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Rafael Sica

Tenho uma pergunta de bolso, que carrego comigo por aí. Quando tô numa fila, numa sala de espera, numa viagem, subo ela pra cabeça e fico lá, mastigando mentalmente. São essas perguntas incuráveis as que mais gosto e, pra falar a verdade, ando com o bolso empanturrado delas. Mas essa pergunta que me ataca agora acho que pode ser cultivada tipo texto aqui no Balbúrdia.

“Quadrinhos Abstratos?”

É, é uma pergunta enxuta. Tanto, que sem aquele ganchinho ali no final ela ia desparecer pergunta. Mas já que tá lá, ele é uma marquinha significativa: uma linha vertical entortada e um ponto (agarra isso na mente: ponto e linha); nem som a interrogação tem (na real, ela condiciona o tom da frase que vem antes – tom sonoro mesmo).

À pergunta: sobre a existência disso que se chama quadrinhos abstratos, podemos lidar com fatos. Tem uma coletânea com título Abstract Comics (com chamada pra sua segunda edição feita no final de 2015), tem muita gente que usa o termo pra falar de trabalhos como os do Pedro Franz, Paulo Crumbim, Lucas Gehre, Andrés Sandoval, Rafael Sica, entre outros (escolho esses autores não por serem brasileiros, mas por familiaridade com as obras – porém, aceito indicações).

Em nome da honestidade e de uma boa condução do pacto autor-leitor do texto, confesso que não proponho aqui uma pergunta para fingir que não sei a resposta até chegar ao final revelador; eu realmente não tenho ideia do que encontrarei nessa investigação textual (nem se é que encontrarei algo). Não sei quais respostas vou ter para “Quadrinhos Abstratos?”.

Penso logo que escrevo e reescrevo (obviamente dando uma garibada no texto antes de jogar isso aqui). Por isso, vou me bater de um conceito no outro até entender sua consistência e não. Fica de buenas, porque devo me contradizer, sim.

Pretendo investir alguns textos no tema. Este primeiro vai saindo em seu primeiro rascunho no voo Salvador-São Paulo. Da 26C vejo a maior parte das pessoas olhando pelas janelas na decolagem. De um lado, formas aquadradadas que de perto são casas e vidas de cidade; do outro, azuis em camadas do mar baiano.

Broadway Boogie Woogie, de Piet Mondrian

Azul, verde e marron, de Mark Rothko

Vejo nisto sintomas da tal abstração que vai me perguntando pela cabeça. Mas preciso esticar o pescoço pras teorias e encontrar amparo por ali. Quando eu começo a me desviar, a pergunta me volta monolítica, como uma culpa que não queremos assumir : “Quadrinhos Abstratos?”.

Aceito e puxo as abas da questão, que surge aqui, no papel dessas notas transformada em “Existem quadrinhos abstratos?”. Lá atrás falei que o termo é algo usado e tem até coletânea, mas tem uma resposta ainda mais fácil: se tem um autor que diga que seu trabalho é quadrinho abstrato, então tem. Fim da coluna?

Nah, origami com a dúvida e ela vira “É possível um quadrinho abstrato?”. Aqui, a voz do autor sobre seu próprio trabalho é relativizada em nome de outro olhar que não se sobrepõe, mas que reflete. A versão longa da pergunta é “Esses quadrinhos que seus autores dizem abstratos, podem ser considerados DE FATO uma abstração?”.

Se propusermos que a palavra do autor é o que conta, daí fechou-valeu: são abstratos e bora caçar Pokémon. Mas se pensarmos de um jeito mais teoria da recepção, em que o texto é potência e só se ativa quando o leitor faz a parte dele (ou seja, lê), teremos que pensar mais um pouquinho na questão.

E eu quero pensar mais um pouquinho.

Vou propor começarmos de leve com isso de conceituar o abstrato. Lá mais adiante vejo e revejo, complico e descomplico os conceitos conforme eu achar que vai ser melhor pra todo mundo. Na gramática, abstrato se opõe a concreto e eles só funcionam como par de contrários.

Relembrando: substantivo concreto é caneta (que usei pra escrever o rascunho deste texto); substantivo abstrato é amor (que tenho pelo leitor que ainda está comigo). Mas a ideia de quadrinho concreto/abstrato não me parece produtiva (evitei piadas com Paul Chadwick). Como estabelecer esse par em uma narrativa sequencial? Não acho aqui um bom caminho, vamos pra próxima.

Ela vem das artes visuais e também funciona em par de oposição: o figurativo e o não figurativo (abstrato). Segura citação agora:

Ao descrever […] obras como abstratas estamos subentendendo que, seja qual for sua aparência, aquilo com que elas se parecem não deve ser explicado por referência a um tema representado.”. E mais esta: “De fato, embora no uso corriqueiro nos refiramos a obras como ‘abstratas’ na ausência de qualquer semelhança evidente com o mundo, pode acontecer de uma obra ser vista como abstrata não tanto porque não se pareça com nada, mas porque seu tema ou motivo é difícil de identificar.

As aspas são de Charles Harrison, do texto “Abstração, figuração e representação”, página 185 (capítulo 3 do livro Primitivismo, Cubismo, Abstração: Começo do século XX – Cosac Naify, 1998).

Numa paráfrase aqui, posso dizer que no figurativo os pontos e linhas e cores confluem para criação de formas algo reconhecíveis do mundo ao redor de seu leitor; na abstração, pontos, linhas e cores se bastam e são tudo que se precisa pra ser feliz. Embora tenha essa tendência de chamar artes pouco discerníveis de abstratas.

Dentro dessa perspectiva não é difícil achar exemplos de quadrinhos abstratos.

Pedro Franz em Incidente em Tunguska

Ressalto que tudo isso se postula de uma forma muito ligada ao processo de criação e lemos, de novo, de cima do ombro do autor. A pergunta “Quadrinhos Abstratos?” foi rodeada, mas ainda não me abandona e segue firme, como quando comecei.

Segue comigo que vou tentar pensar do lado do leitor na próxima coluna. Acho que já posso escrever Parte 1 no título. 

[Continua…]