[Palankeria] Notas sobre o Cynthiagate

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Pra começo de conversa, a despeito de meus bem conhecidos antecedentes, não tenho o intuito de instigar/prolongar tretas – ainda que eu esteja puxando um assunto de dez dias atrás. É só uma reflexão, mesmo – e o atraso foi justamente pra fazê-la, sem alimentar nenhuma flamewar. Talvez seja uma proposta de diálogo. Em última instância, sou eu abrindo o bocão (ou coisa que o valha) sobre algo que eu talvez não tenha compreendido muito bem – o que, convenhamos, nunca impediu nem a mim nem a ninguém de sair falando por aí, então, que seja. E como a questão como um todo me toca de forma bastante pessoal, então lá vai:

Lá nesses dez dias atrás, um repórter de uma revista aqui de Recife me procurou pra trocar uma ideia sobre as mulheres no mundo das HQs. Me mandou umas perguntas por e-mail, daí lá estava eu, fim de noite de um domingo, na frente do PC, respondendo as benditas. E a que mais me chamou atenção foi a última – algo sobre minha opinião a respeito de as autoras estarem resistindo a falar sobre o assunto. “Ué, sério?” Ponderei uns instantes e a resposta deve ter sido algo como “olha, nunca soube de algo assim, mas também deve ser chato sempre ser entrevistada como artista, mas nunca poder falar do seu trabalho em si.”

Foi uma afirmação bem hipotética, porque não sou quadrinista. Sou é pitaqueira, mesmo, então essa é a única parte que me cabe nesse latifúndio, de preferência dando os tais pitacos sobre essas coisas que eu considero importantes. Mas não conheço a sensação de dar tudo de mim num trampo artístico e só ter espaço pra falar sobre como é fazer esse trampo pertencendo a determinado gênero. Deve ser, na melhor das hipóteses, um tanto enfadonho. Na pior, irritante pra caralho.

Perguntas respondidas, e-mail enviado, aquela passadinha de lei naquela rede social feici antes de dormir: e aí me deparo com um post de uma amiga em resposta à declaração da Cynthia B. (que você já deve saber qual foi e, se não sabe, DÊ UMA SACADA). Imaginei que essa derradeira entrevista tivesse sido pra mesma pauta que a minha. Primeiro, achei mó barato estar na mesma matéria que a Cynthia B. – cujo trabalho eu curto demais. Depois fiquei meio… “miga, te entendo, mas…”

Foram várias as tentativas de diálogo por parte dela (e não digo explicação, porque isso daria a entender que ela achasse que se expressou mal, mas não é o caso). Teve até uma historinha no estilo “entendeu ou quer que eu desenhe?”. Mas acho que eu poderia resumir tudo da seguinte forma (e é aqui que me arrisco naquilo de tá falando sobre algo que talvez não tenha entendido bem, etc.): foda-se o feminismo porque eu discordo de várias das posições que hoje são disseminadas como bases indiscutíveis e porque não aguento mais mulher no meio dos quadrinhos se vitimizando e usando o movimento como escudo.

No cerne da questão, está o entendimento de que a Cynthia é uma artista que, imagino eu, gostaria de estar falando mais sobre sua obra. Que quer que as pessoas leiam seus quadrinhos porque os consideram bons, não só pra compor uma cota de representatividade nas suas leituras. Que já deve ter tido, sim, a experiência de ver alguém se queixando sobre não conseguir ingressar na cena por machismo, mas que na verdade não tinha era um trabalho consistente ou digno de nota. E que nunca teve que passar por qualquer percalço que tenha sido causado por esse sistema de valores.

Mas… essa é a experiência dela.

Lembra quando lá atrás eu disse que devia ser um saco ser artista e não falar sobre sua obra? Então. Sua vivência não é igual a de todo mundo e não se pode desprezar as de todos os outros. Mesmo quando essa amiga que a respondeu exemplificou, dizendo que um pirralho de seus 12 anos a insultou e disse que ela não sabia nada de quadrinhos, Cynthia disse que isso não tinha nada a ver com machismo. Mas COMO pode não ter se a razão pra afirmação do pirralho era o fato de que ele falava com uma mulher – “menina não entende nada de quadrinhos”? Um comportamento que muita gente pode dizer já ter visto se repetir em homens barbados, e se ela nunca pôde constatar isso na pele, fico realmente feliz. Mas eu também estaria rica se tivesse ganhado 10 centavos todas as vezes em que ouvi isso.

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Ora, talvez sejam os ambientes – onde diabos vocês tão andando pra ter tanto neandertal, meninas? Um dos argumentos de Cynthia, endossado por um amigo dela, também quadrinista, é de que sim, o mundo é machista, mas que isso não é o establishment no quadrinho independente brasileiro. Mas… gente, o machismo é o establishment. Se o cenário das histórias em quadrinhos, seja no Brasil, seja no Sudão (wink wink), é uma manifestação que ocorre dentro do corpo social, então ele vai ser imbuído de uma série de características que existem nessas sociedades: se a gente vive em uma sociedade machista, é claro que o machismo também vai se manifestar nesse microcosmo. Se não como regra explícita, como padrão de comportamento tácito. Como em vários outros campos. E isso a gente só combate escancarado e debatendo.

E esse debate pode até ser cansativo, mesmo, para um sujeito que não quer necessariamente estar atrelado a ele (apesar de estar, porque estamos todos). Mas historicamente, isso é uma novidade. Se falarmos especificamente sobre a história dos quadrinhos, uma mídia (ou expressão artística, como queira) que formalmente tem pouco mais de um século de existência, os últimos cinco anos não parecem escassos pra se conversar sobre algumas práticas naturalizadas – desde o cerceamento das mulheres na produção até representações objetificadas das mais diversas formas (nem venham com “aqui no indie BR não!”, que o que mais se acha nesses é MANIC PIXIE GIRL)?

Nenhum fluxo de poder é alterado sem que seja forçado a tal por uma série de fatores – e um deles com certeza é levá-lo à ágora sempre que possível. E sim, esse processo fatalmente vai criar discordâncias.

Eu mesma tenho várias delas com relação a uma série de questões envolvendo o feminismo – que passa longe de ser um movimento totalmente unificado. Não consigo compreender como determinadas correntes insistem em excluir mulheres trans; também não concordo que homens simpatizantes à(s) causa(s) devam ser sumariamente excluídos e silenciados (apesar da plena certeza de que o lugar deles é o de coadjuvantes, não de protagonistas). Mas em hipótese alguma eu desacreditaria toda uma luta, de importância cabal e que hoje tem um espaço no debate público que há muito tempo não tinha/conquistava/estimulava, por causa de discordâncias que, em perspectiva – e essa perspectiva é, sim, nosso conjunto de experiências pessoais, a partir do momento em que todo mundo e ninguém é o centro do mundo ao mesmo tempo – são muito menores do que o cenário geral. E esse cenário ainda apresenta discriminação, apagamento, cerceamento, descrédito – como sempre foi. Se a gente até hoje mal ouve falar da Nair de Tefé, com certeza não é porque ela não era boa.

Dizer “foda-se o feminismo” é que nem um adolescente mandando uma tia xarope tomar no cu durante o almoço de família no domingo: dá aquela autossatisfação de pretenso iconoclasta, mas na verdade só ajuda a manter velhos mecanismos que, de uma maneira ou de outra, ainda vão te botar na roda: seus pais vão te botar de castigo ou essas declarações vão servir de incentivo pra que os maiores interessados em manter a pirâmide social do jeito que está continuem desacreditando todas as lutas, todas as pautas, todas as bandeiras das mulheres. Talvez Cynthia ache que está falando em um contexto muito restrito, pra um público muito específico, mas não é assim que começam as bolas de neve? Muitos podem ponderar que uma declaração assim é um desabafo desbocado, mas que possui bases sólidas para uma discussão séria sobre o que é o feminismo hoje e como essas tensões se dão no nosso mundinho de gibis; mas outros – por exemplo – vão simplesmente dizer que até as mulheres sabem que isso tudo é mimimi e continuar tratando leitora, aspirante, lojista, cosplayer, editora, etc., como poser que “só tá nessa pra dar” – e se dá é puta, e todos sabemos como putas devem ser tratadas.

Eu entendo o cansaço de Cynthia. Acho que ele em algum momento é sentido por todo mundo que se aproxima de mundos que envolvam certos graus de desconstrução, de combatividade, ou até de militância. Mas como artista eu apelaria para que ela entendesse o alcance e a relevância de sua fala; e como mulher que entendesse a importância que tem, sim, essa hidra chamada feminismo – apesar de contradições e certos histrionismos; mesmo eles são importantes pra manter a discussão, pra procurar o caminho. Cynthia, se tu tiver lendo isso: pra cortar as cabeças, já tem muita gente; respira fundo e vamos tentar ajudá-las a encontrar os meios-termos? Senão vou ter que continuar ouvindo fulano perguntar na banca se tô comprando gibi pro meu irmão.

(E coisas muito piores, mais agressivas e degradantes, claro, mas achei que desanuviaria o ar se eu terminasse com um gracejo.)

PS: De novo: Cynthia, se você leu isso, desculpa ter falado de você por uma razão que não é tua obra – mas como eu disse lá em cima, acredito que esse debate deva existir. Mas adoro teu trabalho, teu Ugrito é hilário, tua HISTÓRIA DO ABORTO é raçuda pra caralho, adoro o dinamismo dos teus desenhos e como tu consegue deixar teus personagens tão expressivos com tão poucos traços.

PS2: Se você não é a Cynthia, vá ler a CYNTHIA – ela inclusive postou NA PÁGINA DELA NO FACEBOOK uma adaptação dum conto de Machado de Assis que ela fez alguns anos atrás e ficou lindão. Leia, porque ela é boa (mas *fuck the police* também, porque tem que ler mais mina mesmo, uai, senão como é que vai ter MAIS mina boa?!).

2 comentários em “[Palankeria] Notas sobre o Cynthiagate”

  1. Oi Dandara!

    Ri muito do CYNTHIAGATE. Na real, não tenho muito do que discordar, acho que você foi na mosca. Foi mesmo um desabafão, não me dei o trabalho mesmo de escrever um texto com reflexão tentando “melhorar as coisas”. Foi uma explosão. Um primo meu uma vez mandou uma tia meio chata, mas que a gente ama, tomar no cu. Apesar de todas as desculpas que ele teve que dar depois, ainda se lembra como sendo uma coisa que deu uma puta satisfação. É derrubar o totem. Sendo poética, é que nem um cachorro sacudindo o pêlo depois de alguém tacar um balde de… água nele.

    É verdade, a experiência é minha e fiquei um tantinho nervosa de ter acabado atacando alguém que realmente viveu alguma coisa desagradável dentro do meu círculo ou fora. O machismo não é uma fantasia e eu não conheço TODA desenhista do mundo. MAS… eu fico cansada não só das entrevistas mas também de como meus colegas homens são retratados e, por consequência, eu e minhas colegas mulheres. Como se sofrêssemos caladas os horrores de predadores sexuais e misóginos para poder “fazer parte do clube”. Quantos cartuns e quadrinhos de pessoas que, até onde sei, nunca conviveram conosco, fazendo essas “denúncias” baseadas em estereótipos masculinos e fofocas. Sinceramente, EU já fui a mais predadora deles. E, pra quem saiu de uma faculdade de medicina ainda por cima, foi onde me senti menos julgada e mais acolhida. Essa é a MINHA gente. Não são só colegas, são amigos.

    Não quero ser tratada como vítima, como aberração, como uma mulher com machismo internalizado sofrendo “síndrome de estocolmo”, como “token”, como um bichinho especial, como nada além de mim mesma… não era isso o feminismo? Um movimento para acabar com o sexismo?

    Enfim, como você mesmo disse, o movimento não é único, prefiro deixar as pessoas seguirem suas ondas normalmente, mas aquele dia explodi por ter que responder mais uma vez essas mesmas perguntas. E acho que não é crime mandar uma ideologia ir “se foder”, mas entendo também que ninguém precisa bater palma pra mim por isso. Ainda assim, o pior é que tenho me sentido melhor depois daquele dia.

    Quanto ao caso do menino de 12 anos, eu não disse que não era machismo, mas sim que não precisa ser uma coisa opressiva quando um moleque diz uma coisa idiota. Sei lá, não consigo lembrar de um caso assim mas, além de não gostar muito de super-heróis ou videogames, já estabelecemos que eu tenho uma sorte incomum. De qualquer forma, trata-se de uma pessoa que tem uma idéia sobre o mundo que eu discordo, isso não precisa me diminuir. Como alguém que pensa que eu ter feito um aborto é uma coisa errada. É o que ela pensa, se isso me afeta é por que tem alguma coisa mal resolvida em mim. Nada de concreto aconteceu no mundo real… É um absurdo encarar assim?

    Acho que dá pra seguir uma carreira nos quadrinhos e cagar pro machismo. O que existe dele, não impede ninguém de divulgar seu trabalho…. é só ver quantas mulheres estão chegando e tendo sucesso. Não são TODAS, mas nem é pra ser. Como não é pros caras. Não acho legal usar machismo como desculpa e motivo pra atacar todo mundo, criando um climão escroto.

    Gostei muito do texto, quando me mandaram o link já tive aquele aperto na barriga achando que alguém tinha me descascado. Se isso tudo serviu pra alguma coisa além de me dar o prazer do esporro, foi ver que eu estava enganada quanto ao nível de agressividade que eu ia receber.

    Obrigada por se dar o trabalho de escrevê-lo, por acompanhar meus quadrinhos e pelos elogios. Fico super feliz, me derreto toda com biscoito (MESMO quando não é de mascú). 😉

    Abraço,
    Cynthia

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