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Um tempo atrás, em minhas andanças virtuais pela Amazon, dei de cara com um    mangá chamado Helter skelter, da Kyoko Okazaki. O livro reúne uma história que foi publicada seriada, entre julho de 1995 e abril de 1996, na revista japonesa “Feel Young”. E chegou aqui em terras brasilis no ano passado, pela editora New Pop, em uma edição de 320 páginas por honestos 25 golpinhos.

Claro que eu não tinha nenhuma dessas informações antes de clicar em “comprar”; eu não tinha ouvido ou lido nada a respeito desse gibi, não conhecia a autora – até porque preciso admitir que meus conhecimentos sobre mangá, principalmente sobre mulheres mangakas, são relativamente parcos; esse foi outro motivo, aliás, pra eu ter colocado o gibi no carrinho. Mas claro que a razão principal era mesmo o fato de a premissa ser muito interessante.

É o seguinte: Lilico é uma super top model no auge da carreira. Capas de revistas, campanhas comerciais, participações em programas de TV – no início da história, tá rolando até um disco e uma participação em um filme. Mas a beleza exuberante de Lilico é totalmente artificial: sua figura foi quase que totalmente reconstruída por cirurgias plásticas e outros tratamentos um tanto quanto obscuros. Porém, essas práticas bizarras começam a cobrar seu preço ao corpo da moça e ela se desespera ao perceber que, ainda que sempre tenha sabido que nada dura para sempre, sua data de validade pode ser ainda menor do que esperava. Tem início então uma espiral de loucura e decadência, na qual Lilico arrasta consigo sua assistente pessoal, Hada, e o namorado dela.

Some-se a isso uma empresária preocupada em proteger seu investimento, uma exclusivíssima clínica de estética dedicada ao jet set e um detetive da polícia designado para investigar as várias denúncias de envolvimento da tal clínica com tráfico de órgãos e várias outras práticas proibidas – além de nutrir um fascínio mórbido pela beleza de Lilico, cuja harmonia, segundo ele, não resiste a uma observação mais cuidadosa.

Helter skelter é uma crítica à indústria da beleza, à mídia de massa que valida/perpetua seus padrões, ao público que consome avidamente esses modelos e se regozija diante das tragédias daqueles que um dia foram seus ídolos. Uma protagonista cujo medo da mediocridade e da finitude – compartilhado por tanta, tanta gente – a transformou em um ser perturbado e amoral, numa história recheada de reflexões mordazes sobre ganância, o constante desejo pela juventude eterna e a artificialidade das relações.

Você já viu isso antes, com certeza. Mas dois fatores tornam especial a história contada por Okazaki. O primeiro é o senso de ritmo da autora; fazendo jus ao título, ela leva seus personagens a um crescendo de total perturbação e desamparo, numa balbúrdia (pisk) de sentimentos conflitantes, tanto dos personagens entre si como do leitor pelos personagens – além de desenvolver a trama paralela de modo satisfatoriamente instigante. A trama resultante é um tanto envolvente, também por causa do segundo fator a ser destacado: o delicioso caldo de bizarrice no qual ela está mergulhada – como você pode ter presumido à menção de “tratamentos obscuros”; tem ainda uma boa dose de histrionismo, perversidade e práticas sexuais não convencionais. Nada necessariamente chocante, mas, por vezes, um tanto insólito.

Me chamou atenção também o estilo do traço de Okazami. Meu pouco conhecimento do quadrinho japonês me deixou acostumada com desenhos bastante detalhados e composições com uso constante de hachuras. Mas o desenho dela é leve, utilizando-se de poucas e fluidas linhas – o que se torna um interessante contraponto ao peso da história em si. Ainda assim, seus personagens são tão expressivos quanto pedem os sentimentos extremados que desenvolvem ao longo da trama.

O ponto fraco dessa edição da New Pop fica só para o pouco cuidado com a preparação do texto. A revisão comeu bola em vários momentos – tem até palavra faltando; já a tradução poderia ter atentado à adaptação de modo deixar certos trechos mais fluidos. Nada que necessariamente torne a leitura truncada, mas que por vezes causam certo incômodo. Ainda assim (momento sommelier de lombada), o papel é bom e a impressão é impecável. Então, noves fora, é uma boa edição – principalmente levando o preço em consideração.

Como todo mundo curte uma validação, é justo dizer que Helter skelter levou o Prêmio Cultural Osamu Tezuka, o Japan Media Arts Festival e foi selecionado entre as obras essenciais do Festival de Angoulême de 2008. Totalmente merecido. É uma arrebatadora viagem à insanidade, movida a rancor, solidão e egoísmo, que nos lembra a todo o tempo o quanto o mundo e a humanidade são bizarros e contraditórios – e também por isso fascinantes.