[1, 2, 3… já!] A iteração como princípio (2)

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© Alexandre Lourenço, daqui: https://roboesmaga.com/category/oubapo/ 

Oficina virtual de quadrinhos potenciais

Coluna para difundir e motivar atividades Oulipo-oubapianas, em que todos possam participar enviando suas produções a partir das proposições.

A ITERAÇÃO TEXTUAL

A iteração é um dos recursos mais simples e mais utilizados em quadrinhos, e já mostrei aqui o uso visual dele. Chamo de iteração seguindo o modo como o Groensteen chamou, a primeira vez, esse recurso, e porque o termo faz eco a teorias de minha predileção (Barthes, Derrida).

Por muito do acaso, esse quadrinho do caro colega Alexandre Lourenço caiu na minha rede – é de 2010, ainda não conhecia o trabalho dele, e não sabia que ele tinha brincado literalmente com o OuBaPo. No caso, a repetição dele se concentra no elemento textual, a iteração textual de que fala Groensteen no primeiro livrinho do OuBaPo, e que o François Ayroles executa aqui:

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© L’Association, 2003. OuPus 2

Vou me repetir só para fixar: a iteração ou repetição pode ser o princípio mesmo das histórias em quadrinhos:

O que nos é apresentado em um livro de história em quadrinhos, é uma sucessão de imagens com motivos recorrentes e frequentemente repetitivos, séries de desenhos nos quais pode-se constatar a recorrência de numerosas figuras gráficas: personagens, objetos, construções, cenários… (Pilau Daures – esse artigo pode ser lido integralmente na Antílope 2)

Na verdade, a repetição/iteração está na base de toda escrita, e aí podemos ver os quadrinhos como uma escrita também: na escrita, é a repetição de elementos mínimos que vão compondo o texto; nos quadrinhos, a repetição de alguns elementos vão dando a coerência interna a cada obra. Mas aí já entro em filosofias que poderia prorrogar no Bartheman, assim que der tempo. Enquanto não dá, só digo que tem a ver com abstração

No caso do OuBaPo, o uso da repetição é para exercitar a potencialidade daquele elemento que se repete, e a iteração textual pode dar o efeito de tédio, comicidade, reafirmação do gesto, e discutir mesmo os sentidos do que se repete – como faz Ayroles, que joga com a polissemia da frase “Vous descendez”, traduzível como o senhor está descendo? baixando o nível, se rebaixando, sendo morto e até passar uma temporada em algum lugar…

Às vezes, a repetição também pode nos indicar um sintoma: “Atenção para o refrão”, já gritava Gal. O que é “papagaiado” em uma determinada sociedade deve ser sempre lido com desconfiança – como as frases repetidas nesse quadrinho abaixo evocam bem:

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© André Dahmer, http://www.malvados.com.br

Uma vez, em uma oficina, pegamos uns gibis da Turma da Mônica e sugeri que a gente separasse os quadros pelos elementos-chave de cada um, ou seja: silêncio, balão com símbolo, onomatopeias, diálogo, gritos. Assim, a gente via, pela repetição, qual era a densidade de cada elemento, o que “pesava” mais. Uma historinha apresentava a Mônica completamente histérica, gritando por duas páginas reunidas de quadrinhos. Ou seja: verificar o que se repete ajuda a entender o que dá coesão à história, como o sentido decorre de poucos elementos distribuídos.

CRIAÇÃO

Pegue uma frase, dessas que estão bastante repetidas. Você pode pensar em provérbios ou lugares-comum para exacerbá-los ou, simplesmente, desnaturá-los.

Fazer um quadrinho em que elas tomem novas proporções a cada quadro. Pensou na frase? Vamos lá?

1,

2,

3…

já!

Mande pra cá: balburdeio@gmail.com

NA PRÁTICA

Na última e longínqua seção, eu apresentei os exercícios de estilo brevemente. Em cursos de introdução à literatura potencial (ou quando quero fazer meus alunos exercitarem a escrita sem nem perceber que estão escrevendo), peço para adaptarem a canção “O cravo brigou com a rosa” nos mais diversos estilos. Foi o que fiz com as turmas do II e IV semestre de Letras da UNEB – Campus XXII, em Euclides da Cunha (noturno). O caráter de oficina (trabalhar junto, grupo grande, leitura em voz alta) sempre alivia as tensões de escrever para um grupo. Aqui, só alguns textos que me enviaram.

Versão confessional da musica: O Cravo Brigou com a Rosa

Alguns dias a traz aconteceu algo que mudou minha vida, meu amigo, preciso te confessar que no inicio fiquei extremamente preocupado diante da situação que eu e Rosa passamos. Foi no jardim em baixou daquela sacada, na presença de todas as outras flores que nos desentendemos, aponto da Rosa sair despedaçada e eu ferido. Tamanha foi a tristeza que adoeci, desmaiei, despertando com o choro da minha querida Rosa sobre meu peito. Naquele momento percebi que ela era a mulher da minha vida, nos tornamos um só, casamos em corpo, mente e espírito.

Ana Paula, Eusébio Andrade, Tamires Ribeiro

 

Sentimental

Aii meu Deus!!! O Cravo e a Rosa brigaram… Na sacada abaixo. O Cravo está machucado! Que sofrimento… E a Rosa, acabada. O Cravo adoeceu não põe se de pé. A Rosa não resistiu, foi visitá-lo. O Cravo não conteve sua emoção, desmaiou… A Rosa com medo de perder seu grande amor, chora. Após todo o susto Rosa admitiu seu grande amor pelo Cravo, então… Fez serenata… O Cravo, curioso, ficou e foi olhar, o amor entre os dois era radiante, as flores fizeram festa, ao vê-los se emocionar… Então decidiram se casar.

Camila, Nadla e Simone

As alunas Monaliza e Camila inovaram apresentando uma peça teatral com uma restrição à mais a que sugeri (“gago”), e não me aguentei nos tamancos de professora e soltei uma gargalhada, com a turma inteira.

[Personagens 1 e 2 são representados, respectivamente, como uma gaga com Alzheimer e uma fanha]

A rosa tava chorando (Personagem 1)

Porque o cravo teve um desmaio (Personagem 2)

Aí a rosa foi visitar… Quem? (Personagem 1)

O cravo! Que tava doente (Personagem 2)

A rosa despedaçada… Por quê? (Personagem 1)

Porque o cravo ficou ferido… Onde? (Personagem 2)

Debaixo da moita (Personagem 1)

Da sacada! (Personagem 2)

Hein? (Personagem 1)

Da sacada! (Personagem 2)

O quê? Da sacada? Ah! (Personagem 1)

O cravo brigou com a rosa (Personagens 1 e 2)

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