[Vem comigo] Im Land der Frühaufsteher

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Na capa do livro, um homem negro nos dá as costas, sentado sobre um colchão? Seu cílio longo nos dá a impressão de que ele percebe quem chega por detrás, ou nós, os voyeurs dessa cena. Com ele, diante dele, outras pessoas negras, pardas, amarelas, todos olhando para o outro lado, e não apenas o homem que toma boa parte da cena parece olhar de esguelha para esse observador fora do campo de visão. Pois Im Land der Frühaufsteher, de Paula Bulling (Avant Verlag, 2012), nos convida a observar essas pessoas, junto com o olhar de Paula, em um quadrinho-documentário poético.

Podemos traduzir literalmente Im Land der Frühaufsteher como “o país dos primeiros pássaros”, querendo dizer aquelas pessoas que madrugam. O nome é o epíteto,do estado da Saxônia-Anhalt, na Alemanha, inventado pelos governantes, não tem muito tempo, em uma grande estratégia de marketing para “ressignificar” o fato de ser praticamente um estado-dormitório, em que a maioria de seus cidadãos tenha que levantar-se mais cedo que a média nacional, só para ir trabalhar.
Mas lá também é o lugar para onde são enviados imigrantes ilegais, mas o slogan não quer falar desses, os “primeiros pássaros” são os próprios alemães autóctones que acordam mais cedo para trabalhar em outras regiões. E se de noite os alemães dormem cedo para que deus os ajude, durante o dia o lugar é um verdadeiro purgatório para uma enorme massa de estrangeiros, que ali aguarda a validação de alguma possibilidade de trabalho, alguma garantia de subsistir para longe de qualquer miséria de onde venha fugido.
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a capa do livro, a mesma nas edições alemã, finlandesa e francesa
Bulling acompanhou durante algum tempo algumas dessas pessoas, investigando as condições de (sobre)vida deles. Logo no começo, há um choque com um desses estrangeiros que a interroga por ser mulher alemã, sozinha, em um bar, e numa área predominantemente habitada por africanos. Nesse momento, ela lhe explica, e a nós também, sua intenção de desenhar a história deles. Dali em diante, ela – e nós – se torna sobretudo a documentarista, observadora. Mas que se pergunta, que volta e meia aparece, tentando não apenas mostrar, mas também modificar o que vê.
Entre grafite e tinta, o desenho se enche de texturas acinzentadas, Paula Bulling tenta tornar visível essa gente varrida para debaixo do tapete. Um retrato bonito mas triste, muito triste.
***
Há exatos treze anos, assisti a derradeira conferência de Jacques Derrida, filósofo argelino que escrevia em francês, no Rio de Janeiro. E ele falava de hospitalidade incondicional, de uma política por vir que aceitasse o estrangeiro sem condições. O contexto de sua fala eram os imigrantes clandestinos na Europa, ou os tribunais pós-guerra na África.
Essa hospitalidade que esses estrangeiros vêm pedir é reflexo da guerra que esses mesmos hospedeiros causaram em suas terras, há tanto tempo. São questões de ética que demonstram a grande ferida aberta pelos imperialismos. Paula Bulling faz parte de um enorme grupo de autores que tenta pensar essas questões pela arte. Mesmo que nos doa.

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