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“Não, não sou porra louca, sou um cara que trabalha pra cacete, aos 75 anos.
Porra, eu nem tive o prazer de ser preso, eu paguei o táxi até a Vila Militar, uma nota preta.” – Jaguar

Bruno Dorigatti conseguiu um feito histórico: além de entrevistar Jaguar, fundador do Pasquim (para dizer um dos tantos fatos memoráveis que você vai ler aí), reuniu Nani e a então jovem guarda do humor fluminense (produzido por lá, nem todos oriundos da hoje cidade olímpica). O gaúcho Allan Sieber, o mineiro Leonardo e carioca Arnaldo Branco, então editores da recém finada Revista F.. A parouvela dos confrades foi acompanhada pela escritora Cecilia Giannetti.

 Direto do túnel do tempo, Balbúrdia resgata esse encontro aniversariando uma década.

[Entrevista originalmente publicada no extinto site Portal Literal, em 29 de dezembro de 2011]

Na toca do Jaguar

 

Jaguar

Jaguar. Fonte

Quando marcamos o bate-papo com o cartunista Jaguar, achamos por bem cercar a fera em seu habitat natural: um bar.

Nascido em 29 de fevereiro de 1932, Jaguar começou sua carreira em 1952, na revista Manchete, ao mesmo tempo em que trabalhava como funcionário do Banco do Brasil – subordinado a Sérgio Porto, que chegou a tentar convencê-lo a não trocar o emprego pelo humorismo. O conselho não vingou, para sorte do país cujo cenário político é a maior fonte de inspiração do cartunista, e com ele tem aprendido a rir das próprias desgraças.

Para prendê-lo ao bar por horas a fio e arrancar-lhe as melhores histórias, recorremos a algumas rodadas de cervejas geladas, doses precisas de Steinhagger e à presença indispensável de Nani e mais três nomes da nova geração do humor brasileiro: o gaúcho Allan Sieber, o carioca Arnaldo Branco e o mineiro Leonardo, trio responsável pela revista F.[1].

 

Bruno. Vamos lá então, Jaguar. Como é que começou – aquelas velhas perguntas-chavão – tu desenhavas desde criança, já tinhas esse mesmo traço, ou ele foi “melhorando” ao longo dos anos?

Jaguar. Não, eu era um… Todos os cartunistas que eu conheço, por exemplo, o Ziraldo imitava o Smilby, um cartunista inglês, ruim. Eu lia o Paris Match, que tinha uma página de grandes cartunistas, o Chaval, Dan Mose, Tetsu, André François. Eu escolhi exatamente o pior de todos para imitar, trash, medíocre. O Millôr deu mais sorte, porque ele escolheu o melhor cartunista do mundo, que era o Steinberg, hehehe. Agora eu fico impressionado com dois caras, um que eu fiz a ‘orelha’ e vou lançar agora, o livro do Reinaldo, do Casseta. Eu sou um idiota completo, porque muita gente considera que eu sou um dos melhores cartunistas brasileiros, mas quando eu publicar o Reinaldo, eles vão descobrir que ele é muito melhor que eu, pô[2]. Então eu digo assim: só dois cartunistas que eu conheço nasceram prontos. Um é esse cara aqui, Leonardo…

Leonardo. Eu não concordo contigo, quanto ao Reinaldo, concordo.

Jaguar. Eles já chegaram prontos, não imitavam ninguém, eles eram eles já, entendeu? [para o Nani] E você, imitava quem?

Nani. Carlos Estevão, pegava d’ O Cruzeiro.

Jaguar. É verdade que o Carlos Estevão – até hoje não tive coragem de perguntar pra ninguém – se matou?

Nani. Não, não, acho que não.

Jaguar. Meteu uma carabina igual ao Hemingway.

Nani. Não, acho que não.

Jaguar. Me disseram que sim. Você acha que não? Você é mineiro…

Nani. Acho que não. Ele morou em Minas, era de Recife. Morou no final da vida lá em Belo Horizonte, publicava no Estado de Minas.

Jaguar. Porque o Amigo da Onça, que foi uma criação do Péricles, era imitado de um cara chamado De Vito, argentino. Aí o Péricles se matou, com gás. Depois o Carlos Estevão ficou fazendo o Amigo da Onça, e, segundo me disseram, se matou com um tiro de carabina, e o outro cara também morreu, que eu esqueci o nome. Quem era o outro cara?

Nani. Quem fez o Amigo da Onça foi o Fritz, mas acho que ele não morreu ainda, não. Você que é amigo da onça em falar que o Fritz morreu.

Jaguar. Agora, tem uma cara que hoje trabalha na polícia, faz aquele retrato falado. Ele fez o Amigo da Onça e tá vivo até hoje.

Bruno. Tu falou que procurou imitar logo o pior, o trash. Por quê? Assim terias mais facilidade em conseguir superá-lo?

Jaguar. Eu era um ignorante completo, entendeu? O meu desenho era o seguinte: quando eu apresentei os meus trabalhos para o Hélio Fernandes, na Tribuna da Imprensa, o Hélio olhou pra mim e disse: “Olha, é o pior desenho que eu já vi na minha vida. Eu sou irmão do maior humorista brasileiro e entendo disso”. Eu fiquei puto da vida e só de raiva resolvi virar humorista. Aí comecei a imitar os caras certos, André François… Eu entrei da seguinte maneira: o Borjalo era humorista da Manchete, e todos os outros humoristas brasileiros – essa época era o quê?, 1950 e poucos – estavam n’ O Cruzeiro. Quando compraram o passe dele para O Cruzeiro, não tinha mais humorista. Então fizeram um concurso e eu ganhei, empatado com o Claudius, que era do Rio Grande do Sul, e um outro cara, chamado Brandão. Se lembra dele?

Nani. Me lembro, ficou no Última Hora muito tempo.

Jaguar. O Brandão, quando ganhou o concurso veio pro Rio, achando que vida de cartunista é mulheres, carros conversíveis. Eu disse: “Nada disso, cara, tem que fazer como eu. Eu ganho a minha grana pra pagar as contas no Banco do Brasil, pô”. Aí ele fez concurso pro Banco do Brasil, passou e virou bancário. Hahahaha! Eu encontrei com ele há poucos anos, ele estava deprimido. Deprimido não sei por que, tava cheio da grana, era gerente do Banco do Brasil em Madri. Deprimido porque não se realizou como…

Leonardo. Ele nunca mais desenhou…

Jaguar. Tinha um traço interessante. Quando eu comecei a fazer cartum tinha cinco humoristas no Brasil, só. O Pasquim teve uma grande vantagem, abriu pra todo mundo. Esse cara aqui, por exemplo (apontando pro Nani), começou lá. Ele chegava diariamente com 30, 40 cartuns, eu dizia pra ele: “Ô, Nani, pelo amor de deus, eu não tenho como publicar tudo isso, são todos bons, senão vou publicar só os teus cartuns, não publico mais nada no jornal. Por que você não vai tomar umas cachaças? Ou namorar…”

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Nani. Pior que eu ia.

Allan Sieber. Seguiu o conselho.

Jaguar. Hehe. Vai fazer alguma coisa pra… porque ele chegava todo dia. Esse cara é uma Niágara.

Nani. Eu desenho muito rápido. Quando eu faço as tiras, faço sete tiras em uma hora.

Jaguar. E você é como eu, nós dois temos uma qualidade em comum – não sabemos desenhar. Por exemplo, o Angeli, aquele maluco, faz um quadrinho que tem cenário, uma biblioteca, com todos os livros, com os títulos, tem uma janela, dando uma perspectiva. Eu e o Nani, eu rabisco qualquer coisa, sem cenário, porque, na nossa opinião, o que interessa não é o cenário, é a ideia, pô, o cara achar graça.

Nani. Porque a piada é perecível. No outro dia tu quer ler outra, né? É diferente de música, o cara compõe uma música e canta ela a vida toda. Agora, piada você tem que fazer uma no dia seguinte, na hora seguinte.

Jaguar. Os paulistas, aqueles ex-boys…

Bruno. Quem são os ex-boys?

Jaguar. Laerte, Angeli e Glauco. Eles desenham me-ti-cu-lo-sa-men-te. Devem desenhar o dia inteiro. O tempo que levam para fazer um quadrinho, o Nani faz 20 cartuns, hehehe.

Bruno. E isso é algo dos paulistas?

Jaguar. Não, eu admiro, tenho a maior admiração, mas jamais faria isso porque o tempo em que ele tá trabalhando eu vou beber nos bares com os meus amigos, pô, hehehe.

Nani. Tem que contratar um arquiteto pra fazer o cenário nos seus desenhos.

Bruno. Tu tavas falando do espaço que tinha n’ O Cruzeiro. E depois d’ O Cruzeiro, quais foram os…

Jaguar. Eu não trabalhei n’O Cruzeiro, trabalhei na Manchete. Fiquei lá algum tempo e fui demitido e fiquei indignado. O diretor da Manchete era o Nahum Sirotsky e ele me demitiu. Mas como me demitiu? “Os leitores estão escrevendo cartas me elogiando e você me demite?” Ele falou: “Tá demitido”. Sabe por que ele me demitiu? Pelo seguinte: porque ele tava participando de um esquema para fundar a revista Senhor e o Carlos Scliar, diretor de Arte, disse: “Demite esse garoto aí, que ele vai trabalhar comigo na revista Senhor”. Mas eu não sabia e aí fiz uma onda contra ele, dizia que ele era um centauro, metade cavalo, e metade cavalo também. Hahahaha… Ele teve que agüentar, coitado.

Bruno. E aí tu entrou pra Senhor?

Jaguar. Fala-se muito nO Pasquim, mas a revista Senhor foi muito mais importante, sobre todos os aspectos – cultural, a parte de criação –, uma revista como nunca houve outra igual, porque o Carlos Scliar era um artista, não era um cara de publicidade. E aí ele contratou o Glauco Rodrigues, que era um excepcional desenhista. Bea Feitler, que depois foi ser editora do Harper’s Bazaar, virou celebridade internacional, e eu. era um trabalho fantástico. Eu tenho um episódio muito engraçado. O Pasquim na verdade, a Senhor] publicou grande parte da obra da Clarice Lispector, Fernando Sabino, e o Jorge Amado havia feito A morte [e a morte] de Quincas berro d’água e eu cheguei pro Scliar e falei: “Pô, eu quero ilustrar isso aí”. “Não, guri”, aquele negócio de gaúcho, né? “Não guri, quem vai ilustrar é o Glauco Rodrigues.” Eu falei: “Mas, pô, o Glauco não bebe”. “Sim, ele não bebe, mas desenha muito melhor que tu.” Hahahaha [gargalhadas gerais. Eu fiquei puto, mas mais tarde eu acabei, por outra editora, fazendo as ilustrações do Quincas berro d’água, que é a obra-prima dele, né? Eu acho.

Bruno. E por que tu achas que O Pasquim levou essa fama, de ter revolucionado a imprensa, e a revista Senhor não conseguiu ter esse reconhecimento?

Jaguar. A Senhor era uma revista cultural, uma coisa mais… E O Pasquim era uma revista de briga, hehehe. Uma revista que encarou a ditadura, a gente foi em cana, então era uma coisa popular. A revista Senhor era uma revista cultural que era mensal. Durou um tempão, quase 20 anos. O Pasquim também durou quase 20 anos. Eu tenho uma característica engraçada, até não gostaria de falar sobre isso, porque, de repente, ninguém chama mais pra fazer nada, porque eu entro numa revista, e fico do primeiro ao último número, até ela falir, hehehe. Aconteceu com a revista Senhor, com O Pasquim, aconteceu com A Notícia e por aí vai. Mas, também, a essa altura não tenho mais saco pra trabalhar em redação, né?

Bruno. Mas hoje em dia, com a facilidade, pouca gente trabalha em redação, né?

Jaguar. Agora, redação, no meu tempo, rapaz, era outra coisa. A redação de A Notícia, jornal que eu dirigi, uns três ou quatro anos, era uma bagunça completa. Era uma sala menor do que essa varanda aqui do finado e demolido Mistura Fina, na Lagoa, Rio de Janeiro. Eu trabalhava com uma garrafa de uísque, todo mundo fumando, num ambiente fechado.

Nani. A redação d’O Pasquim era legal também.

Jaguar. Politicamente incorreto. A redação d’O Pasquim era uma bagunça completa.

Nani. Era bacana. Quando a gente chegava lá…

Jaguar. … de vez em quando passava uma mulher nua….

Allan. Isso é uma redação, todos concordam.

Nani. O Ivan Lessa também, na época, os que estavam começando, os mais jovens, ficavam numa sala – o Cláudio Paiva, Hubert, Reinaldo, eu – aí, de repente, você olhava e tinha uma bunda, o Ivan Lessa chegava e fazia aquele bundão, só isso, e ia embora. Era muito engraçado, o Fausto Wolff chegava de porre.

Jaguar. Aquilo era uma loucura. Hoje em dia é inviável, porque as pessoas, nas redações, não se falam mais. O cara que tá do teu lado, rapaz, isso é uma loucura.

Bruno. Qual foi a última redação em que você trabalhou?

Jaguar. A Notícia. Era uma bagunça, todo mundo passava a mão na bunda das estagiárias.

Allan. Não teve aquela manchete, como que era?… “MULHER COM IDADE DO ZIRALDO DÁ A LUZ”. [Hahaha risos gerais]

Jaguar. Ele ficou puto, hehehe. A mulher teve um filho com 62 anos, sei lá.

Leonardo. Na época era aniversário do Ziraldo, acho que no dia do aniversário.

Jaguar. É, a manchete foi essa mesmo: “MULHER COM IDADE DO ZIRALDO DÁ A LUZ”. Hehehe. Eu imitava o cara que era o gênio…

Nani. … da Hora do Povo.

Jaguar. Exatamente, que era o anterior. O cara era um gênio, a manchete mais famosa dele era o seguinte: “O GEMIDO ERA IMORAL”. O cara morava numa casa de cômodos e aí a mulher dele estava transando com um cara na cama do casal, e a mulher gemia. E o cara: “O que que é, filha?” “Não, eu tô com dor de barriga”, ela dizia. E tava transando com o cara. Aí saiu assim: “O GEMIDO ERA IMORAL”. Aí o cara descobriu, saiu a maior porrada. “O GEMIDO ERA IMORAL”, isso é uma obra-prima.

Nani. Tinha outra: “BATEU NA MÃE SEM JUSTA CAUSA”. Hahahaha risos gerais.

Leonardo. Me lembro de uma: “NA PAVUVA, PUM PUM PUM”. Um assassinato na Pavuna, tiroteio.

Jaguar. Ah, eu fiz uma muito boa, sempre inspirado no meu ídolo, que era o seguinte: dois milicos, um sargento e um cabo, pegaram duas piranhas e levaram lá prum motel da Baixada, beberam, comeram, e saíram sem pagar, isso em plena ditadura. Aí eu botei a seguinte manchete: “GOLPE MILITAR NA BAIXADA”. Hahahaha risos gerais. Os caras não pagaram. Aí foi um escândalo, foi acionado todo um esquema de segurança, e descobriram que era sacanagem minha.

Bruno. Tu falou que foi O Pasquim o primeiro veículo a abrir mesmo espaço pra cartunista, quadrinista…

Jaguar. Ah, sim… Porque a gente, inclusive fez… O Fortuna bolou um negócio, como é que se chamava? Aquele concurso…

Leonardo. Abre-alas.

Jaguar. Abre-alas. Então todo mundo mandava cartum, aí apareceu um monte de gente, Alcy, Laerte, Angeli, todo mundo. Aí os caras que eram bons a gente publicava.

Nani. Porque nessa época da ditadura, d’O Pasquim, os grandes jornais não podiam dar muita notícia, nem fazer entrevistas. E, através do humor, as charges diziam muita coisa. Então teve o boom do cartum e os jornais todos queriam ter um chargista, tinha demanda pra cartum. A gente publicava nO Pasquim e daqui um pouco tava publicando em outro jornal, porque os jornais queriam ter um chargista pra poder, nas entrelinhas, dizer alguma coisa que as reportagens não podiam dizer. Então foi uma época em que O Pasquim surgiu e surgiu muita gente, e também o mercado de trabalho ampliou um pouco.

Jaguar. Agora você veja que houve… Hoje em dia tem mais chargista por aí no Rio Grande do Sul, e todos bons, né? Tem um aqui Allan Sieber e o Adão Iturrusgarai, que tava comigo ontem, o Santiago, o Guazzelli, o Vasquez. O Guazzelli ainda continua fazendo aquela cidade dele?

Allan. Continua, aquilo é um work-in-progress[3]

Jaguar. Aquilo deve ter um 100 metros quadrados.

Allan. É, é um negócio gigantesco.

Jaguar. O Guazzelli é um cara que fica desenhando uma cidade imaginária, mas em cima de Porto Alegre. Ele é um tremendo desenhista. Quatro anos atrás, ou cinco, ele me deu uma reprodução dela inteira até o momento. Já deve ter dez vezes mais.

Leonardo. Tudo em A4, né?

Allan. É, ele vai fazendo em A4 e montando.

Jaguar. Uma coisa de louco, rapaz…

Bruno. E quando é que ele começou isso?

Leonardo. Acho que quando ele tava doente, no hospital. Acho que tem uma história assim, ele tava no hospital e começou a fazer…

Allan. Isso é 97, talvez, 96.

Arnaldo Branco. Na casa dele, tem uma parede que é essa cidade…

Allan. Ali deve ter um décimo do negócio.

Jaguar. Eu acho que o maior reduto de cartunistas no momento é o Rio Grande do Sul.

Nani. Minas também tem muito…

Jaguar. Minas tem muitos, e São Paulo tem aqueles gênios todos, o Angeli, os três, né?, os três são…

Nani. O Jean também é de lá, também muito bom.

Arnaldo. O Jean é do interior de São Paulo.

Jaguar. O Jean é do Norte.

Arnaldo e Leonardo. Não, o Jean é do Sul, de São Paulo.

Allan. Então tem dois Jeans[4].

Jaguar. Sei lá, eu acho que ele não é de São Paulo, tá publicando lá.

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Humor e resistência: o regime militar

 

Arnaldo. Dizem que você foi o primeiro cara a resistir a ditadura…

Jaguar. Eu o quê?

Arnaldo. Foi o primeiro cara a fazer um cartum contra a ditadura. Antes até da reação do Cony, no Correio da Manhã.

Jaguar. É o seguinte: quando houve o golpe, e aquela coisa toda, eles foram lá… – ei, eu também quero… Mas eles foram lá na redação e arrebentaram tudo, na redação da Última Hora. Eu me lembro até que foi com uma amiga minha, que era namorada do Paulo Francis, esqueci o nome dela agora. Chegamos lá, tava tudo arrebentado, e quem arrebentou foi um grupo de caras chefiado pelo…, ai meu deus do céu… aquele cara que fazia aquele programa que quebrava disco..

Arnaldo. Flávio Cavalcanti.

Jaguar. Flávio Cavalcanti. Ele foi lá e quebrou tudo. No dia seguinte saiu uma edição de duas páginas só, com notícias absolutamente neutras, né? Mas tinha uma caricatura minha de um gorila sapateando em cima de uma máquina de escrever. Quer dizer, no dia seguinte, saiu aquele famoso artigo do [Carlos Heitor] Cony…

Arnaldo. “O ato e o fato”… Jaguar. … no Correio da Manhã, que era muito mais lido, mas, cronologicamente, fui eu. Mas isso aí, já me entendi com ele sobre isso. Claro, o meu negócio foi antes, mas teve muito mais importância. Quem é que ia comprar um jornal de duas páginas? E era um jornal popular, não era um jornal lido pelas elites.

Bruno. Jaguar, eu li uma entrevista tua recente falando que o trabalho no Banco do Brasil te deu essa disciplina pra desenhar, tu falou que nunca faltou ao trabalho. Como é que tu conseguiu nunca faltar ao trabalho, todo porra louca?

Jaguar. Não, não sou porra louca, sou um cara que trabalha pra cacete, aos 75 anos. O Banco do Brasil é o seguinte: eu ia entrar pra Marinha mercante, meu plano de vida era completamente… assim, eu vou ser comandante de um navio, vou encher de livros o navio, entendeu?, vou contratar um cozinheiro do cacete, rodar pelo mundo, me alistar na Marinha do Panamá.

Tava tudo programado, fiz o concurso da Marinha, passei, aí me apaixonei, rapaz, a maior idiotice. Me apaixonei por uma guria e aí resolvi me casar. A minha vida mudou completamente.

Eu me demiti da Marinha, fiz concurso pro Banco do Brasil e fiquei lá trabalhando. Agora, eu tive uma sorte da…

Quando eu fiz o concurso do Banco do Brasil, datilografia não era eliminatória – é claro, eu não sabia bater à máquina. Então tirei zero em datilografia.

Quando me chamaram para trabalhar no Banco do Brasil, meu trabalho seria bater à máquina. Aí eu já tinha ainda outros empregos e tinha pedido demissão também, virei pro cara do lado, que era o meu conferente e falei: “Ô companheiro, você não me leve a mal, não, mas eu vou me levantar aqui e vou-me embora porque não sei bater à máquina, porra”. Aí, olha só o que é o destino.

O cara que tava do meu lado, meu conferente, era o Sérgio Porto. Naquela época, um emprego no Banco do Brasil era muito bem pago. Aí ele falou: “Ô, rapaz, isso aqui é moleza. Faz o seguinte: você tem algum parente médico?”. “Tenho três tios médicos.” “Arruma aí uma desculpa e faz um curso intensivo de datilografia. Qualquer débil mental aprende a bater à máquina, até você é capaz disso.” Hahahaha!

Stanislaw-Ponte-Preta-cronicas

Leonardo. Então você conheceu o Sérgio Porto lá e não sabia que era ele?

Jaguar. Não sabia. E, inclusive, ele não era o Stanislaw Ponte Preta ainda. Era o Sérgio Porto, um intelectual que fazia crônicas sensíveis, artísticas. Mais tarde acabei sendo o ilustrador de todos os livros dele.

Nani. Como é aquela história que vocês saíam do Banco do Brasil e tinha um bar lá que o cara não sabia que tinha uma bebida de qualidade, aí vocês beberam todas…

Jaguar. Pois é. Era muito engraçado porque a gente tinha hora do lanche. O horário era ótimo, das três às oito. Pra boêmio, não tinha coisa melhor. O Rio de Janeiro era boêmio naquela época. Aí a gente entrava às três, ficava até as quatro e meia embromando, aí ia pro lanche.

Tinha um boteco onde hoje é um banco. Eu olho assim e lá em cima tá um Red Label todo empoeirado. Falei pro garçom: “Eu quero aquela bebida lá”. Aí o garçom vai – nunca tinha servido aquela garrafa – encheu um copo de geléia, até a tampa. Eu e o Sérgio Porto. Eu falei: “Sérgio, não vai dar”. “Aguenta aí, garoto.”

No dia seguinte a mesma coisa, ele cobrava a preço de cachaça. Até que o dono do bar viu, e daí era com medidor de uísque. Aquilo pra mim foi a cavalaria americana, salvou a minha vida.

Quando eu saí do Banco do Brasil para trabalhar n’O Pasquim tiveram que botar quatro caras no meu lugar, porque eu decorei os códigos de telegramas internacionais.

Se bem que de vez em quando eu fiz algumas confusões. Eu baixei uma vez uma ordem de pagamento pra Dinamarca e em vez de botar 10 mil, botei 100 mil. E pagaram o cara lá. “Ô, Jaguar, vamos descontar do seu pagamento”, me disseram. “Então me demite.” Mas ficou por isso mesmo.

Leonardo. Mas você pediu demissão?

Jaguar. Pedi demissão com 17 anos de banco. E tem mais uma, sem aquela coisa de fundo de garantia, porque optei pelo não fundo de garantia.

Então saí do Banco do Brasil com 17 anos sem um tostão, pra virar marginal. Ate hoje, hehehe.

Bruno. E por que você saiu?

Jaguar. Ah, eu não agüentava. Eu trabalha n’O Pasquim até as duas horas e quando a coisa esquentava eu tinha que ir pro banco.

Allan. Você saiu do banco quando exatamente?

Jaguar. Isso foi no começo d’O Pasquim, em 1979. E daí pra frente eu virei marginal.

Arnaldo. Foi até preso, né?

Jaguar. Ah, isso faz parte, né? (para o Nani) Você foi preso?

Nani. Não, não. Eu também trabalhei em banco lá em Minas.

Jaguar. Você também?

Nani. Trabalhei. Saí do banco e vim pro Rio.

Jaguar. Mas o banco me deu uma puta disciplina, entendeu? O pessoal do Banco do Brasil até, eu sempre falo sobre isso e eles gostam de mim.

Eu chegava de porre, trêbado, entendeu?, mas nunca, nunca deixei de entregar, em 50 e tantos anos, uma crônica, um desenho, uma charge. Banco do Brasil. Hehehe.

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O humor made in Rio

 

Cecilia Giannetti. Queria saber do Allan, que não é do Rio, do Arnaldo, que é do Rio, como vocês viam, antes de virar cartunistas, os desenhos do Jaguar, do Nani, que falam muito de um Rio de Janeiro que não existe mais, e se vocês absorveram alguma coisa disso, ou decidiram bater de frente.

Allan. Eu, quando era moleque, minha mãe assinava o Círculo do Livro, que era um clube do livro, tinha um catálogo com todos os livros. E aí – era uma família de classe média baixa – tinha que comprar um livro só, por mês ou bimestre, não lembro.

E eu, a muito custo, conseguia convencê-la a comprar o livro do Jaguar É pau puro!, o livro do Millôr, Que país é este?.

Leonardo. Eram os mesmos livros, só que eles botavam numa capa dura.

Jaguar. É pau puro?

Leonardo. Acho que era uma coletânea de cartuns.

Arnaldo. Eu entrevistei o Jaguar uma vez, dez anos atrás, aí levei esse livro pra ele autografar. Ele queria pegar o livro pra ele, mas aí eu…

Jaguar. Eu fiz um livro chamado É pau puro?

Leonardo. Tem aquele cartum da mulher correndo, que diz: “Vocês são todos iguais?”, e tem um monte de homens atrás: “Sim”, “Sim”, “Sim”, “Sim”. No Círculo do Livro, eles reimprimiam o livro em capa dura.

Allan. … tinha do Woody Allen…

Leonardo. Mas do Stanislaw Ponte Preta, por exemplo, eles botavam na capa outra ilustração, era o Alcy que fazia.

Allan. Mas isso muito moleque, eu tinha 8, 9, 10 anos.

Bruno. Tu já desenhavas?

Allan. Eu já desenhava. Tentava imitar o desenho do Millôr, aquela coisa grotesca dele, umas garras, aqueles dentes assim.

Cecilia. Te chamava atenção aquele foco em Ipanema?

Allan. Não, eu era muito moleque. Que país é este? eu li com 10 anos e não entendia porra nenhuma que o Millôr falava.

Arnaldo. Eu conheci o trabalho do Jaguar porque meu pai era crítico literário e tinha a coleção completa da Senhor.

Então eu conheci a Jacaré, seção que o Jaguar tinha lá, e, realmente, tinha muito pouco de carioca no trabalho, porque eram todos cartuns de história, piada com Júlio César, com as pirâmides do Egito. Eu achava sensacional, adorava.

Jaguar. É engraçado, naquela época, sem internet, você tinha muito mais acesso às publicações – porque inclusive havia publicações. Havia a Punch, que acabou depois de 120 anos, acabou o Charlie Hebdo Charlie Hebdo não, o Massacre – acabou Hermano Lobo, acabou Hara-Kiri.[5] A gente tinha acesso a muito mais informação do que hoje.

Leonardo. Tinha o negócio da procura também. Você tinha o negócio de procurar as coisas, de garimpar as revistas, olhar as coisas.

Jaguar. Hoje em dia eu converso com jovens cartunistas e eles não conhecem nada que nós conhecemos, vocês conhecem.

Arnaldo e Leonardo. Ia catar em sebo…

Nani. Eu dei uma sorte. Quando comecei a desenhar no interior de Minas, tinha 13 anos, aí uma vez eu vi uma revista e pensei: “Ah, isso aí eu sei fazer”. Sentei e comecei a fazer. Aí a primeira piada que eu fiz, o primeiro cartum, eram dois piratas, aqueles piratas de gancho na mão, e um dizia pro outro: “Conheço essa região como a palma da minha mão”. Hahaha.

Allan. Sensacional.

Nani. Aí, eu pegava aquelas revistas Vamos Rir – eram bem simples – e ficava imitando, pegando temas ali. Mas aí uma senhora inglesa foi morar na minha cidade, na época com 10 mil pessoas.

Bruno. Qual era a cidade?

Nani. Chama-se Esmeralda. E ela levou mais de quinhentos Panchos. Então a neta dela era da minha sala. [imitando a inglesa falando português] “Vou convidarr o Nani prra virr aqui.” Aí me deu os quinhentos Punchs. Então lá no interior de Minas, aquele fim de mundo, eu tinha Punch, com André François.

Jaguar. Punch era o máximo, New Yorker e Punch. é a única que tem até hoje.

Nani. Então fiz um curso, eu mesmo era o professor e o aluno, dos 13 aos 18 anos, desenhando de a 40 piadas por dia. Aí, quando eu comecei, já tava com a mecânica das piadas, já tinha uma formação, através dessas revistas. E também tinha O Cruzeiro, que tinha o Millôr. E eu vi o Millôr, quando ele começou a desenhar a própria página – porque quem desenhava antes era o Péricles, fazia o Pif Paf. Aí o Péricles morreu, o Millôr começou a desenhar. E eu vi os desenhos do Millôr e pensei assim: “Pô, eles publicam desenho de criança também”. Hahahaha!

Bruno. “Tenho futuro então, né?”

Nani. E eu achava que o desenho do Millôr parecia com o de criança.

Jaguar. Millôr é um gênio, Millôr é um gênio.

Nani. E aí comecei a desenhar, achava que teria chance também, né? E na minha cabeça, assim: “Isso deve dar dinheiro, porque senão não teria tanta gente fazendo piada”. Hahahaha.

Allan. Erro crasso.

Leonardo. Todo mundo cai nessa.

Nani. Meu pai rasgava os cadernos, não gostava. Mas eu guardei, na exposição da [Casa de Cultura] Laura Alvim tem esses cadernos. Eu comecei num caderno desses espiral.

Nani. Aí me perguntaram se eu não fazia outra coisa. Mas naquele tempo eu engraxava sapato, vendia jornal, estudava, isso lá em Minas. Mas, no interior de Minas, uma hora dura umas quatro horas e quinze, mais ou menos. Então tinha muito tempo. E quando vim pro Rio, pensei que ia me dar bem, igual ao Brandão. Chegar no Rio, ser cartunista, ficar lá no meio do Ziraldo [Ninguém percebe a frase dúbia].

Mas aí eu quebrei a cara, porque era na época da ditadura e quem tava em alta no Brasil inteiro era quem trabalhava na Petrobras, ou então era militar, né?

Então eu ia tentar alugar um apartamento e me perguntavam: “Você é militar?”. “Não, não sou militar.” “É porque tem um tenente aqui na sua frente.” Então eu era sempre preterido, nunca conseguia um lugar, porque sempre tinha um militar alugando na minha frente.

Até que um dia na [rua] Gago Coutinho, gostei do apartamento e o cara me perguntou: “Mas o que que você faz?”. “Sou cartunista, mas do segundo Exército.” Aí ele: “Ah, bom”. Hahahaha. Então eu sou o primeiro cartunista do segundo Exército do Brasil. Hahahaha.

Quando cheguei aqui no Rio – primeiro conheci o Ziraldo em Belo Horizonte, ele foi dar uma entrevista n’O Diário lá e ele trouxe os desenhos que eu levei pra ele trazer aqui prO Pasquim. Ele largou pra lá, o Henfil viu, gostou e botou, me deu uma página.

Aí quando vim pro Rio, conheci o Henfil e ele falou: “Ah, vai lá e fica colado no Jaguar, enchendo o saco dele”. Aí fui pr’O Pasquim, ficava vendo o Jaguar recortando, ilustrando as dicas, me botava pra ilustrar as dicas.

Millôr ia lá, aí um dia Ziraldo juntou todos os funcionários dO Pasquim, faxineiro e tal, “Sobe todo mundo aqui pro segundo andar, pra vocês presenciarem um momento histórico: o dia em que Nani conheceu Millôr Fernandes”. Hahahaha. Aí me apresentou o Millôr, foi uma coisa bacana.

Bruno. Tu tavas falando da Pif Paf, que foi a página que ele Millôr criou n’O Cruzeiro e depois virou publicação. A Pif Paf também abriu espaço pra outros cartunistas, ou não?

Nani. Não, não, na época era um grupo muito fechado.

Bruno. Tinha o Fortuna, o Claudius…

Jaguar. Também, o Pif Paf durou apenas oito números. Ou seja, dois meses. E foi um fracasso espetacular, hehehe. O Millôr também tava a fim de fechar, né?

Leonardo. Por conta do momento político ali.

Arnaldo. No primeiro Pasquim inclusive tem uma carta dele dizendo que se realmente a publicação for independente não dura. Mas ele tava errado, tanto que entrou depois.

Jaguar. Ele tinha toda a razão.

Nani. Quando cheguei ao Rio, em 1973, era um clima de terror, havia sempre a ameaça de alguém sumir. Tanto é que o Ziraldo tinha uma coisa interessante, bem bacana, ele pegava os cartunistas novos, que a gente chegava com todo o entusiasmo, mandando brasa nos cartuns, mas pra ditadura não interessava se era novo, se era velho. Aí o Ziraldo dava um cartão com telefone de um advogado pra todo mundo, pras mulheres dos cartunistas, pras namoradas.

Allan. Clima de terror.

Nani. Porque se alguém sumisse era para ligar. Tinha outro, de um coronel, que era amigo. Mas a gente vivia assim, né? Era uma época terrível, que você contando hoje as pessoas não acreditam, era complicado o clima da época.

Fazer cartum, ser chargista na época era meio perigoso. Tanto é que o pessoal já tinha sido preso quando cheguei aqui ao Rio, mas esse clima de terror continuou por muito tempo ainda. E você vê os desenhos censurados, são coisas idiotas que eles censuravam.

Jaguar. Agora você vê como as coisas são malucas. Uma vez, eu tinha alugado uma casa de pescador em Búzios. Búzios, não, Arraial do Cabo. Aí quando eu cheguei me falaram assim: “Jaguar, se esconde, estão prendendo todo mundo”. Aí eu falei, “e agora? O que que eu faço?”

O Flávio Cavalcanti[6] – olha só que país maluco –, que depredou a Última Hora, me ofereceu para ficar escondido na casa dele. E, inclusive, numa excelente companhia, Leila Diniz, hehehe. Tava eu lá com a Leila Diniz tomando umas cachacinhas, quando liga – não sei como, alguém forneceu o telefone – Paulo Francis lá da Vila Militar. “Ô Jaguar, é o seguinte, nós tamos aqui presos e eles só vão soltar a gente se você se apresentar para prestar depoimento.” Hahahaha [risos gerais].

Falei, “porra, cara, eu tô aqui com a Leila Diniz, numa boa”…

Allan. …logo agora…

Jaguar. “… bebendo o uísque do Flávio Cavalcanti”, hehehe. “Não, a sua consciência…” Aí, pronto, falou em consciência… Liguei pro Sérgio Cabral [o pai, naturalmente] e falei assim: “Sérgio Cabral, vamos ter que nos entregar”.

Porra, eu nem tive o prazer de ser preso, eu paguei o táxi até a Vila Militar, uma nota preta. E aí o Flávio Cavalcanti, não, o Flávio Rangel, que não tinha nada ver com o negócio, “eu vou junto”. Falei, “você vai junto por quê? Não tá sendo pedido”. Aí passamos lá, ele tava com uma malinha. “Que malinha é essa aí?” E ele: “Não vamos ser preso?”

Nani. É um preso profissional.

Jaguar. “Cara, eu estou sendo chamado para prestar depoimento, então deixa a malinha aí, tá?” Aí, porra, fomos lá, longe pra cacete, uma nota preta.

Cheguei lá na porta da Vila Militar e falei assim, “volta”. E o motorista: “Volta pra onde?”. “Volta pro primeiro boteco que você achar.”

Tomei um copo de cachaça e voltei. “É o seguinte: eu fui chamado aqui pra prestar depoimento. Meu nome é Jaguar, tá aqui o Sérgio Cabral, Flávio Rangel.” “Pode entrar.” Ficamos dois meses presos, hihihihi.

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Nani. Tem uma história do Flávio Rangel[7] ótima. Diz que tinha um tenente lá na Vila Militar e quando o Flávio Rangel chegou disse pra ele: “Ô, Flávio Rangel, vocês acham que só você são intelectuais? Pois fique sabendo que eu sou tenente e já li toda a obra de Dostoiévski”. “Ah é? Então me diz o nome do carcereiro de Dostoievski quando foi preso. Como é que é o nome dele?”

“Eu não sei.”

“Então, pois é, a história não registra o nome de carcereiro e não vai registrar o seu.” Hahahahaha [risos gerais].

Allan. Sensacional.

Jaguar. Parece que é brincadeira, mas foi o melhor período da minha vida. Eu ficava o dia inteiro lendo Guerra e Paz, aquele calhamaço do Tolstoi, que você só lê na prisão. Subornava os guardinhas que me compravam cachaça, bebia o dia inteiro, e ainda era considerado herói, entendeu? Tortura, não houve.

Arnaldo. O Paulo Francis falou: “Você foi torturado?” “Fui, o carcereiro ouvia Wanderléa o dia inteiro.”

Jaguar. A única tortura física foi do Luis Carlos Maciel. Ele tinha o cabelo até aqui [bate com a mão no ombro], ele era o guru dos hippies na época, tinha aquela seção “Underground” [nO Pasquim], e aí o cara falou, “corta o cabelo desse cara”. Aí cortaram a força e todo mundo falou “vamos fazer greve de fome”, e eu falei, “eu, não”. Hahahaha.

“Eu vou furar a greve. Já tô preso, ainda vou ficar sem comer? Nem pensar.”

E todo mundo ficou aliviadíssimo, porque eu era o furador de greve, entendeu?

Aí o que aconteceu? O Maciel tava revoltado. “Ô, Maciel, você quer que eu te diga uma coisa? Você ficou muito melhor de cabelo curto”.

Tanto é que até hoje ele não deixou crescer o cabelo mais. Tá com o cabelo curto até hoje.

Arnaldo. Você foi solto no dia do reveillon, não é isso?

Jaguar. Exatamente. Eu fui solto… ah, e eles faziam aquela tortura, tortura, digamos assim, “vocês estão solto”, aí você dava as coisas que tinha pros outros presos, até que no dia do reveillon me levaram. “Quer que leve pra onde?”

“Quero que me leve pruma festa que eu e o Albino [Pinheiro, um dos fundadores da Banda de Ipanema] fazemos todo ano no Silvestre, no reveillon.”

Cheguei lá no reveillon uma hora da manhã.

Me deram tanta bebida, rapaz, que eu fiquei em estado de coma alcoólica, que eu acordei dois dias depois, hehehe. È muito divertido esse país, entendeu?

Mais ou menos, né? Eu, a essa altura não estou achando muito divertido não. Realmente, não estou. Em nenhum esfera, municipal, estadual ou federal.

 

Jornais, revistas, editoras

 

Bruno. E vamos falar um pouco da [editora] Desiderata. Como é que foi? Te convidaram pra…

Jaguar. É o seguinte: eu fui convidado pela Martha Batalha, que é a dona da editora, pra fazer com o Sérgio Augusto uma seleção do melhor d’O Pasquim do número 1 ao número 150. E aí, depois disso, ela me convidou pra ser – e eu aceitei – consultor; não editor, porque editor tem que trabalhar, né? Sou consultor de humor, e achei uma oportunidade boa, porque o cartum, e o humor também, há uma espécie de extinção.[8] Então eu publiquei uma série de livros. O livro que ilustrei 30 anos atrás, que era A mãe que entrou em órbita [de João Bethancourt], que eles botaram um novo título, o livro do [Don Rossé] Cavaca, que é um livro genial, que se eu não publicasse ninguém ia se lembrar mais. E livros de cartunistas, como o Nani, os gaúchos aí Allan Sieber, Adão Iturrusgarai. Eu acho legal.

Bruno. Tu falou que o humor tá morrendo, tá acabando. Mas a gente vê, até pelas facilidades tecnológicas, uma proliferação de…

Jaguar. Se publica muito história em quadrinhos, mas cartum, não. Então eu tô tentando dar uma sobrevida ao cartum.

Nani. A renovação nas editorias de jornais foi responsável, porque até um tempo atrás tinha muitos cartunistas da geração do Jaguar, e depois posterior, um pessoal que chegou ao jornalismo através d’O Pasquim ainda gostava de cartum e convidada os cartunistas.

Havia bastante espaço na imprensa pra cartum.

Quando teve esse boom do cartum, todas as publicações, house organs, a gente fazia, às vezes eu fazia 18 envelopes pra entregar cartum pra várias publicações. E as pessoas gostavam, e o leitor também gosta de cartum.

Allan. Tinha a cultura do cartum.

Nani. É, aí com a mudança das editorias foi entrando um pessoal que não gosta muito de cartum, às vezes gosta um pouco de quadrinhos ainda, um ou outro, entendeu?

Jaguar. … e charge.

Leonardo. Na verdade, eles ao sabem a diferença, não sabem o que que é cartum ou charge.

Jaguar. Eu, por exemplo…

Nani. O cartum sumiu. Outro dia foi uma menina me entrevistar, uma menina d’O Dia, aí me perguntou assim: “É você que faz aquela fita n’O Dia?”.

Jaguar. Fita?

Nani. É, queria falar tira, mas não sabia nem o nome da tira, que é uma coisa básica em qualquer curso de jornalismo, né? Então, “aquela fita”. É o nível em que a gente tá chegando.

Com esse pessoal mais novo nas redações, o cartum some, porque eles não gostam, não entendem. Então o espaço está morrendo mesmo, igual o Jaguar tá falando.

Leonardo. É uma questão também da diagramação, porque parece que os quadrinhos já tem aquele bloquinho, aquele negócio certo, fica mais fácil pra fazer, pra diagramar, já tá tudo certinho.

Bruno. Também a charge política, né?

Leonardo. A charge política, que é o espaço que sobrou, e já tem há um tempo. Tanto que o nome, a nomenclatura, também é confusa. As pessoas não diferenciam cartum, charge

Jaguar. Eu procuro fazer cartum na charge, entendeu? Mas é uma coisa meio complicada, porque…

Allan. Deixar a charge atemporal.

Jaguar. É. Agora, por exemplo, a próxima charge que eu fiz é o seguinte: o Arlindo Chinaglia dizendo pros caras lá: “Olhaí, vocês têm alguma coisa para se queixar? Eu aumentei os subsídios, eu aumentei isso, eu aumentei aquilo. Vocês estão satisfeitos?”. Aí um cara diz assim: “Não, queremos uma amante argentina para cada deputado”. Isso é um cartum, entendeu?, dentro da charge. O Nani faz muito bem isso, eu também.

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Leonardo. Eu aprendi com o Jaguar.

Jaguar. A gente faz o cartum dentro da charge.

Leonardo. Até porque eu não sou bom de caricatura, aquela coisa do figurativo.

Jaguar. Eu quando tenho que fazer uma caricatura, imito descaradamente o Chico Caruso.

Nani. Eu colo também.

Jaguar. … e ele acha legal.

Arnaldo. Aquela história do Carlos Lacerda, que você não sabia desenhar o Lacerda e imitava do Lan.

Jaguar. Eu acabei fazendo o Carlos Lacerda, que tinha o apelido de Corvo, não é? O Carlos Lacerda era completamente diferente da minha caricatura, mas com o tempo ele acabou ficando parecido. Hahahahaha.

Bruno. Ele se adaptou…

Nani. Esse que é o segredo da caricatura.

Jaguar. Hahahaha, é muito engraçado isso.

Allan. Mas desenhar cara de político também é uma coisa muito nojenta, né?

[Todos concordam]

Leonardo. É desagradável.

Jaguar. [para o Allan] Eu vi na palestra que nós fizemos, você não tem saco nem pra olhar. Aqueles olhos de azeitona, têm um brilho de azeitona de dois dias em cima de uma mesa, entendeu? Aqueles caipiras.

O único cara que eu realmente tô adorando, o resto… Esses dias me perguntaram quem eu deixaria numa ilha deserta. Deixaria todos os deputados e senadores, agora, o meu ídolo é o Clodovil. Hahahaha.

Eu encontrei com o Clodovil por acaso em Brasília, que me chamaram pra fazer uma entrevista lá, e coincidiu que era a posse do José Gomes Temporão ministro da Saúde, que é amigo meu, e filho do dono do restaurante lá do Rio. Aqui do Rio.

E aí, eu falei assim pro Clodovil, “elegantésimo”, claro: “Ô, rapaz, bota pra quebrar”. imitando Clodovil “Quebrar o quê? Já tá tudo quebrado”. Hahahahaha.

E a outra coisa ótima dele é um desses deputados caipiras lá, chegou assim: “Oxa, Clodovil, você está superelegante”. E ele: “Isto é um elogio ou uma cantada?”.

Hahahahaha. Meu ídolo, meu ídolo. Tem mais uma: ele vai lá todo… não perdeu uma sessão, ele tá levando a sério aquele troço.

Bruno. Tá estudando lá o ambiente, como funciona, como a banda toca lá dentro.

Leonardo. E a sua história em Brasília, sua experiência lá, como é que foi? Você ficou lá um tempo né?

Jaguar. Eu fiquei lá dez meses, adorei Brasília. Por quê? Tem ótimos bares, tem um amigo meu chamado Jorge Ferreira, ele tem os melhores bares. É o único caso de um intelectual, antropólogo e tal e coisa, que abriu bar e deu certo.

Então adorei Brasília, ficava o dia inteiro – peguei três quilos de barriga –, acompanhando minha mulher, que era do Ministério da Saúde. Ela ficou dez meses lá, quando terminou o trabalho, eu voltei. Gostei de Brasília.

Aí os cariocas me cobram: “Mas como é que você pode viver numa cidade que não tem esquina?”. Agora desde quando carioca… eu não sabia que carioca tinha essa tara por esquina, entendeu?

Pra mim, esquina é o seguinte: eu só paro quando tá o sinal fechado. E quem gosta de esquina é camelô e piranha, rodando bolsinha. Hehehe.

Allan. E despacho.

Leonardo. Macumbeiro.

Jaguar. Não sei por quê. Mas sabe quem inventou essa história? Aí vou revelar, porque poucas pessoas, nem em Brasília conhecem. Quem inventou essa história foi o Carlos Lacerda, que era inimigo do Juscelino Kubitschek. Então ele lançou essa história, ele foi dormir um dia lá em Brasília, abriu a janela e falou assim: “Uma cidade que não tem esquina”. Isso ficou no imaginário carioca.

Bruno. Como se esquina fosse algo fundamental na vida das pessoas.

Jaguar. Você já parou em alguma esquina, pra curtir alguma esquina?

Bruno. Não, só pra atravessar mesmo.

Jaguar. E o pior é o seguinte: tem esquina em Brasília, sim, porque não há projeto sem esquina – do meu dileto amigo, adoro, de paixão, Oscar Niemeyer –, o povo se infiltra em tudo e tem esquina à beça.

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Jaguar. [falando de Leonardo] Esse cara é voyeur de pombo.

Bruno. De pombo?

Jaguar. Pombo. Ele morava não sei onde…

[Alguém]. … na Tijuca…

Jaguar. … e dizia assim: “Os pombos transam o tempo todo”, e ele ficava no pátio interno do prédio dele vendo os pombos transando.

Bruno. Que história é essa?

Leonardo. Não sei por que o Jaguar lembra dessa história…

Jaguar. E aí, ele tem uma revista, chamada F.

Leonardo. Nós temos com o Allan e o Arnaldo. Tinham. Faleceu de causa desconhecida.

Bruno. Depois vamos falar dela…

Jaguar. Essa revista é fantástica e ela tem que ser preservada de alguma maneira. Eu queria que você falasse do negócio de voyeur de pombo, a sua tara…

Leonardo. Acho que foi uma crônica que você escreveu uma vez sobre pombo, você me perguntou uma vez sobre pombo, né? Não… por que é que não tinha pombo branco?…

Jaguar. Você falou pra mim: “Ô, rapaz, os pombos transam pra cacete”…

Leonardo. Isso era na época em que eu morava na Tijuca…

Jaguar. Eu falei: “Tu fica olhando?”…

Leonardo. … da minha janela só tinha pombo, então era… pombo só faz isso, pombo não tem mais o que fazer. Mas acho que era uma história, você me perguntou por que é que não tinha pombo branco, não era isso?

Jaguar. Pombo branco, só tem um, no Rio.

Leonardo. … e eu vi uma vez em Boa Viagem – eu queria ter tirado uma foto pra te mostrar aquilo – tinha um grupo de pombo branco na rua…

Allan. … em extinção.

Leonardo. … não existe mais.

Jaguar. Os pombos brancos são usados em…

Allan. …mágica.

Jaguar. Não…

Leonardo. … despacho.

Jaguar. Macumba, despacho. Mas tem um de topetinho que até hoje tá lá, branco, de topetinho, que ninguém pega ele, tá sempre no Bracarense ali. Bar do Leblon, zona sul carioca.

Leonardo. Freguês, né?

Jaguar. Mas fala.

Leonardo. Eu comecei a fazer charge porque o Jaguar falou… eu fazia de tudo, né?, quando eu fui lá prO Pasquim, depois pr’A Notícia

Bruno. É, contextualiza aí um pouco antes, tu entrou com 15 anos, como é que foi?

Leonardo. Eu cheguei sem saber de nada, porque eu gostava de desenhar e, de repente, meu tio me chamou pra morar no Rio, porque ele viu que eu desenhava…

Bruno. Tu é de onde?

Leonardo. Eu sou de Minas, morei em vários lugares. Meus pais são de Juiz de Fora MG. E cheguei assim, eu desenhava só, não tinha ideia do que fazer com aquilo. E quando eu vim, comecei a conhecer O Pasquim, meu tio gostava disso, e fui procurar saber e fui lá n’O Pasquim. Aí comecei a desenhar cartum, charge, aquelas coisas todas, aí rolou A Notícia, onde eu fazia ilustração.

Jaguar. Acabou O Pasquim, levei ele pr’A Notícia.

Leonardo. Durou um tempo junto.

Bruno. Isso final dos 70, começo dos 80?

Leonardo. Não, não, não. Calma, calma. Isso é 89, 90.

Allan. O Leonardo era punk, né?, tinha o cabelo…

Leonardo. Usava moicano. Era até engraçado, porque eu não tinha nem idade para trabalhar no jornal, tinha que tirar carteira, me apresentar ao Exército, aquela merda toda. E n’A Notícia fazia ilustração, quadrinho, fazia de tudo.

E um dia o Jaguar me disse: “Por que você não faz charge?”. Pensei assim: “Charge é foda, como é que eu vou fazer, todo dia, charge?”. E ele: “Não, você olha o jornal, escolhe uma notícia e faz um desenho sobre aquilo”. Eu falei: “Ah, se é assim, né?, tá bom”. Foi a minha lição de charge. aí comecei a fazer e foi, fiz n’A Notícia durante sete anos.

Jaguar. Aí, quando A Notícia fechou…

Leonardo. Antes de fechar, quando já tava no final…

Jaguar. Eu indiquei ele pro…

Leonardo. Extra.

Jaguar. Quem era o editor?

Leonardo. Eucimar. Que tá n’O Dia hoje.

Jaguar. Eucimar, Eucimar. Um cara fantástico.

Jaguar. É editor de novo d’O Dia, né? Aí o Eucimar falou: “Pô, o garoto é bom”. Aí tá até hoje lá, com um espaço bom, grande.

Leonardo. Sou um latifundiário, né? E todo dia, sem parar, de segunda a segunda, ou domingo a domingo.

Bruno. Tem mais gente dividindo esse espaço?

Leonardo. Não, não, não.

Allan. Isso é desde quê?

Leonardo. Ah, agora não vou lembrar a data, mas o Extra deve ter uns dez anos. Aí todo dia e tal. Mas paralelo a isso tem as revistinhas que eu gostava de fazer. Tanto que você não deve se lembrar disso, mas foi o Jaguar que me apresentou ao Allan.

Jaguar. Como?

Leonardo. Uma vez você foi a Porto Alegre e eu fazia a Criptoris, aquela revistinha, e você chegou de Porto Alegre com a Glória, Glória, Aleluia. Aí você me mostrou a revistinha que o Allan… eram fanzines na época. E ele me mostrou, “tipo o que você faz aí, vai gostar e tal”. Aí fiquei conhecendo e a gente começou a trocar…

Jaguar. Trocar o quê?

Leonardo. … correspondência. Carta e revistinha.

Jaguar. É bom esclarecer, né?

Leonardo. E chegou na F. Chegou depois, quando o Allan veio pro Rio. Depois a gente conheceu o Arnaldo.

Bruno. E tu tá quanto tempo aqui no Rio?

Allan. Eu tô, ahn, desde 99.

Jaguar. E qual a explicação que tem pra isso?

Allan. Pra eu tá desde 99 ou preu tá no Rio? Eu vim com a mulher, vim casado. Minha ex-mulher, na verdade, minha sócia. Mas eu vim pra abrir um estúdio de animação aqui no Rio.

Bruno. A Toscographics?

Allan. A Toscographics.

Bruno. Tu veio com essa ideia?

Allan. É, eu vim com essa ideia. Porque Porto Alegre, o Jaguar falou que o sul tem milhões de cartunistas, tem uma cena gráfica lá muito rica e tal, mas pra você viver disso lá é muito complicado o mercado é bem restrito.

Então você é meio obrigado a fazer esse movimento de se mudar, ou pro Rio, ou pra São Paulo. Eu decidi Rio porque não dirijo, São Paulo, pra mim, é uma coisa muito complicada. A gente preferiu o Rio.

Bruno. Mas tu tava trabalhando lá com cartum, com desenho, e tu quis encarar, viver disso, vir pra cá, como é que foi?

Allan. Não, eu trabalhava lá no estúdio do Otto Guerra, que fez o filme do Angeli, Wood & Stock, estúdio de animação, desde 92, e paralelo a isso fazia quadrinhos, fazia a Glória, Glória, Aleluia e tal. Acho que isso aí foi em 1994, lembro que encontrei o Jaguar e o Angeli, acho que vocês eram júri lá do Salão de Imprensa, Salão de Humor, de Porto Alegre. Aí dei a revista pro Jaguar e ele deu pro Leonardo e aí a gente ficou se conhecendo. Mas, enfim, eu trabalhei nesse estúdio até 1999. E em 99 eu fiz um filme, chamado Deus é pai, bem…

Bruno. Tu fez lá esse?

Allan. Esse eu fiz lá, é. Filme super, assim, sangue doce, fiz sem a mínima pretensão e inscrevi em Gramado e foi selecionado e aí ganhou uns prêmios e teve uma… um filme de três minutos.

Jaguar. Um grande sucesso nacional.

Leonardo. Internacional, ganhou prêmio fora.

Bruno. Eu vi esse filme…

Allan. … antes do Dogma.

Bruno. … antes do Dogma, que tirava onda com os dogmas da igreja, e vi esse filme em Floripa.[9]

Allan. É, eu fiz esse filme… é ridículo assim, filme de quatro minutos e teve uma repercussão boa, suficiente pra, na época, eu e minha mulher, a Denise [Garcia, produtora e diretora de cinema], a gente resolver se mudar de Porto Alegre pro Rio e abrir um estúdio aqui. A gente chegou aqui, pegou uns trabalhos da Globo, fez aquela “A Invenção do Brasil”.

A gente anima os plim-plins do Jaguar e do Nani também. Isso foi em 2003, 2004.[10]

Mas a gente chegou aqui e teve a sorte de pegar logo um trabalho que era “A Invenção do Brasil”, aquela minissérie do Guel Arraes e do Jorge Furtado, nós fizemos as animações. E desde então tô aqui, adoro aqui.

Jaguar. Tatuagens. Você tá com quantos anos?

Allan. 34.

Jaguar. Você, quando tiver a minha idade… eu conheço tatuados, os tatuados têm mania de tatuagem. Ele, quando tiver 40 anos não vai ter mais lugar nenhum pra tatuar, ele vai ter que alugar um anão Hahahahaha pra andar de mão dada com ele.

Allan. Vai ser um post-scriptum.

Jaguar. Agora, explica qualé a tua de se tatuar?

Allan. É que fiquei muito tempo preso e tive que optar entre a sodomia e a tatuagem. Aí optei pela sodomia, mas mesmo assim consegui umas tatuagens de graças. Hahahahaha Não, é porque, na verdade, esse negócio de tatuagem a pergunta é por que não se tatuar?

Bruno. Tu tens quantas tatuagens, Jaguar?

Jaguar. Eu tenho uma tatuagem num lugar íntimo que não posso mostrar, que é o seguinte: é nome de um cara que acho um herói nacional, entendeu?, e que é num lugar que eu não posso aqui, evidentemente, exibir para o público, mas o nome do personagem é o seguinte: Joaquim José da Silva Xavier, vulgo Tiradentes. Hahahahaha Em corpo 12. Hahahaha.

Nani. Quando fica mole fica só Tid.

Jaguar. Aiaiai.

Leonardo. E agora o Arnaldo.

Bruno. Como é que tu chegou a essa turma toda aí, Arnaldo?

Arnaldo. Cara, eu sou totalmente filho das novas tecnologias, porque eu comecei tarde, com certeza com 15 anos eu não tava pronto.

Era péssimo, e continuo desenhando igual eu desenhava quando tinha 15, desenho mal à beça. E comecei abrindo um blog tardiamente, já trabalhando com carteira assinada e subempregos há quase dez anos.

Bom já que agora tinha essa ferramenta pra publicar os meus cartuns, comecei a fazer cartum na internet. E muito rápido, assim, eu conheci o Allan, o Léo.

Comecei a publicar em 2002, em 2003 já conhecia todo mundo aqui do meio porque pegou bem com eles e tal. É isso, sei lá, eu basicamente não tenho uma história. Sempre curti muito, sempre fui atrás. Imagina, desde moleque, era uma das coisas assim, eu queria ser rock star ou cartunista, hehehe.

Allan. Queria comer garotas.

Arnaldo. Também fui mal informado.

Bruno. É um traço mais tosco, e tu gasta mais tempo, ou todo o tempo, na ideia?

Arnaldo. Não, com certeza, quando falam isso eu total me identifico.

Acho que, pô, eu não tenho muito apreço por ficar muito tempo trabalhando ideia. Acho que o Henfil falou isso uma vez também.

O Henfil falava a mesma coisa, que o traço dele era caligráfico. “Se eu sou cria de alguém, sou cria da minha professora, porque eu desenho como escrevo.” E ele gostava de desenhar muito rápido pra se livrar logo da ideia, que ele achava que, no processo, a ideia ia perdendo a graça.

Então quanto mais rápido, melhor. Eu uso isso como desculpa, desenho o mais rápido possível, cenário acho desnecessário e tal, todo o meu trabalho é baseado em diálogo.

Aí a história, me lembro de ter feito o blog, trocar uns três e-mails com o Allan

e aí a gente acabou eventualmente se conhecendo, e aí conheci o Léo, e, assim que a gente se encontrou, viu que tinha um humor meio afim e “vamos fazer uma revista”.

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Bruno. Começa a falar um pouco da F., depois eles também falam. Surgiu daí?

Arnaldo. A F. foi isso, de a gente tomar muitos porres juntos e ter ideias imbecis, essa foi uma das que vingou. “Vamos fazer uma revista” e fizemos, juntamos umas coisas antigas, eu fiz umas coisas novas, porque, comparado aos dois que já tinham anos de experiência, tinha pouco material.

Então eu inventei personagens, inclusive um personagem meu que talvez a Desiderata deva lançar, que sou eu e o Léo fazendo – eu faço as ideias e o Léo desenha – foi feito pra F., que é um cafetão[11].

E nesse meio tempo surgiram meus personagens de quadrinhos, o Capitão Presença, que foi lançado pela Conrad. Então foi uma coisa meio do nada assim, realmente eu num tinha nenhuma história.

Cecilia. O Capitão Presença deu alguma merda?

Arnaldo. Tá respondendo a um processo aí, mas a advogada da Conrad não fala comigo.

Bruno. Processo onde?

Arnaldo. Aqui no Rio. Alguém denunciou como apologia às drogas e tal e aí…

Cecilia. Como é que foi a história com o teu irmão?

Arnaldo. Ah, é. Meu irmão é agente da Polícia Federal, isso foi ano passado, e teve uma apreensão de um carregamento de drogas, LSD, haxixe, não-sei-o-que-lá, e o cara que estava com este carregamento tinha um livro do Capitão Presença. E aí saiu no site da Polícia Federal, “Polícia apreende haxixe, maconha, lsd e gibi”.

Aí é engraçado, porque tem uma foto no site da Polícia Federal que é uma mesa com todas as drogas apreendidas e o Capitão Presença do lado. E eu fiquei puto, porque é um livro, não um gibi. Mas, enfim, rolou esse problema, num deu em nada foi só uma apreensão e não se preocuparam em investigar.

E agora tá rolando essa história de um processo aí, mas eu não tenho ideia da natureza do processo, sei que alguém fez a denúncia como se fosse apologia, enfim.

Allan. Será que incineraram o gibi também?

Leonardo. Ou fumaram.

Cecilia. Vende bem?

Arnaldo. Muito bem. Nos seis primeiros meses vendeu 1.500 livros, que pra quadrinho é um…

 

Boêmia e humor

 

Cecilia. E por que estamos aqui no Mistura Fina, Jaguar?

Jaguar. É o seguinte: eu escolhi aqui para a nossa entrevista ser feita no Mistura Fina, que vai acabar dentro de poucos dias. O bar reabriu no Arpoador. É o último reduto dos boêmios do Rio, os velhos boêmios que sobreviveram, como eu, entendeu? E um bar em extinção, como eu sou um boêmio em extinção. Queria fazer uma homenagem ao último boteco do Rio de Janeiro. Acabou o Chico’s Bar, acabou o Florentino, agora vai acabar o Mistura Fina. Onde nós ouviremos bossa nova e jazz? Sei lá. O Rio tá ficando meio esquisito.

Arnaldo. Você escreveu um livro muito bacana, pegando as tuas colunas d’O Dia, sobre bar, o Jaguar de bar em bar…

Jaguar. Confesso que bebi.

Arnaldo. Confesso que bebi. Fala um pouco dele pra gente.

Jaguar. Aquele livro tem que ter uma reedição, porque é meio antigo, tem uns seis anos, sete anos.

Leonardo. De lá pra cá já fecharam mais bares?

Jaguar. Alguns bares fecharam, outros mudaram de dono, pioraram, tenho que fazer uma….

Nani. Esse aqui vai morrer na quarta-feira? Tem uma frase, “os bares morrem nas quartas-feiras”.

Jaguar. Tem que fazer uma reedição, porque ele não é mais confiável, hehehe. O cara que for acompanhar por ali vai quebrar a cara.

Bruno. Pegando esse gancho da F., tu falou que não tem mais espaço pra cartum, a F., de repente, tem uma proposta… acho que seria essa proposta. Enfim, ela não tem periodicidade, mas tem publicado cartum também. Tu não acha que a saída estaria em revistas?

Arnaldo. Ali não tem política quase, ali, basicamente, é cartum.

Jaguar. A F. é… a minha patroa, uma menina muito bonita, Martha Batalha, tá com a ideia de bancar a F., entendeu? É uma menina muito corajosa, e eu, como consultor de humor, disse “sim”. Agora, vamos ver como é que a gente faz isso. Eu acho a proposta…

Nani. É legal, tá fazendo falta mesmo.

Jaguar. …ma-ra-vi-lho-sa.

Bruno. Eu queria emendar e falar do fato do Rio de Janeiro não ter mais uma revista, hoje em dia, feita aqui. Porque, enfim, a grandeimprensa tá tudo em São Paulo.

Nani. Publicidade, tá tudo em São Paulo.

Bruno. Publicidade tá em São Paulo, mas a gente não tem mais uma revista, não é pros cariocas, mas que tenha o espírito carioca, da mesma maneira que O Pasquim um tempo teve.

Nani. O Ziraldo tentou a Bundas, tentou O Pasquim 21, mas a publicidade vai toda pra São Paulo e aqui, sem publicidade, não sobrevive.

Leonardo. Mas da F., deixa eu falar mais uma coisa. A gente tem uma ideia da F., que vai insistir agora, que é o Salão de Humor Engraçado. A gente fez, [para o Jaguar] você teve lá, o Nani também teve no lançamento, a gente fez o Primeiro e Único Salão de Humor Engraçado, então várias pessoas mandaram desenho, sem aquele critério de salão de humor tradicional, que tem que ser uma coisa gráfica, bonita, bem acabada. Pode ser qualquer piada, desenhada, mesmo no traço mais grotesco…

Bruno. Os salões de humor têm esse negócio?

Leonardo. Tem, tem uma coisa visual, lógico, porque é uma exposição, né?, então tem uma predileção praquele desenho mais bem acabado, bonito, né?, uma coisa gráfica.

Allan. Aí tem problema de cartum a óleo…

Leonardo. E a gente botou o Salão de Humor Engraçado justamente pra isso, pra fazerem as piadas valerem pela piada.

Jaguar. Você não estava aqui quando eu falei. Eu acho que a gente tem que, através da editora Desiderata, preservar algum esquema da F.

Mas eu queria falar isso contigo mesmo, porque a gente vai fazer o Segundo e Único Salão de Humor Engraçado, pra dar continuidade. Porque a gente lançou essa ideia e muita gente mandou trabalho.

Bruno. Mas continuando a revista.

Leonardo. Lógico, continuando. Porque a gente pode fazer tipo um catálogo.

Jaguar. A revista tem um negócio genial, que são as aquelas “Entrevistas em quadrinhos”, na minha opinião, uma das coisas mais geniais feitas com humor.

Leonardo. Não, todo mundo adora, isso é uma ideia do Arnaldo, pegou muito bem.

CHARGE - JAGUAR - Madalena e Jesus Cristo

Jaguar. Você? (apontando pro Bruno)

Leonardo. Não, do Arnaldo, que tava aqui agora e tinha ido ao banheiro…

Jaguar. Ele tá meio transparente…

Leonardo. O Arnaldo sempre foge nessas horas… ele sempre foge.

Allan. Ele é muito pequeno.

Bruno. Levanta, Arnaldo!

Jaguar. Porra, aquilo é muito bom!

Leonardo. A ideia é essa, é continuar essas seções e promover de novo, o Segundo e Único…

Jaguar. Eu quero fazer um livro só com aquelas entrevistas, depois a gente banca a revista.

Allan. Ah, isso é bom.

Leonardo. Estamos aí. Mas o salão tá quase pronto, porque o pessoal continuou mandando desenho, sabe? E eles mandam por internet fica fácil, né?, fica um troço muito prático. A gente só imprime, não tem…

Allan. É que eu acho que a ideia de fazer uma outra F., seria legal vender em livraria, como, tipo uma F. anual, assim, um livro.

Leonardo. A banca hoje é impraticável.

Allan. A banca é um caos.

Leonardo. A banca vende dvd,vende tudo, mas a revista some.

Allan. Tem 2 mil títulos, é bizarro.

Leonardo. O tempo de duração de uma revista na banca é de 40 dias, no máximo, não dá tempo.

Bruno. Falar um pouco dessa dificuldade, essa via sacra, de editar uma revista, fazer circular nacionalmente…

Leonardo. O que a gente conseguiu da última F. na banca foi 5 mil exemplares vendidos, por aí, e um processo.

Bruno. Isso que teve distribuição da Conrad.

Allan. A Conrad tem uma distribuição boa, grande…

Leonardo. Mas uma divulgação assim que também não sustenta.

Allan. Mas hoje a banca é um caos, você não acha nada, tem revista de peixe, de cabelo grande, de cabelo curto, cachorro pequenez, cachorro…

Bruno. Ou aquele esquema da Piauí, que bota um bannerzinho e daí toda a piauí nova tem lá um suporte pra ela.

Allan. É, um esquema de divulgação muito foda.

Leonardo. Tem grana, né? E a Piauí republica uns cartuns da New Yorker.

Nani. Tem que fazer uma pré-venda, entendeu? As pessoas vendem antecipadamente, então…

Allan. Tipo assinatura?

Nani. É, ela vai ser em dezembro, sei lá. Aí, o pessoal mais ligado na revista já manda a grana, já compra o seu exemplar antes.

Allan. Ah, se você vai contar com essa gente você vai se foder, hehehehe.

Nani. Acho que era um espanhol, ele fazia um jornal de humor e vendia pra 200, 300 pessoas antecipadamente. Tinha outro intelectual também que fazia um jornal uma vez por ano, 500 exemplares.

Bruno. É, o que eu ouvi essa semana e achei curioso é que, na música, parece que tá dando certo. O Marylion, aquela banda farofa, de metal, botou isso no site. Falou: “Ó, a gente quer virar independente e quer doação dos fãs pra gravar o nosso disco”. Os caras arrecadaram, com doações dos fãs, um milhão e meio de dólares.

Allan. Mas se a gente depender dos fãs da F., a gente tá…

Arnaldo. Na F., o pessoal reclama do preço da revista. A revista custa 4,90, custava, as pessoas reclamam que tá caro.

Leonardo. Mas isso desde a época em que a gente fazia fanzine. Eu cansei de ver gente xerocando toda a revista, sabe, fanzine, que seja, em vez de comprar. Às vezes você gasta mais dinheiro copiando a parada. E hoje com a internet o cara escaneia lá e distribui aquilo tudo.

Allan. E na F., com esse último número com distribuição boa da Conrad, pô, eu, sei lá, tava em Porto Alegre e aí dava uma incerta numa banca, pra ver se a revista tava lá, uma banca em qualquer bairro. Perguntava: “Tô procurando uma revista chamada F.”

Aí o dono da banca: “F, F… não, não, não tem essa revista aqui”. “Uma revista, que tem o Ronaldinho Gaúcho meio travesti na capa, é um quadrado vermelho com um F.” “Ah, tá.” Aí o cara pegava de trás do filme pornô gay. É muito difícil achar, cara.

Leonardo. O engraçado é que, as pessoas que encontraram a F. sempre “pô, do caralho, onde que acha isso?”. Meus amigos falam “todo mundo que vem aqui em casa e vê, pergunta onde acha”. E ninguém acha, porque é difícil mesmo.

E quando a gente começou, como era um negócio meio independente, então os três primeiros números foram distribuídos assim no braço, né?

E aí teve esse contratempo, porque depois, quando pegou a Conrad a distribuição, nem sempre casou os lugares que tinham a F. antes, que já tinha um pessoal que sabia onde podia encontrar, e não tinha. E aonde ela chegou, as pessoas não tinham recebido ainda. Teve esse desencontro.

Allan. A ideia agora é fazer uma edição anual…que se venda em livraria, porque daí te uma vida útil muito maior.

Leonardo. É, porque a F., na verdade, é uma revista atemporal. Se você pegar, é quase tudo cartum.

Allan, Arnaldo. É, cartum.

Bruno. E pra chegar em livraria o problema é o quê, ISBN, o formato livro?

Leonardo. Essa parte aí é outro problema que a gente, sabe, a gente não tem essa manha. A gente é péssimo comerciante. Nesse lado, a gente só se dá mal.

Allan. É, questão de burocracia, complica. Três idiotas, eu nunca votei, não tenho título de eleitor.

Bruno. Como é que tu vai participar de um concurso público, tirar passaporte?

Allan. Pois é…

Nani. [Em conversa paralela com Arnaldo] Como era o nome do teu pai?

Arnaldo. Aloísio Branco, ele foi secretário do Correio da Manhã, e depois, secretário de redação d’O Globo. E, no interstício, ele fazia crítica literária.

Essa coisa de formação, é engraçado.

Provavelmente, se eu tenho uma influência primeira de ideias engraçadas, ou o que seja, foi mais de literatura do que realmente de cartum, porque eu vim conhecendo aos poucos.

Essa coisa da Senhor, descobri fuçando no sítio, tinha uma coleção lá. Bacana, acho legal que lá em casa sempre se estimulou leitura, cinema. Esses cartuns atemporais que o Jaguar fala, me lembro de um, de perguntar pro meu pai. O cartum é um cara falando aquele slogan da Ordem das Jarreteiras…

Arnaldo. É, “Honi soit qui mal y pense”. Eu não entendia aquilo. Mesmo meu pai explicando, eu não entendia. [para Jaguar] Uma vez ele me explicou um cartum seu, da Senhor. “Honny soit qui mal y pense”.

Nani. “Honi soit qui mal y pense”. “Mal haja quem nisto põe malícia”.

Jaguar. Eu era o único fresco intelectual. Eu não sei como é que não virei viado.

Arnaldo. Já li você falando que ficava angustiado, lia Rimbaud…

Jaguar. Eu era intelectual pra cacete. Por quê? Porque eu tinha asma e, enquanto todo mundo jogava futebol, que eu também queria jogar, ficava lendo Proust.

Allan. Não virou viado por pouco…

Bruno. Bateu na trave…

Jaguar. Por um triz…

Nani. Faltou só uma mão de tinta…

Arnaldo. Só um apêndice da entrevista, não tem nada a ver com nada, mas tem umas histórias muito legais… Tem uma história sensacional, que você matou um cara uma vez.

Jaguar. Matei.

Leonardo. Matou mesmo, ou ficou aquela dúvida?

Jaguar. Matei.

Nani. Com uma pedra.

Jaguar. Todo mundo já sabe dessa história. Então não precisa nem contar, porra.

Arnaldo. Nananananão.

Allan. Explique-se.

Jaguar. Naquele tempo, não tinha motel, então eu levava as meninas para o Morro da Urca. E lá no Morro da Urca tinha umas estradinhas de terra. Agora não tem mais, agora é tudo asfaltado. E eu tava lá transando com uma menininha, ela em cima de mim… Hehehe…

Nani. A lembrança…

Leonardo. Um cavalheiro.

Nani. Ela estava à cavaleiro…

Jaguar. … aí, de repente, aparece um negão, com evidentes más intenções. Olhei assim, tinha uma pedra do meu lado, joguei assim e, por sorte, pegou bem no meio do peito dele, o negão caiu. Era uma encosta. Blambaralambaralam!

“Ih, caceta, onde é que o cara foi parar?” Aí fiquei lendo, no dia seguinte, não saiu notícia nenhuma no jornal. Eu matei o cara.

Leonardo. Não ficou a esperança dele ter ficado pendurado num galhinho, tipo desenho animado?

Jaguar. Mais aí eu teria jogado outra pedra…

Arnaldo. Tinha uma rusga histórica entre você e o Paulo Francis. Vocês sempre se desentendiam…

Leonardo. Tem uma história engraçada. A gente foi entrevistar o Diogo Mainardi. Porque numa dessas “Entrevistas em Quadrinhos”, o Arnaldo fez uma piada da gente entrevistando o Diogo, e perguntando o que ele tinha feito… Como é que era mesmo?

Arnaldo. O que ele tinha ido fazer com um escritor americano em Parati…

Jaguar. O Paulo Francis é um dos caras que eu mais admirei na minha vida. Porque, além de ser um sujeito inteligentíssimo, ele tinha um senso de humor maravilhoso. Eu adorava ele, e acabamos brigando por uma idiotice. Que que era mesmo? Nem me lembro…

Leonardo. Era uma pergunta que te pediram para fazer pra ele, não foi isso?

Arnaldo. Não, aí já tinha a briga. Me lembro duma entrevista para a revista Imprensa, que você fez essa pergunta pra ele: “O que você estava fazendo com um garotão americano em Parati?”.

Jaguar. Não falei de garotão nenhum. Eu só perguntei: “O que você estava fazendo em Parati?”.

Nani. Uma carapuça…

Arnaldo. Aí ele ficou puto, encerrou a entrevista…

Jaguar. … e aí escreveu uma página inteira me esculhambando. “Jaguar é um alcoólatra, não-sei-o-quê…”

Eu sou um alcoólatra, todo mundo sabe, pô! Mas aí ele disse um negócio que eu achei chato, que foi o seguinte: “A mulher dele é uma péssima tradutora”. O que não era, era uma ótima tradutora.

“Os filhos dele tiveram fim trágico.” Não é verdade. Então eu fiquei puto com ele e briguei com ele.

Agora, quando fui fazer as pazes com ele, ele morreu.

Tem histórias muito boas dele. Ele ia pegar um táxi, e o taxista: “Vamos para onde, doutor?”. “Não interessa, vai andando!”

Bruno. Falando em táxi, tem uma muito boa… quando tavas saindo, sei lá, de Ipanema, e tu falou “Belfort Roxo”, a rua de Copacabana, e ele acabou te deixando lá na Baixada Fluminense…

Jaguar. O Paulo Francis é meu ídolo. Uma vez eu estava no… bar ali em Ipanema, famoso…

Nani. Zeppelin?

Jaguar. Não, praça General Osório.

Alguém. Jangadeiros?

Jaguar. Jangadeiros. Aí passa o Paulo Francis, todo cheio de espinha, com aqueles óculos fundo de garrafa, cheio de livros.

E eu de sunga, tomando chope com a rapaziada. “E aí, Paulo Francis, você tá meio verde. Por que que não vem aqui tomar um chope com a gente?” “Intelectual não vai à praia, intelectual bebe.”

Arnaldo. Isso aí você botou no Chopnics. Como era a parceria com o Ivan Lessa?

Jaguar. Ah, era ótima.

Leonardo. Agora voltou a parceria?

Jaguar. É, ele de vez em quando escreve na revista Piauí e me chama sempre. Você sabe que o Ivan Lessa é o último cara que passa trote?

Trote, pelo telefone. Um dia ele me ligou, eu tava na minha podóloga, fazendo meu pé, e ele: “Ô, Jaguar, você tá onde?”. “Tô aqui na podóloga, fazendo o meu pé.” Pensei que era um trote. E ele: “Venha para cá!”. Falei: “Venha para cá, onde?” “Eu estou no hotel tal.” “Ah, porra, não tenho mais saco pra trote. Isso é uma coisa do século passado.” “Mas eu estou aqui, porra!” Aí, estava. Ele veio pro negócio da revista piauí. E aíele queria que eu levasse ele pro Bracarense. Ele veio pro Bracarense, tomou um chope lá… Falou pra cacete. De bengala.

Allan. E você não via ele há quanto tempo?

Jaguar. Trinta anos. Não, há vinte e oito anos. Aí ficamos lá batendo papo e passou, por incrível que pareça, o Luiz Carlos Maciel. Aí o Maciel olhou assim, e eu falei: “Luiz Carlos Maciel, é quem você está pensando!”. Aí o Luiz Carlos Maciel veio, bateu um papo com ele. E o Ivan falou assim: “Porra, conversei com o Luiza Carlos Maciel mais do que conversei em quarenta anos, quando conheci ele.”

Nani. Tem uma história do Ivan Lessa ótima. Na época dO Pasquim – ele trabalhava muito, né? –, chegava de manhã, ficava até tarde, tinha um motorista particular, depois ia embora. Aí ele ficava lá o dia inteiro. Uma vez ligou uma estudante de comunicação para fazer uma entrevista com ele. Ela foi lá, fez algumas perguntas, e ficou aquele silêncio, de certo não tava muito preparada. Aí ficou aquele clima, aquele silêncio, e ela: “Tempo esquisito, né?”. Aí, o Ivan Lessa: “É, bom pra comer pastel de queijo e dar a bunda”. [risos gerais]

Jaguar. Agora, você sabe que a filha dele, Juliana Foster, escreveu um livro que tá vendendo 70 mil exemplares na Europa. Um livro infantil juvenil, na verdade, neta do Orígenes Lessa, filha do Ivan Lessa. E casada com um cara chamado Foster. E eu vou editar esse livro.

Nani. Agora, o Orígenes Lessa escreveu muito livro infantil também, né?. Lembro

dos Trabalhos de Hércules…

Leonardo. O que tinha que ser reeditado era aquela sua série “Aventuras de Jesus”. Tinha outra também, “Lugares Incomuns”. Outro dia me perguntaram se tinha um número dois, mas não existe né?

Nani. Só saiu um mesmo. E o “Aventuras de Jesus” é um livraço.

Jaguar. Você tem? Eu não tenho. O Dom Eugênio não vai gostar. E ele é meu amigo…

Bruno. Jaguar, há pouco tempo saiu um dessas pesquisas científicas, afirmando que “a mulher não sabe produzir humor, mas sabe absorver o humor”. Queria saber o que tu pensas disso, e se podia nomear alguma mulher humorista, se tem pretensão de lançar aí nessa série da Desiderata alguma mulher. Cadê as mulheres? Por que essa falta de mulher no humor?

Jaguar. O humor é o seguinte: é um negócio pra homem.

Alguém. Por quê?

Jaguar. Porque é.

Nani. Eu acho que não…

Jaguar. Há duas profissões que dificilmente mulher entra. O humor é muito barra pesada, é muito duro, entendeu? Porque as mulheres entraram e tomaram conta de todas as profissões. Mas há duas: cartum e… Como é aquele negócio que o cara carrega peso?

Alguém. Estivador.

Jaguar. Estivador e cartum. O resto elas tomaram conta.

Leonardo. Mas no concurso que fizemos, de Humor Engraçado, ganhou uma garota, Chiquinha, que hoje tá na Folha de S. Paulo. Ela faz um humor escroto.

Allan. É escrota, é legal ela.

Jaguar. O humor é uma coisa muito grossa, muito pesada. (apontando pro Allan) Olhaí, esse cara todo tatuado.

Allan. Eu também sou estivador.

Jaguar. Eu sou um cara pesado, ele é um cara pesado. Todo mundo é.

Leonardo. Tem aquela Maitena, acho muito chata.

Nani. Tem o humor infantil, né? Televisão, hoje, é humor infantil. Tem uma censura muito grande.

Por causa do horário, o politicamente correto. Praticamente você não pode fazer piada sobre nada. A televisão é muito visada. Na TV, a gente faz humor muito popular.

Bruno. Mas tem experiências anteriores, que abriram para outro tipo de humor, como a TV Pirata.

Nani. O que norteia a televisão é o Ibope. Você bota piada muito intelectualizada, nego desliga, não entende. O nível do brasileiro hoje caiu muito. Hoje o nível de escolaridade caiu muito. A televisão dá o que o povo quer. Com a TV Pirata, foi um acidente, depois a coisa tende a cair. O próprio Casseta & Planeta que começou de um jeito, hoje… A TV fala pra São Paulo, pro público do Ibope de periferia. Então esse é o norte.

Bruno. O Casseta, por exemplo, cavou seu espaço lá, mas depois se adaptou, sobretudo na questão de fazer piadas sobre programas da própria emissora. Então, eles, de repente, entraram com méritos, mas se adaptaram.

Leonardo. Mas esse negócio de fazer paródias dos programas da Globo não é o problema. Acho que eles nem são obrigados, acho que sempre fizeram, sempre foi feito. Não sei se pelo desgaste de fazer um programa semanal.

Mas aí que tá. A Globo exibe o programa mais subversivo da televisão mundial, aos sábados, pela manhã, que é Os Simpsons.

A Globo passa isso sábado, onze da manhã. Agora, se fosse uma produção de um cartunista brasileiro – podia ser do Jaguar, do Nani, do Laerte, do Angeli – isso não passaria nem na madrugada, em nenhuma emissora.

Bruno. Então é um preconceito colonialista?

Leonardo. Não, não é preconceito nem nada. É descaso, falto de senso, de não ter ideia do que é, sei lá. Mas não vejo pela Globo Os Simpsons, não sei se eles fazem edição…

Nani. Sábado de manhã tem pouquíssima gente vendo TV…

Leonardo. Mas é desenho animado o melhor programa de humor.

Nani. Há outras limitações, como o fato de não poder fazer citações a produtos, que aí já vira merchandising. Não dá pra fazer paródia.

Se você coloca no figurino uma roupa do Homem-Aranha, tem que pagar direitos autorais. Então tem muita coisa que não se faz porque tem certas dificuldades de ser feita. No humor da TV americana eles faze, mas pagam e pagam muito.

Aqui, se a Globo fosse pagar isso, ficaria caríssimo. E o humor hoje pra atender as classes C, D e E, então você não tem um programa pra classe alta.

Leonardo. E TV no Brasil é um negócio muito poderoso. Você tem poucas emissoras. Qualquer coisinha vai atingir não sei quantos milhões, todo mundo vê, e não há qualquer crítica. Passa qualquer coisa e ninguém liga.

Você pode falar qualquer bobagem. Tem um impacto que é na hora, depois passa.

Allan. E vai ter muito católico também…

Nani. Tem um projeto no Congresso que, se a gente fizer piada de gay, pega cinco anos de prisão.

Jaguar. Como é que é?…

Leonardo. Você tá fudido.

Nani. Pois é, já fiz todas que eu queria.

Arnaldo. Imagina o Adão Iturrusgarai… O Adão, ó, top top (fazendo o clássico movimento dos fradinhos do Henfil). Acabou a carreira do Adão.

Nani. É uma deputada de Roraima, e ele tá tramitando. Mas teve uma grita grande e aí pode ser que não vá pra frente. Mas, se passar, posso cair na marginalidade e, se for preso, vou usar um uniforme feito pelo Clodovil.

Então hoje tem essa censura de gueto. É uma censura egoísta, de nicho, porque a humanidade batalhou para ter uma liberdade total de expressão.

E hoje se fazem gavetas, censuras compartimentadas, grupos que querem censuras para algumas coisas.

Isso tá pegando muito, Casseta & Planeta tem problema com isso, e vai ter mais ainda, todos os programas vão ter. Quando faço piadas com gays, com certeza, vêm cartas. Aquela entrevista que o Jaguar deu com o Allan, na Folha de S. Paulo, no dia seguinte tinha uma carta de um gay. Que o Jaguar falou que era contra piada politicamente correta.

Aí, no dia seguinte, tava lá na seção de cartas: “Ah, então o Jaguar é daqueles que gostam de piadas homofóbicas, mexendo com bichinhas etc.”. Quer dizer, o Jaguar nem falou de bicha, mas falou em politicamente correto e o cara vestiu a carapuça.

Bruno. Pegando esse gancho do politicamente correto, Jaguar, como isso funciona? O politicamente correto e a autocensura.

Jaguar. Eu não sei, o que que quer dizer isso, politicamente correto?

Eu sou um cara antigo, né?, antigo. E eu fui casado com uma crioula durante dez anos, e sempre chamei os meus amigos crioulos de crioulos, pô? Pode ser politicamente incorreto, mas, pra mim, é uma maneira afetiva de chamá-los, como chamava todos eles, Zé Ketti, Nelson Cavaquinho, entendeu? Crioulo, afetivamente.

Agora, se é politicamente incorreto, estou pouco ligando. Não quero saber se essa garotada eu estou sendo politicamente correto.

Bruno. E a autocensura?

Jaguar. Uma vez, tive que participar, houve um problema com o pessoal do Casseta & Planeta, que fizeram um disco chamado “Preto com um buraco no meio”.

Foram processados aqui pelo pessoal do Movimento Negro.

Aí me chamaram, eu era amigo de todos eles do movimento, e falei: “Olha aqui, pára com isso, vocês parecem viados. Eles estão fazendo humor. Eu chamo vocês de crioulo e vocês não reclamam. Quando vêm outros caras que fazem o mesmo, vocês reclamam. Para com isso”. Aí pararam.

Leonardo. E era um título perfeito pro bolachão, “Preto com um buraco no meio”. Eles compraram briga também com as feministas, naquela música em que o Bussunda imitava o Tim Maia, “mulher é tudo vaca”. eles compraram briga com todo mundo.

Bruno. Queria passar a bola pra vocês sobre esse negócio da autocensura.

Leonardo. Eu sempre tive muita liberdade, o Jaguar sabe. N’A Notícia era uma zona, pouquíssimas vezes o Monteiro, que era o editor, falava “não, isso aqui é melhor você mudar”. Pouquíssimas vezes, uma ou duas, no máximo. E no Extra, por exemplo, às vezes acontece deles falarem “não, isso aqui pode dar processo e tal”. Mas eu não me seguro. Mesmo sabendo que pode dar merda, eu faço, espero eles recusarem, às vezes até negocio e consigo passar. Ou então espero um tempo, uma que foi vetada hoje, espero uns dois meses e aí mando de novo, na surdina, e às vezes passa. Isso depende da ocasião, da hora, mas não seguro.

Bruno. E tu, Arnaldo, sobre a autocensura, tem inclusive o personagem…

Arnaldo. O Capitão Presença? Com esse lance da maconha nunca tive problema, inclusive publico na revista em que o editor é o Capitão Presença de verdade, o cara pra quem eu fiz o personagem, e a revista é a Tarja Preta.

Então lá não tem censura mesmo, e como é fanzine não ganha respeito e tal.

Mas é complicado. As pessoas que se sentem ofendidas são pessoas que, realmente, não primam pelo senso de humor.

Eu tenho um cartum bobão, com aquela gíria gay “Abalou Paris em chamas”.

Era uma biba muito enfeitada, que dizia: “Hum, abalou Paris em chamas”.

Era uma festa a fantasia e chegou um cara na porta vestido de Hitler e alguém dizia a frase. Piada homofóbica? Pô, num tem nada de homofobia, não posso usar uma gíria gay? A impressão é essa, que se você faz piada que envolva um afrodescendente ou um homossexual parece que você tá corroborando um preconceito que eu nunca tive.

Jaguar. Eu nunca tive problema, porque eu tenho um certo nome, né? Então os caras me respeitam, e eu posso fazer o que eu quiser. “É o Jaguar, pronto.”

Nani. O que dá reclamação é religião, judeu e negros. Judeu, de qualquer lado que você botar, a favor ou contra, vai ter uma carta.

Bruno. E tu, Allan?

Allan. Não tem isso não. Quer dizer, obviamente, você não pode fazer piada de pedofilia, briga de anões, quer dizer, briga de anões acho que até rola…

Bruno. Olha, acho que nem sempre, porque o Pânico na TV teve que cortar aquele quadro com os anões…

Leonardo. O Allan teve um desenho cortado na MTV, o Deus é pai foi cortado da programação.

Allan. É, a MTV me pediu dois pilotos de uma série que eles, teoricamente, iriam fomentar depois. Eu fiz os dois pilotos, um em que Deus ia viajar, deixava Jesus em casa, sozinho, aí Jesus dava uma puta festa e tal, rolavam milhões de merdas. E outro, Deus cortava a mesada de Jesus depois de milhões de anos, “não, você tá muito velho pra ganhar mesada”. Aí Jesus começava a pedir dinheiro emprestado pra Maria Madalena, Lázaro, um monte de gente. O único que se dispôs a ajudar foi Judas.

Jaguar. Eu tenho um cartum que alcançou uma marca histórica. Levou 40 anos para eu poder publicar. Finalmente, eu publiquei, depois de 40 anos.

Allan. Qual era?

Jaguar. Era o Cristo, pendurado na cruz, a Madalena boazuda, com a bunda enorme. E o Cristo dizendo pra Madalena: “Hoje não, Madalena. Hoje eu estou pregado”.

Leonardo. Essa é clássica.

Jaguar. Essa levei 40 anos pra publicar.

Bruno. Publicou onde?

Jaguar. Publiquei na revista Piauí.

Leonardo. Piauí? Não vi lá, acho que não foi lá, não.

Jaguar. Ah, não, foi na revista Argumento.

Leonardo. É, foi bem antes.

Jaguar. Quarenta anos. O Carlos Scliar, que era o editor da Senhor, revista onde eu apresentei a piada, como todo comunista, era moralista pra cacete. hehehe.

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Em 2013, foi reeditada pelo SESC o livro Átila, você é bárbaro, reunindo o melhor do Jaguar. A obra havia sido publicada pela primeira vez em 1956. A equipe Balbúrdia só lamenta terem transcrito a indefectível grafia do mestre para letra de computador

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Bruno Dorigatti nasceu em Blumenau (SC), em 1978. Jornalista, historiador, tradutor, autor de contos. É editor da DarkSide® Books, onde trabalha desde a criação da editora, em 2012.

Trabalhou como réporter e editor do Portal Literal (2005-2012) e do Saraiva Conteúdo (2009-2011). Atuou na produção e comunicação oficial do Rio Comicon, Festival Internacional de Quadrinhos e Cultura Pop (2010-2011). Traduziu o romance Os Pássaros, de Frank Baker (DarkSide® Books, no prelo), a biografia J.R.R. Tolkien, O Senhor da Fantasia (DarkSide® Books, 2013). Com Guilherme Costa, traduziu a adaptação para história em quadrinhos do romance de George R.R. Martin, A Guerra dos Tronos – Volume 1 (Barba Negra/LeYa, 2012); e o conto O hóspede de Drácula (DarkSide®Books, 2012), de Bram Stoker, em parceria com Maria Clara Carneiro. Com seus contos, participou das antologias Liberdade até agora (Móbile Editorial, 2011); Caos Pórtatil (México pela Ediciones El Billar de Lucrecia, 2007); e Contos Premiados (IEL; Corag; UPF, 2013).

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Post scriptum – notas da equipe Balbúrdia

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Publicado em O Dia, 12 de junho de 2015

 

[1] A revista foi publicada entre 2004 e 2006. Veja mais nesta notícia da Carta Capital, sobre uma volta que não aconteceu – ainda, esperamos!

[2] Reinaldo foi FINALMENTE publicado pela Desiderata em 2007. Seu mais recente livro, por aqui.

[3] Sim! Ele CONTINUA!…

[4] Eureka. Há um Jean, o Galvão, do interior de São Paulo, autor de Vó. Sobre o outro, AJUDA LUCIANO!

[5] Sim, 120 anos não é exagero, a Punch começou no século XIX no Reino Unido. Charlie Hebdo e Hara-Kiri surgiram nos anos 1960-70 na França, Hermano Lobo na Espanha.

[6] Jornalista, apresentador de rádio e TV sensacionalista, cristão, conservador, moralista.

[7] Diretor de teatro de revista, autor da peça Liberdade, liberdade em coautoria com Millôr Fernandes.

[8] Foram publicados três volumes pela Editora Desiderata (hoje selo da gigante Ediouro), 1969-1971, 1972-1973 e 1973-1974. Infelizmente, Jaguar não continua seu trabalho como “consultor de humor”.

[9] Dogma 1,99 é um manifesto criado por Allan Sieber e Fabio Zimbres em 1999 que tira uma onda com o movimento de cinema Dogma 95 de Lars Von Trier e Thomas Vinterberg.

[10] Alguém aí lembra, quando começaram a inserir vinhetas com cartuns na Globo?

[11] Joe Pimp só foi publicado na Revista Tarja Preta.

 

Leia também: entrevista por Juan Navarrete, pesquisador mexicano, especializado em humor gráfico latino-americano. Em espanhol.