[A CONSCIÊNCIA DE ZENI] Caro Guazzelli,

AN 1

Caro Eloar Guazzelli, pescador de histórias

Posso chamá-lo só de Guazzelli? Espero que sim, pois foi isso que fiz nessa carta toda. Mesmo tendo nos encontrado algumas vezes no Desenhando SP, acho que não se lembra de mim. Escrevo esta carta porque li seu Apocalipse Nau e gostaria de comentar ele contigo. Faço esta carta pública (neste blog, sem envio pelo correio) porque não temos essa proximidade toda pra te ligar ou sei lá, dobrar, envelopar, selar esta carta diretamente pra ti (ano das cartas ao vento), seria só mais um maluco que te apareceria pela frente. Estranhamente, ao colocar essa carta aqui, eu me torno menos doido (há também, maior que tudo na verdade, a vaidade de pensar que aquilo que vou dizer possa interessar a mais gente além do autor e do leitor da obra) (Quero também saber quão elástico é o formato crítico. Pode uma carta dessas, de um leitor ao autor, ganhar relevo de ensaio sobre a obra?)

Costumo reler obras de que gosto e digo que passo a vida buscando livros pra reler. Já reli diversas vezes Apocalipse Nau, e não apenas porque acho que comentar uma obra exige a energia da atenção (tipo a releitura), mas pelo prazer de ler. Esse prazer está em que algo sempre me escapa. Volto, releio, acho que encontro, mas outro elemento foge. Sigo perseguindo Apocalipse Nau.

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Gosto demais do modo como extrai de uma trama-base singela um poderoso ferramental reflexivo nessa HQ que é meio diário, meio caderno de anotações, meio caderno de esboços. Tu me conta um período de férias com a família na praia. Não me importa (nem à ficção) se é tudo verdade ou F for fake; não é esse o jogo. Me chama a atenção, na real, um agir paradoxal que está na obra toda, como a família aprazível Vs a tensão do ódio em escala mundial. O micro e o macro se complementam em vez de se opor. Tua figura aparece poucas vezes no gibi, meio que lateralmente ainda, mas ao mesmo tempo, tudo é tua voz. Teu traço característico é Guazzelli, óbvio, mas penso também nos textos, com letra a mão que imprime uma pessoalidade, como na carta do teu avô. Tu viveu aquilo, narra tudo, mas não está lá, embora claramente esteve. Tanto, que me levou pra visitar aquela praia.

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Os textos em primeira pessoa bambeiam entre opinativo e memória e o olhar via desenho, várias vezes é a observação do instante presente, pois é um olhar que se posiciona no mundo, o retrata, o influencia e é influenciado por esse mundo; vê e é visto. Penso nesse par memória Vs presente: os desenhos me parecem tomados no ato da visão dos objetos retratados, enquanto os textos trazem uma elaboração com o passado. Essa elaboração, Guazzelli, se cola ao presente e não a toa manda cartas a Assange e a teu falecido pai, duas figuras admiráveis, que não se omitiram de agir quando viram ser necessário, mesmo com o risco envolvido.

A colagem desse tema de férias, ou melhor, colado a esse fundo praieiro e de sua família, vem o pensar sobre o mundo. Reencontramos o assassinato dos franceses do Charlie Hebdo em janeiro de 2015, o que pra ti é um fato ocorrido no dia (é teu diário, lembremos). Eu lembro que as pessoas se empoleiraram em arranca-rabos morais sobre liberdade de expressão, desproporção e até mesmo um discurso de “eles meio que pediram por isso”. Tu ilumina o fato com algumas HQs curtas (me permito lançar mão do clichê mosaico), sendo uma sobre a reação Je suis Charlie/ je suis pas Charlie e a minha favorita em que anula a diferença entre o perigo do fanático religioso e a guerra racional de videogames (gosto especialmente da reflexão sobre a voz monocórdia shot/stop, uma tela preta impune e acima, criando luzes de morte com poeira).

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Me peguei pensando se a indústria da guerra não está treinando a nós todos para matar pixels em nossos videogames (em lugares sem saves ou vidas infinitas).

AN 4

Escrevo pra ti também em uma folga com minha família, enquanto luto aqui com este textinho em um caderno, me pergunto porque ele interessaria a mais alguém, se não é só uma egotrip minha; penso isso e ouço o pudim assando em banho-maria e os gatos correndo pela casa. Pensei em desenhar, mas tive convicção que não ajudaria a pensar Apocalipse Nau (aliás, tua selva é bem diferente da Saigon do Coppola, hein? Embora às vezes as notícias me falem em selvageria ao alcance de passos).

A guerra está posta na mesa. Bon Appetit! O ocidente age igual ao oriente e por isso perdeu. Enjoy your meal, pal!

A oposição a essa guerra mundial generalizada é a paz particular: a guerra abrange o globo, a paz é um ponto como visto pela câmera do drone, a um clique do fim. Não sei se me resigno, lamento ou sinto alívio.

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“Acho todos deliciosos, apesar do cheiro”, diz o urubu ao animal mais velho diante da sua incompreensão em diferenciar os humanos.

Gosto dessas frases todas, elas me incomodam. Em teu livro, a notícia do fuzilamento do brasileiro na indonésia vem aliviada por desenhos da casa de Florianópolis, da paz em família; o desenho ganha detalhes como se a cada ataque do mundo a paz precisasse de mais corpo e nitidez.

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Esta carta foi escrita no feriado de carnaval em aeroportos, rodoviárias, estrada, paradas para lanche e casa dos meus pais; lugares de passagem e lugares de paz. Encerro sem saber exatamente porque a escrevi. Certamente, quero agradecer por algo que me tocou (e toca) tanto, mas tem mais que isso, algo que não sei bem o que é. Se um dia descobrir, te escrevo de novo, Guazzelli.

Grande abraço

Lielson Zeni [São Paulo-Curitiba-Francisco Beltrão]

AN 5

PS – MAR DEL PLATA ES MÁS LINDO!

5 comentários em “[A CONSCIÊNCIA DE ZENI] Caro Guazzelli,”

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