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Tem um capítulo muito interessante em Desvendando os Quadrinhos no qual Scott McCloud fala sobre arte e criatividade. É o capítulo sete, chamado “Os seis passos”. Ele propõe uma sistematização do processo criativo. Uma receita de gibi, talvez. O que me impressiona é a ambição da proposta. Nas palavras do próprio McCloud: “(…) a criação de qualquer trabalho em qualquer meio sempre vai seguir um certo caminho”(p.169). Este caminho: os seis passos. Percebe, Evair?

Então, em 2015, foi publicado o novo livro de McCloud, O Escultor, um calhamaço de quase 500 páginas que conta a história de um jovem artista chamado David Smith. Na orelha do livro, Neil Gaiman escreve: “A melhor graphic novel que leio em muitos anos. Ele trata de arte, de amor e do porquê do insistir. Você vai ficar de coração partido”.

Melhor graphic novel? Será que o Gaiman leu Here?

De qualquer forma, quando li O Escultor, acabei me lembrando justamente daquele capítulo sete de Desvendando os Quadrinhos. Esses dois gibis falam um bocado sobre arte, ou melhor dizendo, sobre as ideias que Scott McCloud tem sobre arte. Daí eu pensei: que tal revisitar o Desvendando os quadrinhos para criticar o Escultor?

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Ok. Desvendando os Quadrinhos é a obra-prima de Scott McCloud. Publicado aqui no Brasil pela primeira vez em 1995, pela editora Makron Books, acho que não exagero ao dizer que o livro marcou uma geração. Ele se propunha a falar sobre histórias em quadrinhos usando histórias em quadrinhos para isso. Uma excelente história em quadrinhos, aliás, que acabou se tornando uma daquelas obras icônicas, uma referência que sempre é lembrada. Quero chamar a atenção para o modo como McCloud se inseriu na história, não apenas como personagem, mas se posicionando e assumindo que aquelas ideias eram a sua própria teoria sobre os quadrinhos, baseadas em seu conhecimento e sua visão muito pessoal do assunto. Por isso, penso que, antes de tudo, Desvendando os Quadrinhos é um trabalho autoral. Um gibi no qual um quadrinista que se propõe a construir uma livre reflexão sobre os processos de criação e as características da linguagem dos quadrinhos. Um ensaio, se preferir.

Talvez por apresentar suas ideias de maneira muito didática e envolvente, Desvendando os quadrinhos acabou se consolidando como livro teórico. Durante anos, foi um dos livros mais citados nos artigos acadêmicos – de psicologia, sociologia, letras, comunicação, semiótica, linguística, artes, estudos culturais, etc etc – que abordam histórias em quadrinhos. Só que, apesar dessa popularidade, as ideias e conceitos desenvolvidos por McCloud recebem muitas críticas de acadêmicos e pesquisadores.

Por exemplo, no capítulo dois, “O vocabulário dos quadrinhos”, o autor adota significados arbitrários para as palavras “ícone” e “símbolo”, sem referência a nenhuma outra disciplina ou campo de estudos. McCloud propõe (inventa?) seu próprio entendimento dessas palavras, de acordo com seus próprios fins.

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Ainda que falte um rigor acadêmico e científico, o livro funciona muito bem ao explicar certos conceitos para o público em geral. McCloud está mais interessado em divulgar, da maneira mais acessível possível, o seu entendimento e paixão pelos quadrinhos do que em elaborar teorias profundas, sólidas e complexas. Essa aqui é a minha passagem favorita do livro.

Essas páginas me instigaram sobre semiótica muito mais do que qualquer texto que eu li depois. Por isso penso que essa é uma forma de reler Desvendando os quadrinhos : entender que as incongruências e fragilidades teóricas são compensadas por um discurso espontâneo, uma abordagem pessoal e original sobre o processo de pensar uma história em quadrinhos. É importante frisar que McCloud não está conversando com a academia e com o rigor científico. Nos agradecimentos do livro, fica claro que ele escreve para o público em geral e para seus colegas da indústria dos quadrinhos norte-americana. Trata-se de um profissional falando o que pensa sobre as práticas de seu trabalho, sobre como ele entende que as coisas são, a partir do conhecimento que possui e de observações diretas da realidade a seu redor. Tudo isso tem que ser levado em consideração ao criticarmos a teoria que ele produz.

Então, vamos voltar para o tal capítulo sete. “Os seis passos”, sobre arte e processo criativo.

Primeiro, McCloud conceitua arte como “qualquer atividade humana que não se desenvolve a partir dos dois instintos básicos da nossa espécie: sobrevivência e reprodução” (p. 164). No desenrolar de seu raciocínio, McCloud supõe um coletivo imaginário de seres humanos desocupados, que em seu ócio batucam pedras, rabiscam na areia, balbuciam melodias, ensaiam passos de dança. Ele sugere que essas pessoas, que não estavam preocupadas com sobrevivência (trabalho) ou reprodução (sexo), isto é, estavam sem fazer “nada”, eram uma “colônia artística em potencial”.

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Nesse ponto, eu desconfortavelmente me lembro das várias pessoas que apareceram chamando artistas de vagabundos, quando o governo golpista extinguiu o Ministério da Cultura. Por isso eu acho que há alguns equívocos graves nessa ênfase que Scott dá à ideia do “elemento de arte” como aquela coisa completamente inútil e desnecessária, mas ainda assim, de alguma forma, importante. Ele literalmente diz:

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Mas… por quê?

Por que sua arte é importante? O que faz ela ser importante? Isso é algo que Scott McCloud não responde. Talvez não responda porque entenda que cada obra e cada autor tem a sua própria resposta para essa pergunta. Ou talvez ele compreenda que a importância da arte tenha dimensões que extrapolam qualquer paradigma exclusivamente pragmático. Ou talvez ele não consiga lidar com extrapolações de paradigmas pragmáticos.

Parece-me evidente que McCloud se propõe a fazer uma abordagem racional e objetiva dos quadrinhos. Ainda que sua metodologia possa receber críticas, ele procura construir suas considerações a partir de observações empíricas diretas e propõe classificações e sistemas, buscando justificá-los a partir de exemplos concretos. Acho que o McCloud tem aquela coisa do perfil de colecionador, que precisa colocar o gibi certo na caixa certa. O problema é que não há lógica de ordenação e limites que consigam dar conta de todas as atividades e dimensões humanas.

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O conceito de “utilidade” é fundamental para qualquer visão pragmática. É a utilidade que define a coisa. Facas cortam, professores ensinam, comédias fazem rir. E a arte? Se ela não é útil, como defini-la? Como compreender sua dimensão?

Eu fico fascinado como esse sujeito, que trabalha tão bem com a linguagem, não consegue perceber as dimensões simbólicas, estéticas e sociais das atividades de que fala. McCloud parece não conseguir ir além do pensamento utilitário imediatista. Isso me parece bem evidente quando ele tenta justificar, a partir de um “ponto de vista evolucionário” (portanto, supostamente sério e científico), a importância das atividades “lúdicas”, como as artes e os esportes.

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Produzir arte não é estar à toa. Produzir arte é estudar muito, é ler muito, é praticar horas e horas e horas o seu desenho, a sua escrita, o seu ritmo, o seu movimento. Criar é pensar no que se está fazendo, pensar nos motivos de se estar fazendo. Tem a ver com propósito, portanto não é inútil, ainda que, muitas vezes seja difícil de traduzir esse propósito para termos pragmáticos imediatos. Produzir arte é trabalho, mas parece que McCloud não consegue enxergar isso nem quando tenta enquadrar o processo em um esquema de produção dividido em etapas bem definidas.

E daí vem os “seis passos”.

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E o caminho de seis passos pode virar uma maçã. Ou uma cebola. Como preferir.

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McCloud sugere que esses passos/camadas podem ser usados para organizar não apenas o processo criativo, mas também a leitura e entendimento de obras e de trajetórias de artistas. Então, vamos tomar agora O Escultor e abordá-lo a partir dos “seis passos”, bem esquematicamente. Ou quase.

“SUPERFÍCIE”

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É a casca. “Os aspectos mais aparentes na primeira exposição superficial da obra”. Então, primeiro que O Escultor é um livrão. Quinhentas páginas. É impresso com tinta preta e azul. Em um texto na orelha do livro, a história é descrita:

“Após um acordo com a Morte, o jovem escultor obtém seu desejo de infância: esculpir o que quiser com as mãos nuas. Mas agora que só lhe restam 200 dias de vida, decidir o que criar é mais difícil do que ele pensava. Descobrir o amor de sua vida na penúltima hora não ajuda em nada”.

Ok. Então temos um livro de 500 páginas em quadrinhos que nos promete entregar “uma fascinante fábula urbana sobre um desejo de infância, acordos com a Morte, o preço da arte, o valor da vida e um amor arrebatado”. Veremos.

“HABILIDADE”

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A “habilidade” está relacionada com o domínio da técnica e o lance aqui é avaliar a qualidade do desenho e arte-final de McCloud, que, ao meu ver, cumpre a função. Comunica, apresenta cenários convincentes, mostra as emoções dos personagens satisfatoriamente. Em uma análise mais profunda e detalhada sobre estética e expressão, a discussão sobre o valor do desenho pode ir mais longe, mas não vou enveredar por esse caminho.

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Composição, ritmo e narrativa poderiam ser consideradas “habilidades”? Talvez, mas McCloud as classifica como “estrutura”.

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“ESTRUTURA”

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É o que McCloud chama de “juntar tudo”, a composição do trabalho. Aqui a gente começa a olhar o todo e tentar perceber as partes. Eu vou considerar como “partes” os personagens, ideias e temas.

Então temos, em primeiro lugar, o protagonista David Smith. As coisas vão acontecer em torno dele. O motor principal da história é o sonho dele se tornar um artista reconhecido. São seus sentimentos, suas lembranças e suas decisões que servem de base para o drama e a energia da narrativa.

David faz um pacto com a Morte. Aqui entra o elemento fantástico. Podia ter sido o mago do Shazam ou um alienígena moribundo. Mas foi a Morte, assumindo a forma do seu tio-avô Harry, que lhe deu super-poderes.

Daí tem a garota, Meg. Ela conhece David enquanto atuava em uma performance artística. Além de atriz, ela trabalha como entregadora de encomendas e é engajada com ações sociais, em especial com os sem-teto. Ela é bipolar ou depressiva, alguma coisa assim. E é o grande amor de David.

E temos Ollie, o melhor amigo de David, que apoia sua carreira dando conselhos e apresentando-o a profissionais do mercado de artes. É através dele que o mundo das artes, com seus circuitos comerciais, intrigas e negociações, ganha representação na história.

É a partir da articulação desses personagens, tramas, elementos, temas e ideias que McCloud compõe sua história. Os tipos de articulações que ele elabora entre essas partes tem a ver com ritmo, estilo e gênero: o modo como ele vai contar a história, se ela vai pender para o drama ou para o humor. De novo, dentro do sistema estabelecido pelo autor, essas coisas acabam sendo envolvidas também pelo passo número 3, o “idioma”.

“IDIOMA”

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Lendo Desvendando os Quadrinhos, fico com a impressão de que em “idioma”, McCloud refere-se a dois conceitos diferentes: gênero e estilo.

“Gênero” é a caixinha a que pertence a obra. Pode se referir à linguagem – quadrinhos, cinema, literatura – ou ao estilo da narrativa – comédia, drama, ficção científica. A verdade é que gêneros, o conceito de classificação de obras, é algo bem complexo, com diversas teorias não necessariamente concordantes a respeito. Há diferentes abordagens dentro da literatura e diferentes abordagens dentro da linguística, para ficar só nessas duas áreas de conhecimento.

Sem entrar em discussões mais profundas a esse respeito, vou tomar a ideia de gênero que McCloud mesmo sugere: “o vocabulário de estilos ou gestos ou assuntos”. Nesse sentido, O Escultor pode ser definido como uma história em quadrinhos que traz elementos fantásticos, drama e cotidiano.

De qualquer forma, a escolha de fazer uma história dramática, que, nas palavras de Gaiman, promete deixar o leitor de “coração partido”, implica em escolher certos caminhos e recursos narrativos que provoquem respostas emocionais no leitor. Repare que é um raciocínio que evoca uma lógica de causa e efeito e está presente na própria definição de quadrinhos de McCloud.

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Quando você cria uma “ciência” ou uma “metodologia” da elaboração de obras criativas, você está estabelecendo que há procedimentos e escolhas a serem feitas para se atingir resultados específicos.

Mas McCloud também usa a palavra “idioma” para se referir à linguagem ou ao estilo narrativo e gráfico pessoal, a marca própria que cada autor imprime à sua obra e que a torna única. Em “idioma” também está a busca pela individualidade, originalidade, inovação.

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Aqui é preciso chamar a atenção para o fato de que, em O Escultor, McCloud é bem convencional quanto aos modos de contar sua história. Ele domina diversas técnicas para transmitir claramente suas informações, sem espaço para dubiedades. Talvez, de uma perspectiva mais técnica, pudesse se discutir algo em relação ao ritmo ou ao modo como o autor articula os diversos componentes da obra. Talvez ele tenha sido lento demais, talvez tenha sido rápido demais, talvez as transições e interações entre temas e tramas causem estranhamento. Ou talvez esteja tudo em seu lugar. Podemos discutir se a clareza (ou obviedade) da história constituem um valor positivo ou negativo, mas o fato é que O Escultor não apresenta nenhuma grande inovação em qualquer aspecto narrativo ou de estilo.

Assim, até aqui temos uma obra tecnicamente bem executada, que apresenta uma condução narrativa competente. Mas, de acordo com os seis passos, isso não é suficiente. Tanto a formação do autor quanto a análise da obra, após passarem pela “superfície”, “habilidade”, “estrutura” e “idioma”, encontram sua razão central nos dois últimos passos, “forma” e “ideia/objetivo”. É a priorização de um desses passos que, segundo McCloud, vai definir o tipo e o valor da obra, a sua relevância fundamental, a sua essência.

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Desvendando os Quadrinhos se trata de uma obra que prioriza a “forma”, seguindo a concepção do próprio McCloud. É uma história em quadrinhos sobre a mídia em si. Apesar de ser convencional no uso da linguagem, a narrativa que prioriza o ensaio, o didatismo e a argumentação foi algo original, que destacou a obra em seu tempo. O objetivo de “desvendar os quadrinhos” é buscado pelo autor com compromisso e honestidade que se espalham por toda a obra, ainda que resultando em conceitos e teorias questionáveis.

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Ao abordar O Escultor, seguindo a metodologia e pensamento de McCloud, vamos perceber que, uma vez que não há inovações na linguagem ou no modo de contar a história (a “forma”), a obra prioriza a “ideia/objetivo”. Mas, afinal, qual “ideia/objetivo”?

A proposta do trabalho é ser uma história sobre arte, amor, vida e morte, mas que tipo de história é essa?

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Primeiro é quase a história de um super-herói. Assim como Billy Batson ou Hal Jordan, David é escolhido para receber um grande poder. Esse poder é concedido pela Morte, que assume a forma de seu tio-avô Harry. É interessante perceber como o visual de Harry lembra Stan Lee. Não é idêntico, mas há semelhanças: idoso, óculos grande, bigode, postura. Também é interessante que o poder que David recebe é o mesmo que ele imaginou para si mesmo quando se desenhava nas suas histórias em quadrinhos de criança.

David é o protagonista solitário, a imagem do homem puro e bom, fiel a seus princípios e buscando conquistar seus sonhos de maneira digna. Ele perde tragicamente a família, passa fome e necessidade, não tem seu talento reconhecido por se indispor com as “autoridades” da arte, apaixona-se de maneira pura e sincera por uma garota, que a princípio não corresponde, mas depois se encanta por ele e, no final, morre, grávida de seu filho. Com isso, O Escultor almeja o trágico, mas descamba para o melodrama, com o exagero das situações que forçam a imagem do protagonista como pobre e injustiçado rapaz sofredor.

A “ideia/objetivo” principal do livro deveria ser a discussão sobre arte. Afinal, é por essa arte que David aceita encurtar sua vida para o máximo de 200 dias.

Quando ganha seu poder de modelar qualquer coisa, David elimina todos os primeiros passos e chega diretamente à questão fundamental: o que quero dizer com minha arte?  Por que minha arte é importante? Mas David não tem uma resposta. Ele não tem um projeto ou maturidade como artista. Suas peças são criadas sem um foco, baseadas exclusivamente em pura subjetividade. Imagens espontâneas feitas a partir de suas memórias e emoções. Não há uma unidade, não há planejamento, não há reflexão. E essa crítica é feita pelo amigo Ollie, dentro da própria história.

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David é um sujeito completamente mergulhado em si mesmo, em suas perdas e mágoas. O tom de comiseração domina toda a obra. David tem um compromisso profundo com a arte, mas não consegue pensar em propostas mais elaboradas, não consegue pensar no que quer dizer. Seu único objetivo é não ser apenas mais um David Smith. Ele quer desesperadamente ser reconhecido como alguém relevante e não percebe que esse desejo não é .“ideia/objetivo” que sustente uma pretensão de arte.

Sugere-se um “amadurecimento” do personagem, mas McCloud não mostra esse processo de um modo satisfatório. Não se desenvolve uma discussão sobre arte, que seria fundamental para a proposta da obra. A morte de Meg ao final do livro serve apenas para provocar impacto emocional e ressaltar que David não terá herdeiros e que, quando morrer, não deixará vestígios. Do começo ao fim, a preocupação maior de David é apenas com o reconhecimento e fama. Se for isso mesmo, a questão da arte, do comprometimento com a arte e com a reflexão sobre o que se quer fazer, é completamente vazia. Ou melhor, é limitada ao entendimento raso de que arte é apenas expressão dos sentimentos, sem utilidade, sem pretensão, sem razão de ser e que só faria sentido com a admiração dos outros. Sem essa admiração, não há diferença entre uma obra de arte e uma careta. Pelo menos, não para McCloud.

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Esse entendimento limitado de arte fica mais evidente quando comparamos com a abordagem e discussões de outra obra, Asterios Polyp, de David Mazzucchelli. Há muitas similaridades temáticas entre as duas obras, mas Mazzucchelli desenvolve ideias muito mais complexas e variadas do que McCloud.

Só pra fazer uma comparação rápida: em O Escultor Meg surge na vida de David e a relação entre os dois diminui a importância de uma discussão sobre arte. Afinal, para McCloud o amor (reprodução) é mais importante do que a arte (aquela coisa inútil). Já em Asterios Polyp, Hana é um amor maduro e vivido, que é recordado. A história de Asterios começa bem depois dela tê-lo abandonado e a busca por um entendimento dos sentidos da arte mistura-se com a busca e a reinvenção de si mesmo. São as relações, reflexões e transformações que Asterios vive que constituem o processo que pode ser entendido como parte da “ideia/objetivo” do livro de Mazzucchelli.

Concluindo, acredito que O Escultor é um longo e cansativo dramalhão, sobre um sujeito que quer ser lembrado, quer ser reconhecido, mas é incapaz de amadurecer e enxergar além de suas fantasias infantis. É óbvio que a construção de significado de uma obra depende também do espectador, mas essa significação só vai acontecer se, debaixo de toda a aparência, técnica e estrutura, existir efetivamente, por parte do autor, a intenção  de comunicar, questionar, pensar. E, debaixo de todo o sofrimento e confusão de David Smith, só há comiseração e mendicância pela empatia do leitor.

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