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Acho engraçado como às vezes a gente se agarra a coisas como se elas fossem um salva-vidas na correnteza violenta. De diversas maneiras. Tentamos fazer lastros a partir de projetos, empregos, filhos, companheiras e companheiros. Um porto seguro, um ponto de apoio, que ajude a escapar dessa sensação de queda livre. Parece haver uma tensão, uma desarmonia terrível que clama pra ser resolvida e talvez a resposta esteja no outro. Na alteridade que ajuda a definir nossa realidade e a nós mesmos.

Precisamos do olhar do outro para podermos enxergar melhor. E daí vem o medo de nos perdermos e sermos consumidos nesse novo olhar, de ganharmos uma nova noção do mundo e das coisas e, com isso, deixarmos de ser quem somos. As pessoas nos mudam pela sua presença e depois pela sua ausência.

O mais engraçado é que nada garante que realmente consigamos ter acesso a esse outro olhar. É muito provável que, quando escutamos a fala e a ideia de outra pesssoa, distorcemos tudo com a nossa perspectiva, os nossos interesses, a nossa experiência.

Nunca acreditei em imparcialidade.

A história de Hermínia começa com uma pergunta.

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Ou talvez não. Talvez a história comece já na capa. Olha só que coisa linda. Lombada quadrada, verniz localizado (sou designer, me deixa). O verniz marca o título, o pequeno casal que caminha pela cidade e cada um dos tracinhos que compõe no céu o desenho de uma atmosfera que me faz lembrar de Van Gogh. Gosto muito. Então, a capa mostra essas fachadas de prédios, esse pedaço de cidade que parece vazia, sem mais ninguém a não ser o casal que caminha. Quando eu abro e vejo capa e contra capa, eu tenho essa impressão de ver uma tela de cinema, por causa das proporções, e a posição do casal me sugere que eles estão caminhando lado a lado já tem um tempinho.

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Daí eu abro o livro e tem as páginas de guarda, com esse desenho de um vórtice, um olho de furacão, algo que vai nos tragar. A água que desce pela pia, o tempo que se escoa. Ou uma impressão digital, a marca que só uma pessoa poderia ter, uma história toda traçada nas linhas da mão. Quiromancia, destino, tarô. Significado. Movimento.

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O miolo é todo impresso só com tinta magenta. No espectro de luz, a mistura das cores azul e vermelho resulta no magenta. Segundo Israel Pedrosa, é “a cor da temperança. Reúne as qualidades das cores que lhe dão origem (vermelho e azul), simbolizando a lucidez, a ação refletida, o equilíbrio entre a terra e o céu, os sentidos e o espírito, a paixão e a inteligência, o amor e a sabedoria” (Da cor à cor inexistente, página 115).

Repare, estamos estabelecendo significados e estamos bem longe das ciências exatas. A lógica aqui é outra, mas não menos verdadeira.

E como que tudo termina? A gente não sabe. Nunca com certeza. Mas daí a gente vira a página e vê os dois deitados no chão. Quer dizer, eles estão deitados no chão, mas também podemos imaginá-los soltos no espaço. E as linhas ao redor evocam de novo aquele ponto central de convergência. Mas talvez não estejam convergindo. Talvez estejam se expandindo, se afastando.

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Tem três personagens principais nessa história: Arcádio, Hermínia e a terrível nuvem devoradora de planos existenciais, mas a voz que conta é a de Arcádio. É pelos olhos dele que a realidade acontece. Hermínia e a nuvem são parte do mundo externo, da assustadora (?) alteridade.

A história vai sendo pontuada por páginas absolutamente preenchidas de magenta, dividida em episódios. Enquanto que no primeiro episódio conhecemos o que imaginamos ser um casal, no segundo somos apresentados à névoa, que aparentemente persegue e consome uma moça com tapa-olho. Acho legal que essa moça é representada sozinha e com a insinuação da falta de um pedaço de si.

E daí os outros episódios mostram a relação entre Arcádio, Hermínia e a nuvem. Os dois primeiros interagindo entre si enquanto tentam escapar do terceiro. Tudo girando em torno de Arcádio. É pelos olhos dele que somos apresentados a uma Hermínia ousada e provocadora, que parece querer desafiar Arcádio e forçá-lo a sair dos limites. Ele se esforça, se machuca, se desculpa, se aterroriza com a nuvem. “infinitos egos em processo de dissolução tudo se perde na nuvem vira uma coisa só”. E tem essa moça chamada Hermínia que o toma pelas mãos e eles fogem do fim do mundo correndo descalços pela cidade vazia.

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Sabe, eu olho pras páginas e consigo enxergar eles correndo. Consigo enxergar o fantasma de um filme que nunca existiu ou o eco das correrias de um Jules et Jim. Jovens correndo do fim do mundo. “quando a gente perceber o que tá acontecendo, já é tarde.” Bah, saudades da época que eu conseguia me sentir assim.

E daí tem essa moça chamada Hermínia e o mundo está acabando e Arcádio se agarra a ela. Andam juntos. É ela que se interessa por ele e pergunta sobre ele e sabemos das histórias e particularidades do moço. Gira tudo em torno de Arcádio. Hermínia se aproxima, toma a iniciativa e vem a transa.

Na transa descobrimos uma grande tatuagem que cobre o peito de Arcádio.

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Amigo Google me contou que Arcadia é uma região da Grécia e que “et in arcadia ego” (que é também o nome de um quadro) significa “vivi (ou vivo) em arcadia”. Arcadia também pode significar um lugar utópico, idílico. E o esqueletão tem muita similaridade com a carta da Morte no tarô, décimo-terceiro arcano, que significa mudança.

Outra coisa legal da transa é que ela parece mudar as coisas. “como se a gente não estivesse no mesmo lugar de antes”, diz a moça Hermínia. E depois vemos uma discussão entre ela e Arcádio. Parece que trocam de lugar. Agora é Arcadio que desafia Hermínia. Mas de um jeito mais desastrado, uma brincadeira que vira deboche e a menina não gosta. Brigam. A nuvem os persegue, fogem, são cercados, separam-se.

Até então eram só os dois no mundo, mais ninguém. Ruas vazias, carros vazios. E depois que Hermínia se vai as pessoas voltam. Ou Arcádio volta, quem sabe. De um jeito ou de outro, as coisas não são mais como antes. Algo deixou de ser.

Nova tatuagem para Arcádio. Agora cobrindo suas costas, a imagem do décimo-quarto arcano, a Temperança, mas seguindo as formas do tarô de Thot, elaborado por Aleister Crowley e ilustrado por Frieda Harris, onde a carta chama-se Arte. Na imagem de Harris, fica evidente o significado de harmonia e equilíbrio entre opostos que constituem um todo. “você já não pertence por inteiro a esse mundo”, diz uma voz na nossa cabeça.

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O tarô, seus desenhos, simbolismos, é vivo. Ele muda. Suas mensagens, suas histórias mudam com as leituras, com o leitor. Há ideias e conceitos básicos, canônicos, mas a prática é única. O momento é único. Acho que a leitura de Hermínia tem um bocado a ver com tarô.

Então, não sei dizer o que você vai ler, o que você vai enxergar em Hermínia, na nuvem, nos movimentos e linhas. Mas daí eu leio o último episódio, um epílogo onde Arcádio e Hermínia ainda estão juntos, transando felizes e bêbados, enquanto a nuvem inescapável está lá fora. Eu volto uma página e vejo Arcádio caminhando sozinho, passando pela moça de tapa-olho lá do começo. Morte e temperança se entremeando na virada de páginas.

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Gostei muito da impressão em magenta.