[Teteia Pura] Sincronicidade e controle das coincidências ou uma página bem bolada

A ideia pra este texto veio de uma matéria que li na revista Comic Art #4, assinada pelo Donald Ault, sobre o “trabalho invisível” que Carl Barks dispunha nos layouts de suas páginas das histórias dos patos.

Ault aponta o termo “sincronicidade” para explicar aquilo que o próprio Barks chamava de “gimmicks” (artifício, ou truque), que propiciavam flexibilidade e fluxo às suas páginas. Na matéria, ele expande o conceito para significados metafísicos e controle das coincidências que podem enriquecer os enredos, numa matéria que (justamente) exalta as nuances pouco percebidas do Barks.

Aqui vai um exemplo do que ele quer dizer, tirado da própria matéria:

Um dos exemplos usados por Ault na matéria (Pato Donald de Carl Barks v.9: O papagaio contador, Abril, 2017). Não esperava por essa quando viu a página no começo da matéria, né?

No fundo, ele fala de páginas com um planejamento bastante peculiar. Preciso avisar que essa declaração não serve pra diminuir a intenção dela na matéria, ok? O problema é que eu não tenho como (e nem quero) passar o texto dele aqui, por isso, decidi resumir o ponto dele na primeira frase deste parágrafo com dois objetivos: que você entenda de imediato aquilo que digo e explicar a minha intenção com o meu texto.

Enfim, Barks não era e nem será o único a planejar suas páginas de forma única. Com certeza você já percebeu layouts bastante inusitados e variados nas páginas de vários quadrinhos, e não é difícil pensar num autor que trabalhe a página com um olhar pouco comum (Chris Ware, Crepax, Jules Feiffer, etc.), mas não é só disso, da mera exposição dos painéis na página que a matéria, ou este texto, tratam, mas sim, como as imagens se relacionam dentro da página, ou até, o que as imagens transmitem, que coincidências e significados não percebidos estão contidos nelas.

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Olha só como o tiro “atravessa” a página em Soc Monkey (Fantagraphics, 2014), do Tony Millionaire

Um símbolo escondido por linhas invisíveis, formas geométricas que se complementam, uma ligação pouco óbvia entre painéis, é disso que se trata.

É bacana perceber também que nem sempre o autor escolhe a coincidência, mas ela acontece no olhar de quem vê. O próprio Barks negava certos aspectos de layouts de suas páginas que críticos e leitores chamavam de “intencionais”. Em alguns casos, a coisa simplesmente rolava, caía na página sem que fosse proposital.

É uma circunstância relativamente normal de acontecer com quem cria algo, seja um desenho, roteiro, letra de música… afinal, a história não pertence ao autor, como diz o outro. A partir do momento em que algo é publicado, o leitor pode dar um significado à proposta que o autor sequer havia imaginado que existia. São as “interconexões invisíveis”, a abrangência de experiências e significados que dá graça às coisas.

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Com todas essas linhas na cabeça, não consigo ler a página do Shiko pra republicação de O Diabo e Eu (Mino, 2016), do Alcimar Frazão e não ver essa cruz de cabeça pra baixo.

Depois de ler e reler o texto (14 páginas ao todo), me deu vontade de procurar páginas com o mesmo conceito que ele aponta na matéria. Páginas de gibis com um planejamento particular, em que os painéis não são apenas justapostos em sequência, mas pensados de forma a criar um fluxo subjetivo de funcionalidade. É uma intenção bem menos ambiciosa do que a do Donald Ault, bem menos complexa também, mas curti a ideia e comecei a procurar essas “sincronicidades” em alguns gibis da estante aqui de casa.

Como é um trabalho que requer tempo e, às vezes, até demora pra que seja percebido, é possível que eu faça postagens futuras sobre o mesmo assunto, mostrando outros gibis. E outra, quem quiser contribuir, bora mostrar aí as “sincronicidades” que vocês acharam. Vamos transformar isso em algo coletivo! Até porque a intenção maior do texto é fazer alguém que nunca percebeu essas sincronias ver os quadrinhos sob essa nova ótica, e trocar ideias sobre o trem. Bora lá?

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Um pouquinho diferente do tema, mas nessa página do último quadrinho do Lucas Varela, El Dia Mas Largo Del Futuro, dá pra ver como linhas visíveis podem ser trabalhadas na página.
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Em The Collector (Archaia, 2014), do Sergio Toppi, a bala a também “atravessa” os painéis.

3 comentários em “[Teteia Pura] Sincronicidade e controle das coincidências ou uma página bem bolada”

  1. Bem interessante o post. Vou dar uma indicação que talvez, possa ser algo a ver. Nas páginas de serie “Luther Strode” de Justin Jordan – Tradd Moore encontro as construções de páginas muito boas e algumas bem inovadoras atravessando inclusive paginas duplas. Em Legacy of Luther Strode numero 3 tem uma cena de luta épica contra o personagem Shooter de cair o queixo. Com certeza não foi feito sem planejamento mas o efeito é muito bom.

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