[Vem comigo] Série postal #1, #2, #3 e #4

“E se a gente fizesse postais como se fossem histórias em quadrinhos?”. Imagino que meio assim surgiu a Série Postal, editada e desenvolvida por Ramon Vitral.

A Série Postal tem 12 artistas diferentes e um lançamento por mês e é GRÁTIS (procure). Ramo Vitral é responsável pelo site Vitralizado e parceirão do Balbúrdia na organização do Grampo e teve essa ideia aí de novos formatos pra quadrinhos.

Ele explica que a ideia foi inspirada por esse desafio do New York Times, em que os quadrinistas deveriam fazer uma HQ com apenas um quadro. Aqui em O grito o Ramon comenta um pouco sobre o projeto, bem como no vídeo do Papo Zine e no blog do Rumos do Itaú Cultural, financiador da ideia.

Tenho aqui na minha frente os 4 primeiros: Pedro Franz (janeiro), Pedro Cobiaco (fevereiro), Taís Koshino (março) e Bianca Pinheiro (abril).

Rio, por Pedro Franz

O postal do Pedro Franz era pra fechar a coleção, mas preferi adiantar pro primeiro número por causa do rosto do Temer no quadro inicial. Como torcemos pro sujeito cair, eu corria o risco de chegar em dezembro com um trabalho fora de contexto. Gosto muito das várias camadas de leitura desse postal, dos vários temas que o Pedro aborda em um espaço tão limitado. O Rodrigo Qohen, autor do Parricídio, me disse algo interessante, como essa HQ foi providencial pro início da coleção: ao tratar de fluxos e rios ela serve como uma introdução perfeita para toda a corrente que está porvir. – Ramon Vitral

Franz tem uma abordagem dos quadrinhos pelo viés das artes visuais. Ou será que ele tem uma abordagem das artes visuais pelo viés dos quadrinhos? Ou é tudo isso ou é nada disso?

Ele admite inspiração na mail art (ou arte postal), principalmente Ulises Carrión e Ray Johnson (é de uma frase dele que saiu o título do postal). A mail art é isso mesmo que você está pensando: usar objetos de correspondência como suporte (sendo bem raso na explicação).

A frase do último quadrinho é o que orienta o curso deste trabalho de Franz. Usando a ideia de fluxo do rio e de passagem de tempo, os discursos ouvidos e lidos vão se integrando e mantém o movimento ativo.

O discurso da notícia e da política tem um peso da atualidade que se esvazia com o passar do tempo, tipo o cartão postal com as novidades; mas mesmo assim, guardados numa caixa de sapatos podem ser visitados de novo, dando passeio à memória.

Umas referências sutis se abraçam, como Laurie Spiegel, pioneira da música eletrônica dos EUA, com as fotos digitais organizadas nas redes sociais para apreciação virtual (a isso soma-se que a frase-norte do postal todo veio do Google). O passado corre pro futuro; aqueles que vaiaram a guitarra elétrica de Bob Dylan estavam errados e não prospectaram o que vinha, apenas se agarraram a uma pedra no meio do rio. Mas o tempo erode a pedra, sempre erodiu, sempre vai.

11/16, por Pedro Cobiaco

O Pedro Cobiaco está sempre pensando em quadrinhos, refletindo sobre o que é possível fazer com uma HQ. O que mais gosto de Aventuras na Ilha do Tesouro é a passionalidade aflorada do gibi. Fico espantado como ele conseguiu reproduzir a intensidade de um álbum de 144 páginas no espaço de um cartão postal. E ainda tem aquelas cores matadoras do Pedro, né? – Ramon Vitral

Meu olho pulsa quando passo o cartão de Franz pra trás e surge o de Cobiaco. Cores intensas em vez do azul pálido; formato horizontal em vez de vertical; uma história em quadrinhos propriamente dita.

Que nem um postal que mandamos a alguém, há um discurso direto a um interlocutor. Se trata de um fragmento de uma história que não conhecemos contexto, sua parte inicial, nem sua parte final. É uma peça e com ela vamos imaginar o restante do quebra-cabeça.

É como se no meio de uma roadtrip o Pedro te mandasse um postal e você não conhece os personagens ou a paisagem, só tem aquela data de “11/16” (ou será que não é uma data)?

sem título, por Taís Koshino

Também chamei a Taís Koshino por ser alguém sempre pensando nas mais diversas possibilidades de um quadrinho. Essas reflexões estão explícitas tanto nas HQs dela quanto nos títulos do Selo Piqui, editora dela e da Livia Viganó. Recomendo a todos o making-of produzido pela Taís durante a criação do terceiro número da Série Postal e publicado lá no tumblr do projeto. – Ramon Vitral

O postal de Taís Koshino é outro espanto. As cores chapadas e uma arte que se finge abstrata, mas puxa a figuração e conta histórias justapostas. As linhas brancas do lençol, que são transparentes e não ocultam, saem da mesma caneta que traça a linha da carta a ser escrita e que não sabemos se é enviada, lida e amassada ou amassada pela própria mão que a redige, desistindo assim do envio.

Taís comenta que trabalha com a noção teórica de que o postal teria dois lados indissociáveis: o público – a imagem – e o privado – o texto. Ao optar por não usar texto algum, mas incluir imagens que levam ao íntimo, Koshino mescla as concepções de esfera pública e privada, mas sem perder o fio que a liga aos quadrinhos.

A narrativa despedaçada pelo postal é um pedido de participação ao leitor. O que poderia ser uma história pra se resolver rápido, permanece como elementos justapostos e muitas opções.

Religião, por Bianca Pinheiro

Convidei a Bianca Pinheiro pra participar do projeto pela versatilidade do trabalho dela. Ela tem um estilo próprio, mas cada um de seus quadrinhos possui personalidade muito distinta. A HQ dela pra Série Postal me encanta pela elegância, pelo diálogo criado por ela entre a arte e o enredo, ambos cíclicos e bastante complementares. – Ramon Vitral

Chego ao último postal em minhas mãos. Em preto e branco, uma história em quadrinhos de um página (de um postal) está aqui.

Bianca Pinheiro comenta da circularidade temática e textual da história, que se representa graficamente no meio da “página”. Há também um espelhamento pela grade que a Bianca usa. Coisa fina!

Se trata de ficção científica concentrada: o questionamento pessoal leva o personagem à pesquisa, que gera uma descoberta, que não satisfaz sua pergunta inicial, mas acrescenta outra. Meio como se algumas perguntas não fossem pra ser respondidas e é dessa dúvidas que salta o humano.

Ramon mantém um Tumblr da Série Postal, com palavras dos artistas, processo de produção e fotos dos lançamentos.

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