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Paolo-Pinocchio-Zarabatana

Paolo Pinocchio é um merda. E aposto que você conhece bem o tipo de merda que ele é. Não quer saber de amigos, caga em cima de qualquer tipo de empatia e se relaciona com as pessoas porque pode ser vantajoso. Paolo Pinocchio faz networking para proveito próprio. Pra ele, não existem amigos, só ferramentas. Objetificar mulheres é uma prática comum, mesmo que não seja limitada ao gênero feminino, tampouco a idade. Mentir é uma compulsão, e não existe circunstância que configure uma exceção. Ele vai te passar pra trás por uma bala de morango, se precisar. Aliás, esquece o “se precisar”. Ele vai te passar pra trás e pronto. É a índole dele, tá no sangue de nanquim que corre nas veias imaginárias por trás das camadas de tinta.

Geralmente, acompanhar as sacanagens de um merda chega a dar ânsia. De novo, tenho certeza de que você sabe como é, você conhece, provavelmente, mais de um merda. Estão por toda parte, às vezes é um cara por quem você levaria um tiro, só pra mais tarde descobrir que ele é um merda. Porém, a gente toma conforto no fato de que Paolo tem um diferencial sobre os merdas que andam por aí: ele é ficcional. Assim como inúmeros vilões exagerados do cinema, da literatura ou dos quadrinhos que surrupiam o nosso carisma. Bom, talvez não tanto. Mas menos mal. Quanto mais longe da realidade, quanto mais colorido e caricato, menos revoltante se tornam as perversidades.

Mas Paolo Pinocchio não tem culpa de ser como é (diferente dos merdas da vida real. Comecem a se comportar como seres decentes, seus merdas). Ele foi concebido como um canalha e não pode fazer nada a respeito. Ele foi concebido dessa forma para que fosse o protagonista de histórias de humor politicamente incorretas. Sim, dá pra rir das cagadas do Paolo. Ainda bem, porque a intenção do Lucas Varela é exatamente essa, fazer um quadrinho de humor com um merda de protagonista (não um protagonista de merda, note a diferença). O politicamente incorreto, o cinismo, a cara de pau e o hedonismo não são só as características do narigudo, são as ferramentas que Varela usa pra tacar o terror. Isso não é nenhuma novidade, eu sei, mas não precisa ser, né? Tenho certeza de que você já viu esses traços em outros personagens de humor, muito mais ácidos, aliás, mas o autor tem êxito em colocar Pinocchio nesse hall de depravados engraçados.

A rotina do Pinocchio é viver, fazer alguma merda (tipo transar com a filha de algum juiz), morrer, ir para o averno (onde, inclusive, versões de Dante e Virgílio, da Divina Comédia, passeiam pelos círculos do inferno para aprender algumas peculiaridades irônicas sobre a dor) e tentar fugir de lá via qualquer meio necessário. E não é só a literatura italiana que é subvertida pelo cérebro maluquinho do Varela. Mitologia nórdica e contos clássicos como a Chapeuzinho Vermelho e o Flautista de Hamelin também não são perdoados. Essas referências (e mais outras) são responsáveis por boa parte da diversão na leitura desse gibi (tirar sarro de clássicos é um clássico).

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Mas digamos que esse tipo de humor não seja a sua beach. Bom, não tema! Ainda assim o álbum compensa pela arte lindíssima do Varela. Até porque a arte, aliás, é a dona do destaque do livro, na minha humilde opinião. Desde a expressão apática do personagem, que carrega toda sua falta de humanidade, o que ajuda a sublinhar o cinismo do boneco e, com isso, dá uma carga extra de humor, até os desenhos límpidos, claros, cheios de cores brandas, deveras agradáveis ao olhar, que contrastam com a personalidade hedionda do boneco e os horrores do inferno. As páginas, na maioria, carregam um tom monocromático, com contrastes leves, uma antítese do impacto que o roteiro oferece aos sentidos. “Mas se a arte é a melhor parte, por que você dedicou só um parágrafo pra falar disso?”, perguntará o leitor atento. Bom, a arte você vai sacar de cara. A demência, não. Eu preferi te avisar. Porque eu te quero bem.

A edição, publicado em 2013 pela Zarabatana, é muito bonitona (grandona), com uma galeria de arte belíssima nas últimas páginas, uma capa e quarta capa com uso exemplar de verniz localizado, e faz parte do quarto volume da Coleção Fierro, na qual a editora traz trabalhos argentinos ao público brasileiro, como Salvador Sanz (Legião, Nocturno) e Ignacio Minaverry (Dora). Acho até que o livro tá com um desconto maneirão no site dá editora.

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Paolo Pinocchio pode ofender algumas pessoas, sim. Pelo menos em algumas partes (e é isso que ele quer). Mas é preciso notar que em momento algum o autor vangloria o personagem ou o trata com alguém de boa índole, nem chega a justificar seus atos, muito pelo contrário. Ao abrir o livro, saiba que você vai ver as peripécias de um merda. E, no mundo do irreal, isso pode ser bem engraçado.

Obs: O Lucas Varela vem pra Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Se você não tiver o gibi, aconselho a correr atrás pra conferir o trampo loucasso desse argentino malucão.