeza, pela morte de seu marido, Mattias Ripa (em abril do ano passado). Não é difícil imaginar a dor de também de se ver porta-voz de um mundo em desencanto, com os ataques renovados a sua terra natal no último ano.
Marjane Satrapi veio de um mundo em transformações irreconciliáveis. E ela ajudou a mudar também o pensamento em torno das histórias em quadrinhos. Como escrevi recentemente sobre ela, sua história ajudou a mudar como lemos quadrinhos. Inúmeras são as pessoas que começaram suas leituras a partir dela.
Hoje, todos nos reunimos em teu nome, em inúmeros textos e desenhos rememorando tua história, que tanto nos afeta e nos transformou.
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Hoje me veio a memória vívida de quando assisti a Persépolis pela primeira vez. Eu dava aula na Aliança Francesa da Maison de France, e já acompanhava os quadrinhos contemporâneos brasileiros. Avisaram que teria a exibição de um filme no belíssimo teatro do consulado, e desci com os alunos para uma atividade diferente. Eu não sabia nada de Persépolis. Isso devia ser 2007. Os livros, ainda em volumes, encontrei na médiathèque da Aliança de Botafogo, um ano depois (veio junto com toda uma coleção de quadrinhos que ia me ajudar a começar meu caminho na pesquisa). Me identifiquei com a menina que não tolerava a tentativa de sujeitar as mulheres e todo um povo por um moralismo ultrajante e sem sentido.
Essa semana atordoei meu grupo de orientandos citando o Paul Celan, Die Welt ist fort, ich muß dich tragen. (Perdão, gente). O trabalho do luto quer que a gente carregue, supere dialeticamente a morte (indialética).3
Mas nós te levaremos, Marjane Satrapi.
Por você, continuaremos a combater, na escrita, no desenho. Pelo mundo que acabou, para que o mundo viva.
Obrigada, Marjane.
Rest in Power.
- Persépolis apareceu primeiro na revista Lapin, saiu em alguns volumes entre 2000 e 2003. ↩︎
- Frango com ameixas [Poulet aux prunes] foi publicado a primeira vez em 2004, e virou filme dela com Vincent Paronnaud em 2011. ↩︎
- Chaque fois unique, la fin du monde: cada vez único, o fim do mundo. Derrida escreve sobre como a morte de um amigo traz essa aporia de tentar superar o insuperável. ↩︎
