[Vem Comigo] Manifesto Comunista em Quadrinhos

Leitores de todo mundo, uni-vos: um espectro ronda a América do Sul – o espectro do comunismo! Chega no Brasil Manifesto Comunista em Quadrinhos (Veneta, 2019, notas e tradução de Rogério de Campos), do britânico Martin Rowson. Justamente quando nunca se gritou tanto “comunista” e “vai pra Cuba” pra pessoas que muitas vezes nem são comunistas, apenas contra a ultradireita ou que só discordam mesmo de algum autoritarista.

Aliás, esse papo é meio de maluco, porque tem gente conservadora e de direita sendo chamada de comunista por aí. Parece que tem um espectro (não, não é aquele mesmo) que vai de esquerda à direita e tudo que estiver a sua esquerda é comunista, não importa se você é um liberal conservador que acredita no estado mínimo, se quem grita estiver mais à direita. Se você achou isso confuso e não entendeu nada, fique tranquilo que tamo junto, porque ninguém tá entendo coisa alguma.

Entre gritos e xingamentos, o que toda essa revolta contra as ideias comunistas faz é simplesmente avivar essas mesmas ideias. Assim, esse textinho de 1848 segue firme com suas frases e imagens emblemáticas. Se um curioso resolver entender melhor o que é o comunismo antes de sair distribuindo etiquetas pela rua, pode encontrar algo bastante surpreendente nos conceitos.

O quadrinho de Rowson tem uma missão cascuda: como transformar o panfleto político de Marx e Engels em uma história em quadrinhos? Leve em consideração o seguinte: à parte de se concordar ou não com as ideias comunistas ou, ainda além, com o marxismo, é preciso ser muito tacanho pra não reconhecer o poder retórico e estético desse texto e dos outros escritos de Marx. Além das proposições que mudaram a forma do mundo inteiro pensar, nosso comunistinha favorito é um autor de fraseados poderosos.

Sintetizando: Rowson teria de criar uma relação dialética entre imagens e textos, sem que as palavras ficassem sublevadas pelas artes. Ninguém falou que a vida é fácil pros trabalhadores da arte sequencial.

(Lembrando que Rowson não foi o primeiro a adaptar o texto fundacional de Marx&Engels para quadrinhos. A Brasiliense publicou em 1990 a adaptação de Ro Marcenaro e a L&PM publicou em 2013 uma versão turma jovem Marx&Engels mangá.)

O que o britânico faz é mais ilustrar blocos de texto com imagens potentes e que metaforicamente cobrem o ideário de esquerda. Minha leitura da obra é que os quadros e as páginas se articulam pouco solidariamente entre si pra eu me sentir a vontade de encher a boca pra chamar o livro de “história em quadrinhos”, embora existam diversos elementos tipicamente quadrinísticos, como personagem recorrente, balão de fala, quadrinhos propriamente ditos, diferentes tipografias, onomatopeias com arte própria e, no final, uma verdadeira sequência de páginas inteiras com imagens consequentes.

Mas aquela, né: e daí se não é EXATAMENTE um quadrinho? A arte de Rowson tem a manha de chargista/capista/ilustrador, e dialoga muito bem com as palavras. O Manifesto Comunista em Quadrinhos é mais um oportunidade de acessar um texto que, pelo repúdio ou pela atração, pela execração ou pela adoção, se prende aos séculos 19, 20 e segue pelo 21. Embora, dialeticamente, coloco uma anteposição aqui quanto ao valor do Manifesto Comunista:

Todo mundo tem direito a tomar café de manhã, almoçar e jantar. Está na Constituição. Todo mundo tem direito de ter uma casinha, por mais humilde que seja. Isso está na Constituição. Todo mundo tem que ter oportunidade de estudar. Tá na Constituição. Então, quem quiser fazer uma revolução no Brasil, não precisa ler o Manifesto Comunista nem nenhuma cartilha trotskista. É só pegar a Constituição e saber que ela permite fazer o que precisa ser feito neste país. Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao Sul 21.

Tudo que é sólido desmancha no ar, por isso que se queimam e proíbem livros, pessoas podem ser presas e censuradas, mas as ideias não desaparecem, elas rondam como um espectro.

Agradeço à editora Veneta pelo envio do álbum.

PS: se alguém quiser que eu vá pra Cuba, manda passagem pra dois que não vou sem a Maria Clara.

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