O homem que foge (JBC, 2017) é um livro edição única da mangaka Natsume Ono que parte de uma fábula fantasiosa pra aterrizar em uma situação bastante simples, mas nada banal.
Esse arranque a partir do fantástico vai sendo desmontado a cada um dos capítulos, até termos a solidez daquela floresta, desenhado em traços retos e seguros.
A floresta, mesmo que vasta, não é intimidadora; o que amedronta é o desconhecido que pode haver ali e o mistério da lenda do urso que só as crianças veem (afinal, urso é jovem) e dos desaparecidos.
Há dança entre floresta e personagens, mostrando o poder do cenário pra esta história. Aliás, o bailar é uma constante na trama: da criança para o adulto, do animal pra o humano, da cidade para a floresta, do convívio para o isolamento.
Os dois últimos pares ainda entregam algo a mais e importante pra história: o muito versus o pouco e como o único pode fazer a diferença (basta um só cogumelo venenoso para estragar toda a cesta).
Essas idas e vindas são visuais também: os planos abertos da mata para os closes e planos detalhe nos personagens e o silêncio soa pelo pouco de texto – Ono normalmente resolve as cenas em ações mostradas em vez da fala – só para citar dois casos.
Apesar do meu interesse nesse vai-e-vem na história, o que faz reler O homem que foge é a arte da autora. A sua narrativa que opta por quadros pouco prováveis só poderia preencher esses quadros com os traços incertos e pontudos.
O desenho detalhado e cheio de hachuras do urso compõe o quadro com um personagem que parece sair das curvas de uma única linha de desenho.
A linha em movimento que parece ser o que desenha os personagens se liberta dos traços retos e duros das árvores, gerando outro embate nessa história de tensões que, no fim de tudo, trata de ter coragem o bastante para fugir por medo.