[Teteia pura] Minha Vida em 9 Gibis

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SEXO!

Agora que tenho a atenção de vocês, vamos ao que interessa: nossa vida é marcada por várias coisas. Algumas dessas coisas são os produtos que consumimos, certo? Materiais que ditam a cultura, adaptam/modificam o nosso pensamento, esclarecem dúvidas, geram perguntas. Já pra explicar de cara, é disso que se trata este texto.

Esses dias, lembrando dos tempos que comecei a ler gibi, percebi algo que talvez seja óbvio: muitos dos gibis que marcaram a minha vida não são exatamente os meus favoritos. Alguns deles, que li nos anos de criação e ajudaram a me moldar, são, inclusive, de super-heróis. Não vejo nada de errado em supers, só não é o que acompanho mais hoje, e, num resgate de memória, isso foi (ingenuamente, de minha parte) surpreendente.

São gibis muito ligados a um período inocente, em que, ao menos ao meu redor, tinha muito pouca competição intelectual babaca pra ver quem sabe mais, quem conhece o que é mais obscuro, quem podia ser considerado “leitor de quadrinho” baseado na carga que cada um carregava, quem tinha a coleção maior (medição de pau comumente encontrada em meios pseudo-intelectuais). Ler gibi era uma coisa light, coisa que inspirava e espantava o caipira de carteirinha que sempre fui numa cidade em que muita coisa boa demorava a chegar.

Enfim, foi no meio desse passeio mental por esses bons tempos que achei que seria bonito dar uma de Alta Fidelidade e anotar os quadrinhos que tiveram um peso considerável na minha formação. Reforço, esta não é uma lista de meus gibis favoritos. São histórias que, de uma maneira ou de outra, mudaram o meu ponto de vista como leitor, expandiram meus horizontes em relação ao meio, quanto a o que uma história poderia ser, até onde poderia levar, histórias que derrubaram portas e/ou só me emocionaram em algum nível em relação a como estava na época, seja em questão de referências, experiências e hábitos de leitura.

Então, sem mais bronha, tá aí a lista (sem hierarquia) pra quem quiser ver:

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Homem-Animal – Grant Morrison

Muita gente diz que o Morrison é um cara que, ou você ama, ou odeia. Eu amo. Não lembro de ter lido nada ruim, dele. Sou daqueles que acha que o cara é foda em praticamente tudo o que faz. Acredito que muito disso venha da minha primeira experiência com ele. Nunca que eu conceberia um autor se colocar numa história do personagem que escreve, ainda mais interagir com ele. Lembro de gostar de toda a fase, desde as primeiras histórias, muito mais próximas do super-herói clássico. Daí ele começa a mexer com metalinguagem (eu não sabia que se chamava isso naquela época), aparece a história do coiote, e no final ele chuta o pau da barraca. A minha cabeça não conseguiu lidar com aquilo direito. Foi a primeira vez que pensei de forma concreta “O autor pode fazer o que quiser. Não há barreiras.” Até hoje, uma das melhores coisas que já li. Recentemente publicada em 3 encadernados pela Panini, entre 2015 e 2016.

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A Morte do Capitão Marvel

Quem me incentivou a ler quadrinhos foi o meu primo. Ele era quatro anos mais velho (até hoje ele é, HAAAAAAAAAAHAHAHAHA!) e, claro, servia de modelo pro primo mais novo. Ele começou a ler DC e, por alguma ideia maluca, achava que, OU você lia DC, OU lia Marvel. Não podia ler os dois (sem contar que essa era a visão da época: quadrinhos era Marvel ou DC. Justificável até certo ponto, porque qualquer outro tipo de quadrinho praticamente não chegava/existia na cidade). Enfim, ele comprava DC, logo, eu resolvi comprar Marvel. Assim, a gente trocaria e leria tudo (o Homem-Animal que eu li foi dele). Não lembro como soubemos, mas alguma fonte (talvez carta dos leitores em algum gibi) nos informou de que existia A Morte do Capitão Marvel. Pô, é claro que eu precisaria desse gibi. Um dos maiores campeões da Marvel cai! Como? Quem matou o cara? Thanos? Ficamos um tempinho debatendo como poderia ter acontecido. Eis que o meu primo chega um dia qualquer com a informação de que o herói morria de câncer. “Puta, que saco! Sério isso? Câncer mata gente normal, na vida real, não super-heróis! Heróis morrem em batalha! Nem quero mais esse gibi!” Mal sabia eu que esse era o mesmo questionamento que o Homem-Aranha fazia nas páginas da história. E mal sabia eu que, novinho, sem experiência de vida alguma, mesmo sem fazer ideia do que a morte era, o gibi ia me pegar de jeito. Essa é a potência dessa história. Jim Starlin consegue passar o sentimento, o peso, a dor e a onipotência de todos os super-heróis mesmo pra um leigo inocente. A Morte do Capitão Marvel é um gibi lindo, triste, de forte carga emocional e que me sacudiu quando eu não fazia ideia da mortalidade dos super-heróis. Lembro claramente de fechar o gibi e ficar em silêncio, parado no momento, absorvendo a carga. Foi um gibi que me deixou mais humano. A edição mais recente é deste ano e saiu pela Coleção Salvat em duas partes.

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O Cavaleiro das Trevas

Sei que é balaio falar de Cavaleiro das Trevas como um dos melhores gibis que um fã já leu, mas é igualmente inviável não falar. Na época, em que eu lia exclusivamente super-heróis, isso foi uma das expressões máximas que o gênero podia dar. A narrativa era completamente diferente do que estávamos acostumados, o texto era afiado, preciso, não tinha nada pra remover ou acrescentar. A exploração do mito do Batman e proposta do Morcego que o Frank Miller ofereceu ia além do que se esperava de um gibi de super-herói. Em 4 capítulos, o autor explorou questões de dualidade, terrorismo, identidade e, principalmente, de influência da mídia. Porém, apesar de perceber na época, foram temas que cresceram em mim apenas com releituras. O que mais me impressionou na época foi o texto em si, cheio que trechos que me arrepiam até hoje. A Panini lançou um livro com esta série e sua segunda parte, escrita muitos anos depois. A edição mais atual é de 2015.

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Monstro do Pântano – Lição de Anatomia

Vou dividir uma coisa com vocês aqui: em 1997 a casa onde eu morava com minha irmã e meus pais pegou fogo. Perdemos tudo, e perdi toda a minha coleção de gibis. Achei melhor começar do zero do que recomprar o que tinha perdido. Claro que o olho foi maior e sempre que achava algo no sebo que eu tinha perdido, pegava. Enfim, no meio desse caos todo, a primeira coisa que comprei e li foi Monstro do Pântano – Lição de Anatomia. A desconstrução do personagem que o Alan Moore propõe explodiu o meu cérebro. Lembro claramente de me arrepiar com a sequência “Se ele tiver lido as anotações, descobrirá que não é Alex Holland. Que nunca será Alex Holland. Que nunca foi Alex Holland.” Aliás, me arrepio até hoje. Infelizmente, demorei um tempão pra ler a fase inteira do Moore, que é absurdamente foda. Assim como o Homem-Animal do Morrison, também considero até hoje uma das melhores coisas que já li (a lista de melhores coisas é meio grande, viu?). Enfim, o gibi ajudou a manter o gás e não perder o tesão no hábito de comprar gibis. Pelo contrário, me incentivou.  A Panini publicou A Saga do Monstro do Pântano em 6 tomos, de 2014 a 2015. “Lição de anatomia” está no primeiro volume.

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Transubstanciação e Sequelas

No mesmo ano (1997) abriu uma loja de quadrinhos especializada em Blumenau. Pense! Se você não acredita, não te culpo. Até eu tenho dificuldade em acreditar quando lembro. Mas existiu e o dono da loja, amigo meu até hoje, me apresentou, finalmente, a muita coisa que eu não sabia que existia. Maus, quadrinhos italianos, franceses, eróticos, Sin City, quadrinhos do Neil Gaiman fora do Sandman… e quadrinhos nacionais. Foi na loja dele, inclusive, que conheci o grande Henry Japelt, grande fanzineiro underground e morador de Timbó, cidade vizinha a Blumenau. Um dia, na banca, vi o Sequelas, do Lourenço Mutarelli, dando sopa. Achei a capa feia. Abri, achei os desenhos feios. O Ed (dono da loja) insistiu. Levei pra casa e BOOOOOM! Minha cabeça explodiu. Sem perceber, eu estava aberto à loucura. Achei que ia detestar e fiquei de cara. Os desenhos, do nada, ficaram maravilhosos pra mim. Eu precisava de mais. Como o cosmos conspira, na mesma semana achei Transubstanciação no sebo. Daí mesmo que a casa veio abaixo. Aquilo era o oposto de tudo o que eu havia lido até então. Era agressivo, sem freios, sem pedir desculpas pelo o que mostrava. Foi a primeira vez que o desenho, não o texto, me causou uma reação. Não foi uma reação boa, foi um incômodo. Eu amava filmes de terror, amo desde sempre, e aquilo era um terror visual. Era brutal, ácido, com contraste preto e branco fortíssimo, mandando um baita “vai passear” pra anatomia “comportada” dos quadrinhos de super-heróis. Os dois álbuns marcaram o início de uma paixão fortíssima pelo trabalho do Muta, bem como uma caça e o início do amor por quadrinhos nacionais (e daí veio Flavio Colin, Mozart Couto, Laerte, Angeli, Glauco e o escambau). Esse é difícil de achar: a edição mais recente é da Devir, de 2001.

 

Chiclete com Banana

Agora com o gostinho por quadrinhos nacionais na língua, comprava meio que qualquer coisa que eu achasse no sebo. A Chiclete com Banana não demorou a se tornar uma busca incessante, e a maior responsável por isso foi a Laerte, com seus Piratas do Tietê. Ali eu comecei a conhecer o humor dos quadrinhos nacionais, a pegada política que os quadrinhos podiam ter, o humor direto e sem pedir desculpas que me fazia rir em voz alta de tarde em casa. Era uma reunião do underground brasileiro que expandiu muito os meus horizontes como leitor. A Devir fez uma antologia da revista em 10 exemplares, entre 2007-2010, mas se quiser ler este material só caçando em sebo mesmo.

V de Vingança

Assim como Cavaleiro das Trevas, sei que esse é um dos gibis fáceis de se elogiar, mas isso tem um motivo. As propostas do poder e da força das ideias que o Alan Moore trazia foram pra lá de revolucionárias pra mim na época. Bom, tem muita discussão que pode ser feita em cima do gibi e do fato de ele ter passado pro maisntream possivelmente mais do que qualquer outra obra do gênero, influenciando não apenas a cultura pop em si, mas efetivas ações políticas. Acho que tem gente que discorda, gente que acha que muitas pessoas não entendem o que o Moore disse na história. Eu não sei. Acho que se a obra atravessa tantas membranas, ela tem força. Mas isso é outro papo. O ponto é que a fala “Atrás desta máscara existe uma ideia e ideias são a prova de balas” é extremamente inspiradora, me tocou na época e me toca hoje. A Panini botou uma nova edição nas lojas em 2012.

 

O Fotógrafo

Por motivos de grana, passei anos afastado de HQs. Bastante tempo mesmo. Aos poucos, a minha linda esposa passou a insistir que eu voltasse a lê-los. Ela sabia (e dizia) que eu gostava daquilo e que, mesmo com um hiato de tanto tempo, eu devia tentar ler alguma coisa nova, retomar as leituras, ver o que eu achava. Visitando uma banca da cidade, encontro os três volumes de O Fotógrafo. Achei bonito e comprei. Tava barato. Cheguei em casa e li os três numa paulada só. Essa mini é talvez o melhor exemplo do que esta lista representa. Gosto muito foi gibi, não é dos meus favoritos, porém, marcou um momento importante, que foi retomar o hábito de ler quadrinhos. Saiu pela Conrad em 3 volumes: 2006, 2008 e 2010.


Ao concluir o texto, me questiono se o título é coerente. Talvez devesse ser “As HQs que Mais me Influenciaram na Infância e Adolescência”, porque, convenhamos, eu não listei os gibis que eu mais gosto, nem os que me influenciaram além do que listei no terceiro parágrafo, muito menos acho que dá pra encapsular a minha vida nos gibis citados. E olha que, ainda assim, poderia ser um título problemático, porque eu sou ruim de memória e amanhã posso lembrar de um gibi que teve GRANDE influência em mim e não coloquei aqui. Eu, como todo mundo, acho, temos muitos trabalhos e autores que nos tocam e influenciam, mas não vou mudar o título. É mais poético do jeito que está. E não machuca brincar com poesia de vez em quando.

Se você, que leu o texto, quiser dividir a sua experiência de criação com quadrinhos, fique a vontade. A gente ia adorar saber como os quadrinhos influenciarama sua vida, ou, ao menos, parte dela.

4 comentários em “[Teteia pura] Minha Vida em 9 Gibis”

    1. Upa, Guilherme. Desculpa a demora na resposta. Lapso meu aqui 🙂
      Pois é, engraçado repassar essas le,branças e ver que tem muito gibi da infância que teve um impacto tão forte e muitos ainda se sustentam até hoje!

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