É praticamente obrigatório que todo turista em visita à Buenos Aires tire uma foto com a estátua da Mafalda, que fica ali no bairro de San Telmo – e eu não tinha intenção alguma de que comigo fosse diferente. Mas minha surpresa começou na descoberta de que não é apenas a Mafalda que está ali: ela está acompanhada de seus amigos Manolito e Susanita! Alguém consegue entender o por que da exclusão dos coleguinhas? Por que ninguém quer o aprendiz de capitalista e a burguesinha nas suas fotos e lembranças?! Um absurdo.

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Fachada do museu em foto aleatória porque as minhas, ehr, ficaram sem foco

Mas a maior surpresa foi descobrir que a estátua, na verdade, é parte de um rolê bem maior e mais bacana: ela marca o início do Paseo de la Historieta. Em resumo, um percurso no qual estão colocadas várias outras estátuas de personagens argentinos de quadrinhos, fazendo um apanhado da história da produção local. E o passeio termina no Museo del Humor; lá, a história do cartum e da HQ argentina é perpassada desde o século XIX até a atualidade.

Por motivos de logística, acabamos fazendo o passeio ao contrário e começando pelo museu, que fica ali na Avenida de los Italianos, no bairro hype de Puerto Madero. Mas apesar de ser localizado em um casarão histórico, que na década de 1920 abrigava a Cervecería Munich (ponto de encontro de figurões e personalidades da época), o local é relativamente ermo e, aparentemente, pouco visitado. Uma pena, já que suas paredes abrigam um importante recorte da história da capital argentina – e não só para aqueles que se interessam por quadrinhos e artes gráficas.

Um bom exemplo é uma das exposições temporárias que rolava no momento de minha  visita: o da chegada ao poder do primeiro presidente eleito do país, Hipólito Yrigoyen, sob o olhar da florescente caricatura política argentina – o que me levou a pensar sobre como sabemos pouco sobre a história de nossos vizinhos sul e latino-americanos. Grande parte das obras expostas foi publicada na revista Caras y Caretas, que durante várias décadas foi a mais importante do gênero.

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Parte do acervo da exposição sobre o cartum político e o presidente Yrigoyen

Dividindo o andar, a outra exposição temporária apresentava a obra do cartunista Garaycochea:

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Sacando uns originais do Garaycochea

Já o subsolo apresenta a exposição permanente “História do Humor Gráfico na Argentina – de 1860 à atualidade”. Além de vários originais de diversos artistas, a mostra também conta com vários exemplares de diversas revistas publicadas durante todo o período coberto pela exposição.

Como disse um pouco antes, a localização não ajuda o museu por não se fazer visível aos visitantes eventuais. Nas mais de duas horas em que estivemos por lá, fomos as únicas visitantes. Ao nos despedirmos, elogiei o espaço à encarregada, dizendo que esperava que ele se mantivesse por um longo tempo, e recebi um meio-sorriso ligeiramente entristecido e um “Eu também” como resposta. Então, caso pretenda ir a Buenos Aires em breve, ou conheça alguém que vá, dê essa força e fale sobre a existência do Museo del Humor! Ele certamente vale esse pequeno desvio das rotas turísticas mais badaladas pra se conhecer mais dessa história riquíssima.

Daí lá pegamos um mapinha e fomos fazer o Paseo de la Historieta (ao contrário) – e fica um aviso: a estátua do Eternauta acabou de ser adicionada ao roteiro. Ela ainda não consta nos mapas distribuídos no Museo (ao menos não quando estivemos lá); eu não me liguei de perguntar e ninguém se ligou de me avisar, então saibam que ela fica em frente ao museu, do outro lado da rua. Eu não a vi (um terço de leseira, outro de miopia e mais outro de pressa), fui-me embora esperando que ela estivesse encaixada em algum lugar do percurso e fuén, perdi. Dei falta dela e, quando fui conferir a localização, era isso – e estava deixando a cidade no dia seguinte. Fica pra próxima.

Mas o Paseo é lindo. As estátuas são todas em “tamanho real” e contam com plaquetinhas informativas de cada personagem. Ao longo do caminho, também existem algumas intervenções, como painéis pintados nos muros próximos. Com vários dos personagens me sendo desconhecidos, o passeio ainda se tornou uma aula com uma boa cota de dever de casa (tipo ler o livro do Paulo Ramos).

Fica a tarefinha pra você também: lembre que nem só de Mafalda vive a HQ argentina! Faça o Paseo de la Historieta completo, termine (ou comece) pelo Museo del Humor e conheça mais da história dos hermanos e da nona arte.