Essa coletânea de seis contos de histórias em quadrinhos de Adrian Tomine mostra um dos pontos mais altos no trabalho do autor. Killing and Dying (Drawn & Quarterly, 2015) saiu este ano no Brasil com o título Intrusos (Nemo, 2019, tradução de Érico Assis).
É de se perguntar porque Adrian Tomine levou tanto tempo para ser publicado por aqui. Um traço leve e fácil de agradar, relações com o universo pop e musical, histórias bem contadas; esse pode ser um resumo bem tosco do trabalho dele – tosco, mas não deixa de sintetizar elementos importantes.
Ao mesmo tempo que Tomine não é um autor essencial, passa longe de ser desprezível. E a se levar em conta a quantidade de materiais traduzidos que têm chegado ao mercado brasileiro, acho que ele merecia ter aparecido antes em português brasileiro – vale a lembrança que na coletânea Comic Book: O Novo Quadrinho Norte-Americano (Conrad, 1999, tradução de Cris Siqueira) tinha uma história dele.
Mas a estreia do autor no Brasil via essa obra recente não deixa de ser uma boa. Killing and Dying traz 6 contos em quadrinhos muito potentes, que entregam além de tramas interessantes envelopadas na bela arte de Tomine, temas importantes para entender a trajetória de autoria do quadrinista.
(NESTE LINK há algumas páginas da versão nacional da obra)
O primeiro conto, “A Brief History Of The Art Form Knows As Hortisculpture”, ao mesmo tempo que trata de obsessão, vaidade e delírio, também traz uma discussão sobre arte muito mais interessante e em menos páginas, por exemplo, que a pieguice romântica de O Escultor, de Scott McCloud (Marsupial, 2015, tradução de Érico Assis); a trama dá conta de um homem que acredita ter criado uma nova forma de arte.
O segundo conto é absolutamente contemporâneo e trata da inevitável exposição via redes sociais a que estamos obrigados; em “Amber Sweet”, graças a semelhança física, uma garota é confundida com uma atriz pornográfica. De novo, em poucas páginas, Tomine coloca questões sobre privacidade, moralismo e machismo pra se baterem e entrega uma bela história.
A terceira história, “Go Owls” se passa num cenário de fãs de baseball, e é meio que uma comédia romântica do relacionamento abusivo, mas sem baratear de forma alguma o problema. A resolução da história tem toda a manha da comédia; seria de rir, se não fosse trágico.
Em seguida, vem “Translated, From Japonese,” conto muito bonito, em que o texto é valioso, com ilustrações que potencializam o sentido das palavras. Percebam que o título é a frase inicial da sentença que vai se desenvolver como história ilustrada.
A penúltima parte é a que nomeia o livro em inglês, “Killing and Dying”trata de forma muito sutil e delicada da presença da morte e de amuderecimento, tendo por fundo aulas de stand up comedy. Para alguns resenhistas da gringa, uma das melhores histórias do Tomine na carreira.
Mas a última, “Intruders”, é minha favorita (foi ela a opção de título da edição brasileira – para saber mais disso, vai ali no Vitralizado). Essa história tem a estranheza da primeira, as dificuldades de relação dos demais contos do livro e também é aquela em que o estilo de arte mais muda.
Esse desenho um pouco mais inexato e impreciso que das páginas anteriores dialoga com as ações dessa história muito estreitamente. Esquisitinha, bruta e bem feita.
Sem dúvida, um dos meus álbuns favoritos deste ano.