[1, 2, 3… já!] Jochen Gerner

Oficina virtual de quadrinhos potenciais

Coluna para difundir e motivar atividades Oulipo-oubapianas, em que todos possam participar enviando suas produções a partir das proposições.

 

Não paro de falar de Jochen Gerner, mas parece que não é o suficiente. Pois então: precisamos falar sobre o Gerner.

ERUDIÇÃO

Francês, mas francês ali na fronteira com a Alemanha, quadrinista, mas também artista plástico premiado (ano passado, venceu o Prêmio Drawing Now Paris, veja aqui), é um autor que gosta de transitar entre seus campos de atuação. Mas a melhor definição que já li dele é de ser um “ilustrador oulipiano”.
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Gerner se desenha com Killoffer no festival de quadrinhos de Bastia. No Oupus 4

Um dos membros mais ativos do OuBaPo, Gerner sempre parte de uma restrição (a ideia-chave do OuBaPo e do OuLiPo) para criar alguma coisa. Em geral, ele parte de um material específico, um produto cotidiano, desde panfletos atolados na sua caixa de correio, catálogos da IKEA, livro infanto-juvenil, Tintin na América, e depois começa a cobrir esse material, ou o recorta, o recria.

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François Ayroles desenha Gerner: um apaixonado pelo papel milimetrado, o que muito revela sobre sua prática. Moments clés de l’Association, de Ayroles.
É a prática do détournement, empréstimo da Internacional Situacionista, seu principal método de trabalho, isso de intervir sobre um dado material e modificá-lo. Mas, além disso, ele adiciona uma restrição específica. Por exemplo, reinterpretar um quadrinho a partir de seu movimento, recriando-o com pictogramas, criando um diagrama do que acontece ali.
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Adaptação de © L’Association, Jochen Gerner, 2008
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A página interpretada de Zig et Puce, de Alain Saint-Ogan, 1925
Em oficinas, propõe, por exemplo, recriar um álbum de Hergé a partir de alguma restrição.

…. partir de páginas de Hergé em que, no primeiro quadro, Tintin e os outros estão em um carro que cai num lago. E vou dizer [aos alunos]: “como vocês pensam ser possível modificar todo o quadro partindo do princípio que eles morreram e não voltam à superfície no segundo quadro? Tentem reconstruir, redesenhar, toda a história, pensando em uma nova história, mas guardando os mesmos ângulos de todos os outros quadros. Salvo que não há personagens, pois eles morreram, e ver como é possível construir alguma coisa com isso”. Ou outra coisa, tentar reinventar a história. Acho que é mais simples se mostro [aos alunos] uma imagem para se guiar, depois trabalhar com o estilo de cada um e tudo recompor.

Não é apenas criar uma história: é analisar esse material. Assim, ele explora o potencial ensaístico das histórias em quadrinhos. Para além da ordem narrativa, a ordem plástica de seu trabalho dá a ver uma análise, uma dialética; ele nos ensina a ver coisas nessas imagens que habitam nosso cotidiano.

 

Próximo livro de Gerner, a partir de suas composições semanais para o Jornal Le 1.

 

Aqui, segue uma lista nada exaustiva de seus trabalhos, entre livros e estudos.

 

1 TNT en Amérique, de 2002, é seu livro mais famoso. Ele “censura” todo um livro do Tintin (na América), deixando visíveis o que era praticamente tabu, ali: elementos de violência.

© L’Ampoule, Jochen Gerner

TNT en Amérique, l’Ampoule, 2002.

Brasilia
Um caderno de viagens de uma residência na capital brasileira, em que ele alterna com a imagem que ele tinha da cidade: cenas do filme O homem do Rio (Philippe de Broca, 1964), que mostrava a construção do sonho de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer numa história policial.
© Jochen Gerner, Les Requins Marteaux
Brasilia, ventura ventis, les Requins Marteaux, 2005.
3 Relectures
Em uma curta série, ele nos mostra interferências nas leituras de alguns quadrinhos. Ali no La Marque Jaune, de Edgar P. Jacobs, ele enxerga elementos de Hergé, Fritzlang, Hitchcock, Ray Bradbury. Coisas do zeitgeist ou referências. Ele também vai tentar ver obras posteriores, entre suas visões de um olho treinado pela história da arte e sua imaginação muito criativa.
© Jochen Gerner
4 Panorama du feu/Panorama du froid
Pintando por cima de capas de gibis antigos (anos 1950) e sem nenhuma referência a autor, Gerner apresenta um cenário de guerra, da guerra fria (o panorama é do Fogo). Que desemboca em sua série Panorama do Frio, em que um pós guerra atômica teria feito a terra entrar em uma nova era do gelo. Nessa segunda série, ele pinta sobre cartões postais de paisagens diversas.
© L’Association, Jochen Gerner
Barcelona – Parc Güell © L’Association, Jochen Gerner
Panorama du feu, l’Association, 2010.
Panorama du froid, L’Association, 2013.
5 Grande Vitesse também é um caderno de viagens, mas em que Gerner anotava tudo o que via a sua frente em viagens de trem.
Grande Vitesse, l’Association, 2009.
6 Snark park
Uma série antiga, que era sua coluna fixa na revista Les Inrockutibles, de música e cultura pop.
1. Nós discutíamos então sobre produção paraliterária e valores da história em quadrinhos/ 2. Esse produto de consumo é frequentemente engolido sem reflexão e em grande quantidade por fanáticos monolíticos./ 3. Meu interlocutor rejeitava em bloco a história em quadrinhos . E ponto final. Só com uma exceção./ 4. Uma exposição de desenhos originais de Spiegelman que acontece em Paris.
Tem até papapá ali.
Snark Park, éditions Automne 67, 1997.
7 Editor da Mon Lapin de novembro de 2013
Para essa edição, ele convidou vários artistas iniciantes para fazer quadrinhos entre a cidade e o campo, do mais figurativo ao mais abstrato, convidando-os a pensar formas diferentes de ver o quadrinho.
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8 Le Saint Patron
Pela catalogação da imageria e imaginário em torno do patrono de sua região, São Nicolau, ele tenta entender e nos faz descobrir a história visual da Lorena. Entre santinhos, doces e arquiteturas.
© Jochen Gerner, L’Association
9 En ligne(s) e Branchages
Ao longo dos anos, ele acumulou desenhinhos em cadernos deixados ao lado do telefone. E são esses caderninhos que compuseram esses livros, a verdadeira tradução para quadrinhos da “escrita-automática” surrealista.
Branchages, carnet de dessins téléphoniques (2002-2008), l’Association, 2009.
En Ligne(s), carnet de dessins téléphoniques (1994-2002), l’Ampoule, 2003.
10 Contre la bande dessinée
Eu não ia deixar de falar do livro sobre o qual me debrucei para fazer uma TESE. “Contra a história em quadrinhos” é feito apenas de citações alheias, que ele foi recolhendo durante muitos anos. Ah, mas disso, acho que já falei bastante.
© L’Association, Jochen Gerner
Contre la Bande Dessinée, l’Association, 2008.

PRODUÇÃO

Ando #xatiada que não recebo mais produções pra cá. Lembrem-se que Congestionamento, do André Valente, virou até zine comentado por . Mas, enfim. Usando material das oficinas que damos por aqui, ali. Essa foi uma oficina que o Lielson presidiu, no Hostal Sopro de Iemanjá, em Salvador.
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Éramos 10 pessoas, e a ideia era que cada um escrevesse uma frase e completasse a do outro. Em um minuto. Não valeu muito como OuLiPo porque a gente tinha que ter forçado mais uma restrição, mas o Lielson amoleceu porque era a última atividade e tinha pouco tempo. O resultado são dez textos, feitos cada um por vinte mãos.
Mande seu trabalho oubapiano para eu postar aqui, poxa.

CRIAÇÃO

Détournement

Pegue um quadrinho popular. Qualquer um. Gernianamente, resuma-o em uma lista: você pode reunir apenas as onomatopeias, só as personagens femininas, só o texto, só as imagens. O importante é tentar ver o que obseda o desenho, seu sintoma, tentar revelá-lo ou transformá-lo em outra coisa.

Vamos lá?

 

1,

2,

3,

JÁ!

No aguardo da sua produção!
balburdeio@gmail.com

 

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