[Vem comigo] O Idiota

André Diniz me sai com uma adaptação de Dostoiévski em quadrinhos, com 400 páginas quase sem texto. Ousado! Se trata de O Idiota (Quadrinhos na Cia, 2018).

Mas vem comigo praquele contexto gostoso: existiu no Brasil um momento que o governo, além de chegar ao poder por voto direto em vez de golpes legalista, também comprava uma pancada de livros pras escolas, via o programa chamado PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola). Em algum momento, esse programa aí resolveu comprar livros de histórias em quadrinhos.

Esse ação governamental gerou a reação editorial de produzir loucamente adaptações de literatura para os quadrinhos (embora o PNBE não comprasse tanta adaptação assim, parece que o entendimento natural de HQ + escola é =  a adaptação literária em quadrinhos, pensada como facilitador de leitura da obra literária [quem disse que tem de facilitar a literatura deveria ser obrigado a ler a literatura fácil que defende {zoeira, ninguém deve ser obrigado a coisa alguma}]).

Esse manancial de literatura em quadradinhos tinha desde coisas espetaculares tipo Noite na Taverna e o Alienista, até outras adaptações meia-bomba do… Alienista (minha última contagem tava em 6 adaptações dessa novela do Machado de Assis). Como a fonte secou, as adaptações foram rareando. As adaptações voltaram a ser projetos das próprias editoras, mas com outros objetivos e bastante liberdade criativa (tipo Dois irmãos, adaptação da obra de Milton Hatoum por Fabio Moon e Gabriel Bá) ou por que o quadrinista tava a fim.

Tipo, o André Diniz e O Idiota.

Sempre fiz piada com a quantidade de páginas e de palavras que os romances russos do século 19 têm e aí a proposta do Diniz é embalar a coisa toda basicamente com desenho, deixando de lado o texto. Preciso avisar que não li esse Dostoiévski, mas que tô de boas, porque gosto de pensar que uma adaptação vale quanto pesa como quadrinho.

Vou pular o protocolo de resenha que é a parte de que eu falo do enredo. Só vou dizer que a trama é massa, e trata de um mundo que não permite o bom de coração Míchkin, visto como ingênuo e quixotesco. Acho que o que vale mais aqui é como os personagens reagem às situações que lhe são impostas e, principalmente, como o Diniz coloca isso narrativamente em quadrinhos.

A aposta do autor é no preto e branco, com o desenho baseado em alto contraste de massas de preto versus massas de branco, sobre isso, um cinza pra dar volume. O texto é mínimo e mesmo os diálogos importantes são resolvidos na expressão facial e gestual dos personagens, tudo no desenho. E pensar que uns 10 anos atrás o Diniz só roterizava!

Gosto particularmente da decupagem de O Idiota e das páginas com mais áreas brancas, porque, me parece, são um refresco ao cinza e os tracejados em algumas partes. Também bato palmas pros quadrinhos mais destorcidos, com escadarias que parecem desconhecer começo.

Mesmo sem usar o texto VERBAL, O Idiota em quadrinhos é um catatauzinho (um dos títulos brasileiros com maior número de páginas: 416 páginas), que nem são os romances de Dostoiévski. Até nesse sentido, há uma relação entre original e derivado. E o sentimento no fim do livro me foi uma coisa estranha, meio “qual é desse livro?”. Uma das minhas reações favoritas.

Ah, pra quem quiser dar uma espiada, no site da Companhia das Letras tem o comecinho do livro.

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