[Vem Comigo] 11:11

Uma coletânea nacional de terror com quatro artistas que a gente (quero dizer eu) não pensa de primeira que fazem terror: Diego Sanchez, Felipe Portugal, Jéssica Groke e Lalo.

Existiu um tempo em que eu fazia muita resenha aqui sobre os livros que tinham saído. Agora numa certa revertida temporal, tão bem ajustada aos nossos anos de pandemia em que vivemos 50 anos em 1 – e parece que não vivemos nada –, vou falar de um quadrinho que pode sair. Ou melhor, que deveria sair. Diria até que ele precisa sair.

Então, direto ao ponto: o projeto tá no Catarse. Chega junto e colabora pra que o livro saia (toda essa frase é link direto pro financiamento coletivo do 11:11. Bora!).

Daqui pra frente, vou resenhar o quadrinho, sem me ater a muitos detalhes (agradeço a gentileza do quarteto ter me enviado o PDF da coletânea), mas se você é o tipo de leitor que prefere não saber coisa alguma, só vai no Catarse, apoia e espera o livro chegar.

Já se você é o tipo de leitor que gosta de saber o que tá rolando num material antes de conferir, vem comigo.

Cada artista faz uma história que não tem relação direta com a outra, a não ser por um detalhe que deixo pra quem ler o texto pinçar. A primeira coisa que me chama a atenção é que não achava que esse povo faria terror; daí, pensei melhor.

Jéssica Groke, em 11:11

O Babilônia, da Jéssica Groke (independente, 2018) é um quadrinho sufocante, em um cenário que o lápis da Jéssica vai apertando a gente, que nos deixa com pouco ar. Jéssica traz um ambiente opressivo lá, em uma perspectiva absolutamente urbana. Isso retorna em “Concreto”, o conto dela pra 11:11. Mas, dessa vez, ela deixa a gente apertado do lado de fora do prédio. Talvez “Concreto” seja ainda mais tenso que Babilônia. Sei lá. Só sei que a Jéssica me mantém tenso com aquele seu traço entre o acadêmico dedicado e a liberdade do que o instinto dela pede.

Felipe Portugal, em 11:11

A gente respira fundo na página preta e já tá andando em “Uma Coisa Grande na Vida”, do Felipe Portugal. Esse eu achava que o terror era algo mais próximo, porque o Felipe brinca com gêneros para fazer quadrinhos esquisitos, tipo Rubik (Ugra, 2020 ((deem uma sacada no Instagram do cara também)). O desenho dele, com grandes massas de preto e sombras em cinza sólida, em cenários detalhados, com esses personagens meio sem rumo, já me jogam num mundo bastante peculiar, em que qualquer coisa pode acontecer. Se a Jéssica me punha tenso, o Felipe me deixa ansioso, porque algum coisa vai acontecer e não vai ser agradável.

Lalo, em 11:11

Eu saí meio atordoado da segunda história, que fora o lidar com diferentes terrores, não conversa necessariamente com a primeira. Isso me deixa sem saber onde posicionar minha expectativa em relação a “Saimento”, da Lalo. A história é um suspense de família do subúrbio, que me relevava justamente o que eu não queria que se tornasse verdade; é como se minha razão entendesse o que vem , mas minha emoção preferisse outra coisa. Lalo tem o desenho mais solto da coletânea, muito dinâmico, em uma história de andamento lento. Esses dois paradoxos (razão x emoção e dinamismo x estático) conduzem a história de forma muito inteligente e trazem, pra mim (sempre bom lembrar), o melhor trabalho da artista até aqui.

Diego Sanchez, em 11:11

Chego à última narrativa: “O Banquete”, de Diego Sanchez. Também não esperava uma história de terror de Sanchez, mas aí pensei melhor e descobri que era óbvio que a crueldade perene e o distanciamento moral das histórias do autor em algum momento iam render uma peça tão brutal quanto essa. O desenho do camarada, apegado a pontos e linhas retas, todo contido, contrastam com a liberdade das elipses e semicurvas da Lalo. O desenho preciso, o texto solto e o absurdo em toda a história me fazem pensar que a coletânea não poderia ter escolhido uma história melhor pro seu encerramento.

O terror que esse time aqui trabalha, não é aquele mesmo das revistas de horror clássicas dos grandes autores dos anos 1970 e 1980, mas uma outra percepção do que é o medo. Em 11:11, todas as histórias se valem de ambientação, seja pela figuração direta do cenário, seja pela criação desse ambiente pelo estilo e pelo traço de cada mão que desenhou.

Sem abandonar nenhuma vez seus estilos, seja de traço, seja de narrativa, justamente em um gênero que entrega tantas vezes o mesmo (e se espera que se entregue o mesmo de novo e de novo), 11:11 mostra que tem muito lugar pra se visitar, que tem muito terror pra experimentar.

Publicado por lielson

Francisco Beltrão (1980) - Curitiba (2000) - São Paulo (2011) - Salvador (2017) - São Gonçalo (2018) - Santa Maria (2019).

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