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Vamos fazer assim, se você não conhece o trabalho da Bianca Pinheiro, acessa aí o Google e procure por Bear +Bianca Pinheiro. Dá um bizu nas capas, nos desenhos, na temática. Foi? Agora, acessa esse blog aqui (isso, clica NESTA frase). Já tá na página com as histórias curtas da Bianca. Viu? Tudo muito bonito, né? Bear tem um desenho limpo, cores lindas e bem repartidas, uma decupagem de páginas bastante trabalhada, né não? Agora, se eu perguntar “Quer apostar 50 pila que essa mina também faz gibis de terror?”, você apostaria? Talvez não, e eu entendo o motivo. Bear e A Vaca Voadora são bons indicativos pra se posicionar do outro lado da aposta. Só que, mano, cê perderia feio. Ela já fez histórias de terror sim. Duas. E fodas.

A Bianca escreveu e ilustrou Dora, publicado via financiamento coletivo em 2014, e desenhou Meu Pai Era um Homem da Montanha, escrito por ela e pelo marido, Gregório Bert, em 2015, publicação independente, na minha opinião, ambos entre os melhores lançamentos dos respectivos anos.

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Lendo os dois, você identifica as referências mais óbvias: Dora lembra Carrie, A Estranha (o filme do De Palma, ok?) e Meu Pai… tem um gostinho de Bruxa de Blair. Ambos excelentes filmes que influenciaram essas duas obras. Mas tem umas curiosidades aí. Primeiro, que a Bianca não é aficionada por filmes de terror. Ela gosta do que já assistiu, mas não é uma fã propriamente dita. Outro lance é que ela nunca assistiu Carrie. Já o Bruxa de Blair, esse, sim, ela assistiu pra inspiração. Mas tratemos do primeiro ponto, que é o que mais me chama a atenção.

O que se espera de alguém que faz uma obra de determinado gênero, é que o autor/autora tenha alguma familiaridade com esse gênero. Senão, grandes chances de cagada pairam sobre o espectador. É como o Cristopher Nolan tentando fazer ação, por exemplo (ou qualquer outra coisa, hihihi). Simplesmente não funciona, não flui. Falta noção do ritmo, da estética, das nuances do gênero.

Porém, loucura pura, não é o caso da Bianca. Se a sua primeira leitura de alguma HQ da Bianca for um desses dois trabalhos, vai ser difícil se convencer de que ela não é habituada ao terror. Porque tudo está muito no seu devido lugar, em especial a noção de mistério.

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A Bianca entende que, para o tipo de terror que ela faz (eu tenho evitado usar o termo “terror psicológico” por causa de umas xaropices que tenho visto por aí, mas não vem ao caso e a Bianca não tem nada com isso, então só pra ajudar a entender do que eu falo neste texto, essas duas histórias da Bianca se encaixam melhor no subgêneto terror psicológico… ufa), quanto menos você entregar o jogo, mais envolto no mistério o leitor fica.

É o tipo de coisa que faz muita gente gritar “Eu não entendi isso, cadê a explicação?”, ou “Roda o final!” (isso foi o que gritaram na sessão de Bruxa de Blari que eu assisti, em 99, aliás), mas, a verdade é que não há necessidade. Tudo o que você precisa saber está bem ali, nada a mais, nada a menos.

Pra ser sincero, este talvez seja o maior trunfo da Bianca, essa noção da dosagem do ritmo, volume de informações passadas ao leitor e um trabalho com a narrativa que faz o espectador imergir na ambientação das histórias. Eu me pergunto como ela consegue medir isso sem ter consumido uma quantia X de terror.

Talvez parte da resposta esteja na Emily Carrol, uma autora britânica que eu e a Bianca gostamos demais e que publicou um gibi de histórias curtas de terror chamado Through the Woods (no Brasil, você pode dar um bizu no trampo dela em uma coletânea muito maneira chamada Contos de Fada em Quadrinhos, publicado pela Galera Júnior, selo da Galera Record).  Through the Woods tem contos magníficos e muitos têm essa preocupação de não revelar o que não for preciso e desenvolver a ambientação, a atmosfera das histórias. Se a única, ou maior, influência da Bianca for essa, ela entendeu bem o recado.

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As histórias dos dois gibis são contadas com um norte emocional que dá maior solidez para o desenvolvimento da trama. Inclusive, não tenho certeza se foi proposital (ou mesmo, se a Bianca já reparou), mas Dora tem como bússola a relação de uma mãe com sua filha, e Meu Pai… traz a relação de uma filha com seu pai.

Enfim, como eu dizia, o cunho emocional é muito importante para as histórias. Em Dora, só a capa já dá uma dica do sentimento de superproteção com que a mãe da garota age durante a história, uma superproteção que chega até a lhe causar um pouco de cegueira. Já em Meu pai… é o abandono e a dúvida que guiam a personagem principal, e é a atmosfera de isolamento que a Bianca alcança, em cima do enredo do Greg, com um puta domínio narrativo e os efeitos de luz e escuro que dão o tom que fazem desse gibi um baita trampo de terror competente.

Se você ainda não reparou, a moça é deveras versátil. Acho que essa é a qualidade que mais combina com ela. Bear é lindo, Dora e Meu Pai… são duas excelentes investidas no terror, e, além disso, a Bianca foi convidada pra participar do projeto Graphic MSP com uma história da Mônica (que sai este mês, na Bienal do Livro de SP) e Dora vai ser republicado pela Mino. Sim, sou suspeito pra falar porque gostei de tudo o que li dela até agora, e como fã de obras de terror, faço aqui um apelo emocionante à autora: abandona o gênero não, fia. A gente quer mais!