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Fotos de Tami Taketani

Durante sua turnê do lançamento do livro Hinário Nacional, o grande Marcello Quintanilha passou pela ITIBAN, em Curitiba. Foi no dia 15 de junho e tive o prazer de realizar a mediação.

Para quem não sabe, no início desse ano, Marcello Quintanilha teve seu livro Tungstênio premiado no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême. Trata-se de uma das mais importantes premiações de quadrinhos do mundo. Produzindo quadrinhos desde o século passado, Quintanilha é autor de Sábado dos Meus Amores, Almas Públicas, Tungstênio e Talco de Vidro, entre outras obras. Na minha opinião, é um dos autores mais importantes dos quadrinhos desse século XXI e, nesse bate-papo, ele faz ótimas reflexões sobre mercado, arte, linguagem e posicionamentos dos quadrinhos.

Daí preparei essa versão escrita pra compartilhar um pouco do que foi essa conversa. Divirta-se. 🙂

Liber Paz – Hoje é o lançamento de Hinário Nacional. Você quer começar falando pra gente sobre esse seu novo projeto?

Marcello QuintanilhaHinário Nacional é um livro de histórias curtas, como foram meus primeiros livros. Embora as histórias partam sempre de um mesmo princípio, sempre sou motivado por temas que me interessam como autor, especialmente as facetas do ser humano, as formas como as pessoas se relacionam umas com as outras, a forma como as pessoas se relacionam com o mundo em volta delas. No caso de Hinário Nacional, uma coisa muito emblemática é a maneira como as pessoas se relacionam com o mundo em volta delas sem necessariamente darem voz à forma como elas efetivamente gostariam de se relacionar com esse mundo. É um álbum onde o tema da violência é muito presente, não só a violência física, mas principalmente a violência psicológica. Não só a violência que infligimos a outras pessoas, mas também a violência que impomos a nós mesmos. A violência que perpassa as relações humanas é uma coisa que me choca muito, como pessoa e como autor também. Tudo isso está muito presente em Hinário Nacional.

Liber PazMuitas vezes, em Hinário Nacional, há representações de relações de poder. A pessoa acaba criando uma relação de submissão ou de opressão em relação à outra, seja emocionalmente ou fisicamente. Você gostaria de falar sobre isso?

Marcello Quintanilha – Sim, não só no caso das relações de poder, quando alguém impõe uma determinada situação à outra pessoa, mas, também, uma coisa que me chama muito a atenção que é o fato de que há pessoas que, muito frequentemente, voluntariamente se colocam na posição de oprimidos e voluntariamente aceitam tomar parte na relação e na criação de um mundo que perpetue essa situação de opressão psicológica, física e etc.

Liber PazSim, essa relação de submissão voluntária é algo que se vê na primeira história de Hinário Nacional, a Ave Maria, Cheia de Graça, o Senhor é Convosco, onde a moça conscientemente se submete a uma série de silenciamentos para manter um relacionamento. Mas há histórias, como aquela que dá nome ao livro, Hinário Nacional, em que uma criança, violentada dentro da escola, tem que lidar com as consequências emocionais da violência que recebeu. Você ilustrou essa condição de impotência diante do abuso com a imagem da lagarta e da vespa.

Marcello Quintanilha – Sim, é verdade. Costumo elaborar alguma coisa em relação a um fator que é algo que poderia ser entendido como uma doutrinação para a submissão, que algumas pessoas podem se autoimpor, mas que também pode ser imposta.Seja circunstancialmente, seja pessoalmente, seja pelo que quer que seja, algumas pessoas se encontram em situações pelas quais elas se tornam vítimas voluntárias e, o fato de se tornarem vítimas involuntárias, em muitas circunstâncias, não necessariamente choca com a natureza de algumas pessoas, o que ainda é mais complexo.

Liber PazEssa ideia da pessoa em uma doutrina ou cultura da submissão aparece em Batalha de Flores, a terceira história de Hinário Nacional. Nela, o protagonista Agripino conta de um episódio de infância, quando descobriu que homem não podia sentar em colo de homem. Nesse caso, você acha que Agripino se submete voluntariamente ou simplesmente não tem escolha diante da educação que recebe?

Marcello Quintanilha É difícil falar sobre isso. Nesse caso, tratei, de uma maneira muito específica, algo que pode conduzir a uma violência maior, uma determinada circunstância que pode conduzir alguém a praticar um determinado tipo de violência. Porque essa pessoa, historicamente, já tem a predisposição de  violentar a si mesma, através de se penitenciar pelo fato de não ter feito as escolhas corretas, segundo o que essa pessoa mesmo possa pensar como correto . E não fazer as escolhas corretas, pra muitas pessoas, pode parecer alguma coisa com a qual é muito difícil de se conviver.

Liber PazEsse tipo de pergunta que estamos fazendo aqui é o tipo de discussão que você espera provocar quando elabora histórias como as de Hinário Nacional? Ou não? Qual era sua intenção ao criar essas histórias?

Marcello Quintanilha – É muito difícil, para mim, pensar na repercussão que uma história pode ter. Quando faço uma história, realmente penso primeiro em me comunicar da melhor maneira possível, com o maior número de pessoas possível. É realmente naquilo que penso e creio conseguir me comunicar com as pessoas de uma maneira muito intensa, sempre. A maneira como os trabalhos vêm sendo recebidos demonstra que as histórias têm seguido esse caminho. A repercussão que cada uma pode ter, para mim, é sempre uma surpresa. É muito difícil, para mim, imaginar como elas podem ser recebidas e, em última análise, não existe uma forma de se prever isso. Ninguém tem a possibilidade de prever como uma história vai ser recebida pelo público, então me sinto muito satisfeito meramente em me comunicar.

Pergunta da plateiaComo é o seu processo de criação da HQ?

Marcello Quintanilha – Não existe um processo definido. Cada vez que trabalho em uma história, trabalho de uma maneira diferente. Posso começar escrevendo, efetivamente, uma história, desenhando diretamente uma história sem ter um roteiro pré-determinado, ou simplesmente esboçando linhas e depois dessas linhas me mostrarem que caminho a história deve seguir. O processo é a mais completa anarquia. Não existe nenhuma forma concreta com que comece especificamente a fazer um trabalho determinado.

Liber PazNas histórias de Sábado dos Meus Amores e Almas Públicas, sua arte apresenta uma definição de detalhes e realismo impressionantes. Em Talco de Vidro e Hinário Nacional, há uma síntese das formas. Como foi esse processo de transformação de sua arte? O que você estava buscando com essas mudanças?

Marcello Quintanilha – Bom, pra entender isso como mudanças, a gente teria que entender a cronologia da aplicação como a ordem da produção das histórias. Isso perde o sentido quando coloco na mesa que o desenho de Hinário Nacional e Talco de Vidro decorre de um processo que fui elaborando ao longo de muitos anos, paralelamente às histórias que saíram coloridas. Então, não se trata de um rompimento, mas do desenvolvimento do mesmo tipo de trabalho. Embora as técnicas variem, a base de construção do desenho é essencialmente a mesma. Nas histórias de Sábado dos Meus Amores e Almas Públicas, o hiper-realismo serve para reconstruir, para se reproduzir no panorama do quadrinho brasileiro, uma coisa que considero importantíssima e que, durante anos, foi deixada de lado, que é a iconografia brasileira. Historicamente, a iconografia brasileira nunca foi muito presente nas histórias em quadrinhos produzidas no Brasil. Resgatar esse tipo de estética, resgatar esse tipo de imagem, de iconografia,  era um dos meus principais interesses. Mas também é um interesse grande pra mim conseguir construir imagens com, não menos detalhes, mas com mais sugestão. Porque o grau de complexidade pra se construir esse tipo de imagem é, muitas vezes, muito maior do que no hiper-realismo. Porque você não tem os recursos que o hiper-realismo te dá pra realizar sua ilustração. Você precisa ser o mais preciso possível, você tem que dizer o máximo com o mínimo. Sou muito fascinado por isso, por autores que tenham conseguido introduzir uma gama imensa de recursos a partir de instrumentos técnicos tão limitados, quanto é o uso da retícula. Porque o uso da retícula te condiciona totalmente. Você é completamente submetido ao que as retículas ditam pro desenho. Pra quem não é familiarizado com o tema, as retículas são esses pontinhos mecânicos que se vê nos desenhos de algumas histórias em quadrinhos. Autores como Roy Crane, por exemplo, que fizeram coisas absolutamente maravilhosas com as retículas. Isso sempre me fascinou muito e é um processo de trabalho que estava muito incorporado, desde o começo.

Liber PazTudo em seu trabalho é planejado e tem um objetivo. Nesse sentido da sugestão, do convite ao leitor complementar a imagem, o não desenho dos limites do requadro em Talco de Vidro e Hinário Nacional tem uma intenção estética ou você pretende comunicar algo mais com isso?

Marcello Quintanilha – O requadro se trata de uma linha. Se a gente pensar bem o desenho, a gente vai se dar conta de que o desenho de Hinário Nacional e Talco de Vidro são desenhos onde as linhas são praticamente deixadas de lado, praticamente não há linhas. A única coisa que há são manchas. Linhas são unicamente utilizadas pra se definir a expressão dos personagens e nada além disso. Então, o que acontece é que esses desenhos são traduzidos em manchas e todas as linhas são evaporadas nesse caso.

Liber PazA respeito de desenho, enquanto profissional, praticante e pensador do desenho, como você definiria as qualidades de um bom desenho?

Marcello Quintanilha – Não tenho a menor ideia. Não tenho a menor ideia. Acredito que um bom desenho é o que comunica bem e nada além disso. Especialmente no caso dos quadrinhos, onde saber desenhar nunca foi necessário pra ser um autor de quadrinhos. Ninguém nunca precisou saber desenhar pra fazer quadrinhos. A gente precisaria entrar em alguns critérios técnicos de avaliação de um tipo de desenho, o que um desenho precisa ter pra ser considerado um bom desenho, mas não pretendo entrar nesse tipo de discussão porque não tenho nenhum interesse nisso.

Liber Paz Semana passada vi um vídeo curto no qual você indicava quadrinhos pra leitura. O que me chamou a atenção foi que um dos quadrinhos era a edição de Superman vs Muhammad Ali…

Marcello Quintanilha – Por que te chamou a atenção?

Liber Paz – Por que, no seu trabalho, consigo ver muito dos clássicos dos quadrinhos. Então, quando você cita um Crumb ou um Hugo Pratt, consigo encaixar no perfil Quintanilha. Agora, quando você indicou como leitura uma obra como Superman vs. Muhammad Ali, eu me surpreendi. Aliás, vi esse vídeo poucos dias antes do Muhammad falecer…

Marcello Quintanilha – Na verdade, essa matéria é de 2014.

Liber PazMas o que me chamou a atenção nesse vídeo e seus comentários sobre o Superman vs. Muhammad Ali, é que você elogiou muito a arte do Neal Adams. Você quer comentar a respeito?

Marcello Quintanilha – Sim, aprendi muito com desenhistas como Neal Adams. Aprendi muito sobre expressão, aprendi muito sobre movimento com desenhistas como Neal Adams, John Buscema, Frank Miller. Realmente aprendi muito com esses desenhistas. Sal Buscema. Uma das histórias que mais me marcou, por exemplo, foi uma história do Incrível Hulk, desenhada por Sal Buscema. É uma das minhas histórias fundamentais da minha maneira de pensar o quadrinho. Sei que parece estranho, pra muita gente, que cite autores de quadrinhos de super-heróis quando falo das coisas que mais me marcaram, mas é assim. Não tenho nenhuma inclinação por um tipo de gênero pré-determinado. Tenho interesse pelos quadrinhos como linguagem em si e devo muito a artistas como esses.

Liber Paz Um colega nosso uma vez comentou que estava disposto a descobrir se os quadrinhos poderiam “oferecer o mesmo que um romance”, o romance literário. Novamente, a comparação entre quadrinhos e literatura. Nessa perspectiva, acho válido também questionar se “o romance poderia oferecer o mesmo que uma revista em quadrinhos”. O que você acha, pensando nisso, que caracteriza essas experiências? Quais são os pontos comuns e as diferenças que você percebe?

Marcello Quintanilha – Veja, tenho muito pouca inclinação a esse tipo de discussão, porque qualquer proposta artística pode me mover de uma maneira especial, de uma maneira mais intensa ou menos intensa. Não vejo sentido em se identificar uma correlação qualquer entre a leitura de um romance e a leitura de um quadrinho,  ou entre a leitura de quadrinho e o fato de assistir um filme ou entre o fato de assistir um filme e se ler um romance ou assistir uma peça de teatro. Todas essas experiências, todas essas propostas vão te mover de uma maneira, provavelmente diferente. Então, a discussão em si entre romance e quadrinho é uma coisa que não me motiva muito. Tampouco foi uma motivação em qualquer momento pensar uma correlação de forças entre quadrinho e romance, entre quadrinho e literatura.Não está na minha natureza pensar o que um quadrinho tem e um romance não tem ou o que um romance tem e uma peça de teatro não tem. Não tenho esse tipo de predisposição. Realmente, não é o que me motiva como pessoa e como autor. Interesso-me por produzir quadrinhos de uma maneira que acho efetiva e de uma maneira que acho interessante e com a qual possa me comunicar com as pessoas. A relação dessa experiência de leitura em relação com a experiência em outras artes é algo que me motiva muito pouco como autor.

Liber PazCom Tungstênio, você ganhou um prêmio em Angouleme. Você quer contextualizar o significado desse prêmio?

Marcello Quintanilha – Foi magnífico. É o maior prêmio de quadrinhos da Europa. Pra fazer uma comparação mais ou menos aproximada, poderíamos entender esse festival como o festival de Cannes, na França. Creio que a coisa mais importante de um prêmio como esse é o fato dele potencializar a visibilidade que um determinado trabalho pode ter. O Tungstênio, quando saiu na França, teve uma recepção muito boa e teve muito sucesso, antes do prêmio. Acho que o prêmio potencializou a visibilidade que ele tinha. Acho que esse é o maior benefício que o livro poderia ter.

Liber PazApós esse prêmio, você sentiu uma procura maior da imprensa, uma procura maior do público pelo seu livro? Quais diferenças você sentiu com a premiação?

Marcello Quintanilha – Quanto a visibilidade, sem dúvida. Desde janeiro até o mês passado, praticamente todos os finais de semana, estive fazendo sessões de autógrafos em várias cidades da França. Em cada cidade que eu ia, a recepção era maravilhosa. As pessoas estavam muito motivadas pelo livro. Acho que a grande diferença foi essa. Em relação às outras coisas, é muito cedo pra dimensionar isso.

Liber Paz – Voltando a falar dos temas e das histórias de Hinário Nacional, em Pai Doce, você aborda racismo e humilhação. Em outros momentos, você comentou que notícias de jornais te inspiraram a fazer histórias. A ideia de Tungstênio surgiu ouvindo notícias no rádio. E Pai Doce? De onde veio a ideia?

Marcello QuintanilhaPai Doce veio do meu interesse de trabalhar a questão da forma como as pessoas se relacionam com o mundo. Quer dizer, as máscaras que as pessoas utilizam pra se relacionar com o mundo. A maneira como a pessoa se comporta em um determinado círculo, sendo que em outro determinado círculo, a pessoa se comporta de maneira completamente oposta. O fato de jogar com essas duas coisas , com essa dualidade do comportamento, foi a grande motivação pra essa história. A ideia partiu daí . A história tem um componente muito nostálgico, que acho que é uma característica muito clara no meu trabalho. O fato de algumas pessoas questionarem as escolhas que fizeram ao longo da vida, a forma como elas conduziram sua vida até determinado momento, que é o momento-chave, no caso dessa história, expresso através do acidente de ônibus. Vem daí a ideia. Vem sempre do meu interesse por tratar determinados temas.

Liber PazFaz muito tempo que você está trabalhando nas histórias de Hinário Nacional? Qual é a história mais antiga do álbum? Qual a mais recente?

Marcello Quintanilha – A história mais antiga é Ave Maria, Cheia de Graça.  É de 2005. É uma história anterior a publicação de Sábado dos Meus Amores. Então, por isso pra mim é muito difícil imaginar esse rompimento de processo de trabalho, porque essas histórias estão me acompanhando há muito tempo. As histórias mais recentes são a própria Hinário NacionalEu era o fenômeno da minha classe, foram feitas junto com o livro.

Liber Paz – Eu era o fenômeno da minha classe traz uma personagem circense. Em A fuga de Zé Morcela, o circo aparece novamente. Qual a importância do circo em seu trabalho?

Marcello Quintanilha – Representa muito porque, mais uma vez, é uma forma de resgatar a identidade, um tipo de identidade social, que conheci. Realmente tento retratar um universo que eu conheço, do qual fui muito próximo. Sempre fui muito fascinado pelo mundo do circo e toda a atmosfera que envolve o circo. Não somente o que se vê nos espetáculos, mas o universo que existe por trás da condução de um espetáculo de circo. É uma coisa que sempre me fascinou muito.

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“Nosso repórter balbúrdio em ação”. Fotos de Tami Taketani.

Liber Paz“Gênero” é aquela palavra que significa um conjunto de regrinhas que define uma história como “humor”, “drama”, “terror”, etc. Histórias como De como Djalma Branco perdeu o amigo em dia de jogo e Atualidade flertam bastante com o humor. Você já sentou pra fazer uma história pensando nisso? Em fazer uma história engraçada?

Marcello Quintanilha – Não, nunca pensei nisso. Não parto desse princípio das estruturas de gênero pra criar uma história.

Liber PazMas quando você estava trabalhando nessas duas histórias você sentiu que elas pendiam pro humor?

Marcello Quintanilha – É como falei em outras ocasiões: os personagens ditam a maneira como as histórias devem ser contadas. Realmente acredito na força dos personagens e, à medida que vou escrevendo as histórias, elas vão ganhando uma vida própria. Realmente funciona assim.

Pergunta da plateia Em Tungstênio, uma das características que chama atenção é a sonoridade da fala dos personagens. O texto representa muito bem o sotaque soteropolitano. Como ficou essa sonoridade na tradução para o francês? Como foi o processo de tradução?

Marcello Quintanilha – Acompanhei muito de perto, tive a felicidade de trabalhar muito próximo das tradutoras. Escolhi as tradutoras. Quando ocorre uma tradução nesse caso, na verdade não ocorre uma tradução. Ocorre uma reescritura da história. A gente tem que reescrever a história. A versão espanhola dos álbuns é feita por mim mesmo, mas sinto muita satisfação com a versão francesa, com a forma como foi feita. Acho que ela foi reescrita de uma maneira muito interessante. Estou muito satisfeito. Não tenho maiores dados sobre a tradução em polonês, mas conheço o tradutor. Parece ser uma boa pessoa.

Pergunta da plateiaVocê se sente mais confortável em falar nas suas histórias sobre as décadas de 1950 e 1960 do que sobre os dias atuais? E qual é a sua relação com Salvador? Você tem uma relação próxima com a cidade?

Marcello Quintanilha – Os anos 1950 foram muito emblemáticos pra mim. Tenho uma inclinação pessoal muito acentuada pra esse período. Acho uma época muito romântica. Foi a época em que a região que nasci era mais exuberante economicamente. Então, vivi muito da esteira do que sobrou dessa época na infância, na adolescência, crescendo naquela realidade. Acho que por isso tenho essa inclinação tão forte pra essa época. Sim,  sinto-me muito confortável tratando dessa época, mas também me sinto muito confortável tratando de temas atuais. Porque, em última análise, as duas coisas são muito próximas para mim. A segunda pergunta era sobre Salvador, não é? Salvador é uma cidade, já falei em outras ocasiões, é uma cidade que sempre esteve no meu imaginário, pela literatura, pela música, pelo que quer que seja. Sempre foi uma cidade muito importante pra mim, pelo fato de ter sido a primeira capital do Brasil, pelo fato de, até hoje, ser muito visível na cidade todo esse conjunto de fatores amalgamados que formaram a sociedade brasileira que conhecemos hoje. Conheci Salvador durante duas semanas. Visitei a cidade para fazer um livro para uma série chamada Cidades Ilustradas. A editora (Casa 21) me mandou pra lá, onde pude conhecer pessoas, entrevistá-las, juntar uma quantidade de material que considerasse interessante para fazer o livro. O fato de estar na cidade, de conhecer a cidade da forma como eu conheci, de poder caminhar pela cidade, caminhar por aquelas ruas, foi como me encontrar comigo mesmo. Então, é uma cidade onde me sinto muito confortável também. Depois desse livro, o universo de Salvador voltou ao conjunto de temas de uma maneira muito intensa também. Várias outras histórias se passaram em Salvador, como é o caso de Tungstênio, das histórias que estão em Almas Públicas e Sábado dos meus Amores. Então, sim, a importância dessa cidade é fundamental pra mim.

Pergunta da plateiaOs seus livros possuem muita brasilidade, muita iconografia brasileira. Os editores da Espanha não pedem pra você fazer histórias por lá também?

Marcello Quintanilha – Até hoje não aconteceu.

Pergunta da plateia – Parece que, mesmo morando na Espanha, você continua ligado com o Brasil.

Marcello Quintanilha – É sim, é verdade. Mas o fato de escrever sobre o Brasil estando fora do Brasil não representa um dado especialmente significativo pra mim, porque eu realmente não me sinto longe do Brasil.

Pergunta da plateia Esse distanciamento não torna até melhor escrever sobre o Brasil?

Marcello Quintanilha – Esse tema é sempre trazido à baila, mas não acredito nisso. Porque a relação que eu tenho com o Brasil não é uma relação com o Brasil, é uma relação que tenho comigo. Todas as histórias partem do que sou como pessoa e o que sou como pessoa inevitavelmente está ligado com o que eu conheci no Brasil. Então, não retrato um Brasil que esteja vendo, algo diante de mim, algo presenciado porque isso inevitavelmente implica uma distância entre quem observa e aquilo que é observado e nunca trabalho a partir da distância. Nunca. Então, acho que, por isso, as histórias são tão pertinentes no que diz respeito à vida brasileira. Porque elas representam um conjunto de coisas que me formou como ser humano. É simples assim.

Pergunta da plateia O que te motivou a morar fora do país? E não consegui entender a relação do nome Talco de Vidro com a história…

Marcello Quintanilha – Nem eu (risos). Então, primeira pergunta: eu me sinto muito à vontade vivendo em Barcelona. É uma cidade que eu já conhecia. Em um determinado período,comecei a trabalhar para uma editora belga chamada Le Lombard, situada em Bruxelas. Meus dois roteiristas, na época, viviam em Barcelona e é uma cidade que eu já conhecia, sentia-me bem à vontade circulando pela cidade e tudo, então, eu e minha esposa decidimos passar um tempo na cidade. E ver o que acontecia. Mas, evidentemente, nenhum de nós dois poderia imaginar que o tempo passaria tão rápido. Não havia um planejamento de viver eternamente nessa cidade. As coisas simplesmente aconteceram assim. No caso de Talco de vidro, muitas pessoas dizem a mesma coisa que você: não consegui entender exatamente o que quer dizer esse título. Mas, à medida que elas começam a racionalizar sobre isso, elas são praticamente induzidas a chegar à conclusão que, acredito eu, elas deveriam chegar: o fato de você imaginar que uma substância como o talco, aparentemente inofensiva, deixaria de ser tão inofensiva se fosse fabricada com vidro, por exemplo. E essa substância especial, uma vez respirada, poderia trazer danos muito acentuados pro corpo humano.

Pergunta da plateiaEm seu primeiro livro, Fealdade de Fabiano Gorila, você assinava com outro nome, Marcello Gaú. Por que você mudou?

Marcello Quintanilha – Mudou porque, quando eu fazia esse livro, eu imagina que os quadrinhos seriam uma coisa que eu faria paralelamente a uma atividade jurídica, por exemplo. Eu não imaginava que os quadrinhos fossem tomar a dimensão que tomaram em minha vida. A partir do momento em que eu fui publicando mais e mais histórias, mais e mais pessoas foram se interessando pelo trabalho, até o ponto de eu passar a viver exclusivamente de quadrinhos. Assinar com o pseudônimo deixou de ter sentido pra mim.

Liber PazHoje, dentro da produção independente de quadrinhos brasileiros, muitos autores produzem histórias que são muito similares às que são feitas dentro do mainstream, tanto em qualidade gráfica quanto aos temas e tramas.  Criam personagens em séries contínuas, visando o comércio e a produção em série. Você, enquanto autor profissional, que sempre trabalhou com editoras, trabalhou com temas e explorou características da produção e linguagem dos quadrinhos que saem do padrão, sendo muitas vezes mais “alternativo” do que muitos artistas independentes. Eu gostaria de saber o que você pensa sobre isso. Existe uma fronteira entre o profissional e o alternativo, o independente?

Marcello Quintanilha – Eu acho que a gente precisa estabelecer alguns conceitos. Eu nunca parti do princípio de que o profissionalismo seja um paradigma necessariamente positivo. Eu não vejo o profissionalismo como um valor em si. Eu não me identifico com a palavra profissional. Eu não tenho nenhum problema com a palavra artista. Eu realmente não tenho nenhum problema. Eu não vejo sentido no fato de  você imaginar que, se você se refere a si mesmo como profissional, você se coloca num patamar menos ambicioso, menos pretensioso, do que se você se considera um artista. Porque isso seria legitimar um conceito errado que eu acho que existe em torno da palavra artista. Seria legitimar um conceito no qual você imagina que o artista é alguém que se considera acima das outras pessoas. Algum tipo de Yoko Ono que vive numa redoma diferente das outras pessoas. E eu não acredito que a palavra artista signifique isso. Outra coisa é o fato de você pensar a forma de colocar o seu trabalho pras pessoas sendo pautado pelos paradigmas do mercado. Então, se você se pauta pelo mercado, é independente se você faz o seu trabalho de maneira independente ou se você trabalha pra uma grande editora ou pra uma pequena editora, porque os paradigmas vão ser os mesmos. Acho que a grande diferença é quando você deixa de trabalhar a partir dessa pauta, desses paradigmas ditados pelo mercado. Eu não sei se é essencialmente positivo deixar de lado esses paradigmas, porque eu só posso falar pela minha experiência. Eu me comunico realmente da maneira que eu acho mais efetiva com as pessoas. Realmente busco isso, eu realmente procuro isso e eu realmente não considero o que esteja acontecendo no mercado. O mercado nunca foi uma referência pra mim. Nunca foi. Isso pode ter implicações positivas e negativas, porque durante muito tempo muitas pessoas imaginaram que o meu trabalho seria impossível de ser apresentado para as pessoas. Isso aconteceu durante muito tempo no Brasil e aconteceu durante muito tempo na Europa. Muitas pessoas imaginavam que trabalhos como Sábado dos meus Amores ou histórias desse gênero, pelo fato de terem uma difícil classificação, sequer poderiam ser expostas nas prateleiras. Mas isso nunca me impressionou muito, nunca acreditei nisso.

Liber PazEssa questão do profissional implica em uma meta de produção, uma quantidade de páginas produzidas por mês ou por ano. Esse é um dos paradigmas que você questiona?

Marcello Quintanilha – Não, eu não questiono isso, porque isso se refere à produção individual de cada artista. Cada pessoa vai se relacionar com isso da maneira que considere mais produtiva. Eu só posso me relacionar com isso da maneira que eu considero mais produtiva pra mim. Eu não me sinto confortável questionando a maneira como as pessoas procedem pra fazer seus trabalhos, porque cada um realmente vai atuar da melhor maneira possível. Outro fato são os sucessivos questionamentos sobre se você vive de seu trabalho e etc.

Liber PazÉ uma das perguntas que mais se faz: você está vivendo de quadrinhos?  Os quadrinhos estão te mantendo financeiramente?

Marcello Quintanilha – É a primeira vez que me fazem essa pergunta. Nunca tinha me ocorrido. Veja, é uma questão interessante pensar que, sim, é possível viver de quadrinhos, mas é possível viver de absolutamente qualquer coisa, no meu ponto de vista. Então, poder viver de quadrinhos não diz nada sobre a linguagem dos quadrinhos, não diz nada sobre o que quer que seja. Diz, sim, e efetivamente é o que existe por trás dessa pergunta, que é um questionamento sobre a legitimação do quadrinho como linguagem. Eu gosto sempre de dar o exemplo da literatura, nesse caso, porque a literatura brasileira, por exemplo, não se fez, não se construiu a partir de um mercado literário, não se construiu a partir de adiantamentos de direitos autorais pra que Machado de Assis ou escritores como Lima Barreto pudessem escrever as obras que escreveram. Porque a literatura brasileira toda se fez no funcionalismo público ou no jornalismo. Ela se fez a partir de pessoas que conseguiram equacionar suas vidas de maneira que pudessem trabalhar e sustentar a sua inclinação,  a  sua motivação natural por escrever. Isso não diminuiu a legitimidade da literatura e não vejo porque deveria diminuir a legitimidade do quadrinho se você não vive efetivamente do seu trabalho. É uma questão que sequer faz sentido pra mim. Que você seja obrigado a responder uma e outra vez se você vive, se você não vive, etc e tal. Eu não tenho interesse em saber como as pessoas pagam as contas delas. Não me diz respeito isso. De maneira que eu vejo muito mais interessante a discussão a respeito das motivações pessoais do que das contas pessoais.

Liber PazNo Brasil, há uma discussão sobre se existe ou não um mercado de quadrinhos. Há quem diga que sim, há quem diga que não. Apesar de ser senso comum que a dedicação exclusiva à produção de quadrinhos dentro do mercado brasileiro dificilmente garanta um sustento financeiro, cada vez mais aumenta o número de pessoas que fazem seus quadrinhos. Falamos aqui de outras abordagens de quadrinhos, desvinculadas de paradigmas comerciais. Você acha que poderíamos pensar em alternativas para o cenário dos quadrinhos brasileiros que não envolvessem a ideia de mercado?

Marcello QuintanilhaNão sei. É difícil você discutir sobre isso se você imagina que o mercado é algo que sustenta todas as outras vertentes também. Ou seja, algo só é alternativo porque é alternativo em relação a alguma coisa, no caso é alternativo ao mercado ou ao mainstream. Acho que no Brasil existe uma ebulição, uma efervescência, que não sei se se traduz, necessariamente, em um aumento de público, que é o fator fundamental pra existência de um mercado. Mas poderia ser interessante a gente pensar nos moldes, se é que a gente vai considerar a existência de moldes e que pensar em termos de moldes pode ser uma coisa especialmente positiva no sentido de saber como chegar ao público, de que maneira chegar ao público, de que maneira fazer com que as pessoas se interessem pelo trabalho. Gosto de pensar que isso está em plena formação no Brasil. Sobre a questão do mercado, sobre a consolidação desse mercado, como falei em outras ocasiões, acho que a gente vai ter que esperar alguns anos. A gente vai ter que ser capaz de manter os fatores atuais durante alguns anos mais pra ser capaz de perceber se esse mercado pode ser considerado uma coisa efetivamente consolidada. Por enquanto não existem dados, não existem subsídios pra saber isso. Não temos sequer números que reflitam ou definam o aumento de público em determinado momento. Não sei se temos estudos sobre isso. Temos aumento de publicações, mas não sei se temos um levantamento sobre o aumento do interesse do público. Tampouco poderíamos considerar isso como um dado definitivo porque eu vivi muitos momentos no Brasil em que o mercado parecia muito sólido. Tudo isso sofreu um refluxo grande também. Então, eu sempre tenho um cuidado quando eu falo sobre isso. Eu sempre prefiro esperar pra poder dizer alguma coisa mais concreta sobre isso.

Liber PazE o seu público, Quintanilha? Quem são as pessoas que leem você?

Marcello Quintanilha – À medida que os livros vão sendo publicados, parece que mais e mais pessoas vão se interessando pelo meu trabalho, o que é maravilhoso. Eu encontro pessoas que se interessam pelo meu trabalho e esses momentos são sempre muito importantes pra mim porque eu realmente dou muito valor de poder encontrar as pessoas que se interessam pelo meu trabalho. Acho que são, em grande medida, as mesmas pessoas que me acompanham desde o começo. Acho que tenho um público que imagino fiel nesse aspecto. Gosto de pensar que não falo pra nenhum tipo de público específico. Gosto de pensar que posso me comunicar com absolutamente qualquer pessoa. Não quero pensar que meu público seja alguém que tenha maior ou menor predisposição a um tipo de vivência literária de alguma maneira. Que tenha uma maior ou menor predisposição a se interessar por um determinado tipo de trabalho. Realmente tenho ambição de me comunicar com absolutamente qualquer pessoa. Espero que isso aconteça.

Liber Paz Na sua opinião, com sua experiência de quadrinhos no Brasil e na Europa, como uma crítica de quadrinhos deveria proceder?

Marcello Quintanilha – Sou a pessoa ideal pra se fazer essa pergunta (risos). Não sei como os críticos tem que agir realmente. Veja, a crítica brasileira, noto ela ser marcada por um voluntarismo, no sentido de, mais do que se criar um pensamento crítico sobre o quadrinho, criar um fomento pelo interesse do quadrinho. Na verdade, a crítica trabalha num sentido de promover o quadrinho como uma forma de arte legitimada e etc. e tal. Existe um voluntarismo da crítica nesse sentido. Acho que isso causa distorções nos critérios críticos porque muitas coisas passam a receber uma  atenção muito acima daquilo que eu considero que mereciam. Mas entendo que esse voluntarismo conduza a isso, porque é natural que isso ocorra em circunstâncias que o mercado seja muito fragilizado. A contrapartida disso é que se consegue muitas vezes o efeito contrário do pretendido. Porque parto do princípio de que as pessoas não são manipuláveis a esse ponto. Não é porque alguém disse que algo é bom e interessante que as pessoas precisam realmente acreditar nisso. As pessoas têm os seus próprios critérios de julgamento. Então, você cria uma situação na qual as pessoas ficam muito mais perdidas, quando a elas é dito que determinado material é bom e é interessante e é legítimo, quando elas são capazes de perceber exatamente o contrário. Mas entendo a complexidade que existe em torno do pensamento crítico. Sou capaz de entender que isso existe. A gente teria que pensar como se distanciar dessa maneira de pensar a crítica, como a gente poderia formar um pensamento crítico mais aprofundado sobre o quadriho, como ocorre com o cinema  ou com a literatura. Embora a crítica seja uma coisa muito discutida hoje em dia, historicamente a crítica sempre teve um papel mais preponderante nas outras propostas artísticas do que teve no quadrinho.

Pergunta da plateiaQual é a visão que os europeus têm dos quadrinhos brasileiros?

Marcello Quintanilha – Não existe uma visão concreta. Ultimamente têm sido publicados quadrinhos brasileiros na França e outros países, mas não de maneira suficiente pra que se consiga formalizar um pensamento concreto sobre o quadrinho brasileiro nesses países.

Pergunta da plateiaE você teria algum parecer sobre o que você consideraria  algo mais típico dos quadrinhos no Brasil?

Marcello Quintanilha – Sim, teria. O trabalho de André Toral, de Flávio Colin. Estranhamente, são autores praticamente negligenciados no entendimento do quadrinho brasileiro. Eu nunca soube por quê. Mas foram autores capazes de formalizar uma identidade visual a partir de uma iconografia eminentemente brasileira. Elmano Silva também fez parte desse processo. E são autores sobre os quais se diz muito pouco, quase nada. Eu não consigo saber por quê. Mas sim, identifico com essas pessoas, por exemplo.

Pergunta da plateiaEm relação à sua composição, narrativa e construção de imagens, tem algum cânone que você segue? Você tem um norte, uma orientação ou segue a intuição?

Marcello Quintanilha – Discordo da ideia que minha obra fuja completamente desses cânones. Todos eles estão eminentemente incorporados ao meu trabalho. Fui influenciado por todo o tipo de autor. Autores americanos, autores de super-herói, autores franco-belgas, autores japoneses. Influenciado por todo o tipo de autor. Não existe propriamente um cânone gráfico ou estético que busque seguir a não ser o da recuperação de uma iconografia que, pra mim, seja interessante. É efetivamente o que me interessa. Mas não me sinto tão distante dos autores, tampouco imagino que tenha feito algo que em algum momento já não tenha sido feito nos quadrinhos na minha maneira de escrever ou na minha maneira de narrar. Especialmente no que diz respeito à codificação dos quadrinhos. Essa codificação parece que é muito pouco explorada no que diz respeito aos critérios comerciais, aos critérios mercadológicos. Muitas vezes isso impede que você explore ou lide ou trate com a codificação do quadrinho de uma maneira mais profunda, mas não existe uma novidade. Nada do que eu faço é interessante por ser especialmente inovador. Nem acho que inovação seja um fator necessariamente positivo, em muitas circunstâncias. Porque eu sempre gosto de me referir à codificação do quadrinho, como nós entendemos o quadrinho hoje. Sempre gosto de imaginar que, no final do século XIX, o quadrinho já estava completamente codificado e o que realmente me interessa é lidar com essa codificação. Todos os elementos que compõe o quadrinho. Muitos autores que lidaram com essa codificação, ao longo do tempo, me influenciaram muito. Acho que eu fui capaz de incorporar muitas coisas e traduzir isso de uma maneira pessoal. É só o que fiz.