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Foi muito difícil escrever sobre Dupin. O gibi dá margem pra mais de uma interpretação e eu queria muito expressar o que eu entendi como o verdadeiro sentido da obra. Como esse sentido tá escondido em detalhes e entrelinhas, destaquei dois momentos que, pra mim, são os mais fortes e os mais indicativos da essência do livro. Obs: esta não é uma resenha pra quem não leu o livro, logo, tem spoilers.

Dupin

O conto Os Assassinatos na Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, é o ponto de partida de Dupin. Só que os crimes não são o cerne da HQ. Não é uma obra policial. Na verdade, eu mal chamo de adaptação. O que o Melite (o autor) faz é se basear no texto original, seu núcleo, pra contar outra história, uma sobre infância e inocência. Acredito que seja possível perceber isso a partir do relacionamento entre os protagonistas e a forma como interagem com o mundo ao redor.

Comecemos pela sequência em que Gustave ouve Eduard citar os depoimentos das testemunhas dos assassinatos, mas imagina que as palavras saiam dos brinquedos do primo, bonecos de super-heróis e vilões. Pra mim, isso grita uma ideia de valorização da criatividade. É uma brincadeira que não condiz com a postura sóbria e extremamente madura do personagem, madura até demais para sua idade, porém, no fundo, ele ainda é uma criança. Essa é a forma que ele usa pra se afastar da situação real e obter uma nova perspectiva sobre o problema, mas isso só é possível através desse exercício de imaginação, neste caso, muito ligado à leitura de gibis de super-heróis. A relação com heróis poderosos e fantasiados permeia o gibi inteiro e, por mais que esses personagens tenham atingido uma maturidade que apele ao público adulto, eles são, primariamente, infantis, e a vida dos dois protagonistas é muito guiada por essa mitologia.

Dupin5

Outro momento crucial é o desentendimento entre Gustave e Eduard, quando Gustave diz algumas verdades sobre o primo. Note: desde o início do gibi é descarada a decepção de Eduard com a realidade que o cerca, desde o relacionamento com a mãe e o dela com o namorado, até os bullies de praxe. Gustave surge como um agente de ação contrária à passividade de Eduard, e essa influência aumenta ao longo da história. Ela carrega Eduard para o fim de sua vida como uma criança indefesa e protegida dos terrores do mundo. Aí encontramos mais um tema da HQ: o fim da inocência. Essa influência de Dupin sobre o primo se torna mais evidente na cena em que Eduard repete as palavras do primo e chega a ameaçar um dos bullies de morte, quando tentam atacar os dois protagonistas. Até então, Dupin é o mestre e Eduard o discípulo. O intelecto, a postura investigativa e ativa de Gustav em contraparte à indiferença de Eduard deixa muito evidente quem representa qual arquétipo. Quem ali é Sherlock e quem é Watson, quem é Batman e quem é Robin. Então, quando Eduard soca Gustave (página 127), ele assume a silhueta do Batman em clara referência a Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. É uma atitude de reação ao abuso verbal que sofria do ego inflado do primo, e essa violência marca a morte de sua vida inocente. A referência ao Cavaleiro das Trevas é muito importante nesse momento, pois o gibi marcou, no fim dos anos 1980, junto de Watchmen, o início da Era Moderna nos quadrinhos e o fim da inocência dos super-heróis.

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Fora esses dois pontos, que acho imprescindíveis pra compreensão da história, o que mais se destacou em Dupin, pra mim, foi o texto. Nada é dispensável ou usado pra encher linguiça. Melite espreme das palavras talvez mais ainda do que do desenho. A força da narrativa verbal onisciente dá o tom da HQ desde o seu início, e eu faço questão de ressaltar os momentos das páginas 3 e 4, quando Dupin chega ao aeroporto: “Então falava sobre o homem da multidão… O homem da multidão é um colecionador, começava assim… colecionava mitos, máscaras e símbolos… E com isso ele se move em meio aos animais… disfarçado de animal, ele aprende seus truques… Os fantasmas se atiram sobre ele porque detestam as batidas do seu coração… As trevas se atiram sobre ele… porque nasceram para isso…”, e peço que prestem atenção aos trechos das páginas 87 a 94, que não compensam ser transcritos aqui, pois pedem o acompanhamento da arte no gibi.

Sugiro muito que deem uma fuçada nas outras histórias do Melite.  Leviatã (primeira que li do Melite e ACHO que é a minha favorita) tá na Café Espacial número 13, A Desistência do Azul (Zarabatana, 2012), um gibi que debato com alguns amigos até hoje, defendendo que tem um caráter bastante experimental, o que eu adoro, e as histórias curtas dele no site O Nariz – Tó o link.

Em vários aspectos, inclusive no estético, as histórias do Melite me lembram Lourenço Mutarelli. Não que as de Melite sejam iguais ou baseadas nas de Mutarelli, acho que é uma influência bastante subconsciente, mas tá ali, e, mesmo com poucos trabalhos publicados acho que ele tem grandes chances de seguir um caminho muito similar e se tornar um autor muito importante na cena nacional.