[Palankeria] Reflexões sobre o CONAHQ

conahq

Nesse próximo mês de maio vai ser realizado o I Congresso Nacional Online sobre Quadrinhos – CONAHQ. Vê que ideia maneira: uma pá de gente que trabalha com quadrinhos, entre artistas, estudiosos, editores, etc., em palestras transmitidas pela internet. E totalmente na faixa, caros bacharéis.

O evento foi idealizado pelo artista paraibano Jorge Elô – que não só faz quadrinhos como também otras cositas más, tipo curtas-metragens e pinturas. Entre os participantes já confirmados, tem gente do gabarito da Aline Lemos (de Melindrosa, sobre quem o Pedro falou aqui um dia desses, lembra?), Luis Felipe Garrocho (Bidu: Caminhos, Quiral), Mariana Cagnin (Vidas Imperfeitas), Pedro Leite (Quadrinhos Ácidos), Thaís Gualberto (Olga, a sexóloga), Manassés (proprietário da quase mítica Comic House, em João Pessoa), Laura Athayde (Arquipélago), Marcelo Campos (Liga da Justiça, Quebra-Queixo, co-fundador da Quanta Academia de Artes) e Renata Rinaldi (que publicou vários histórias fodas nos gibis do coletivo Foca no Rolê). Promete, hein?

Temos hoje vários eventos voltados para as histórias em quadrinhos no Brasil, em maior ou menor estrutura, promovendo o meio pra toda sorte de público. Mas, logicamente, há uma parcela do público que ainda está longe deles: aquela que não mora nas cidades onde eles são realizados (faz tempo que Recife não tem um evento presencial do gênero, mas ouvi dizer que tem gente cuidando disso aê), para quem o deslocamento é difícil ou financeiramente proibitivo. Trazer esse tipo de evento para o ambiente da internet preenche a lacuna de incluir esse quinhão e cria mais uma grande oportunidade de ampliar o cenário brasileiro de histórias em quadrinhos. Uma proposta, sem dúvida, promissora.

MAS…

Daí quero abrir um grande parêntese, porque, apesar de considerar o projeto uma iniciativa maravilhosa, mais do que louvável, não acho que a gente deva se furtar à desconstrução das tensões que sempre hão de surgir, simplesmente jogando-as embaixo do tapete; então:

(Me incomoda um pouco o tom pelo qual o Elô tenta vender o Congresso: “Descubra como aperfeiçoar sua técnica e impulsionar sua criatividade com grandes feras dos quadrinhos e tenha sucesso garantido em seus projetos”… vamo começar pelo fato de que vender “sucesso garantido” traz aproximações muito desagradáveis com cursos de marketing e autoajuda – pra vocês não? Como se houvesse realmente uma fórmula certeira e universal a ser seguida.

Como disse nossa colega de Balbúrdia, Maria Clara, parece haver uma indefinição da identidade do evento. Num congresso, trocam-se experiências. O CONAHQ é congresso no nome mas, na prática, parece ser mesmo um curso – em que você, em princípio, é “ensinado” de forma mais verticalizada. Lendo os posts na página do evento no facebook, pode-se inferir que o tipo de formação que ele propõe é aquela em que os artistas apresentarão fórmulas certas que, ao serem prontamente executadas pelos alunos, necessariamente elevarão o nível de seu trabalho, tornando-os automaticamente produtos garantidamente vendáveis. A meu ver, proposições assim, aparentemente tão formulaicas, tendem a levar  a um engessamento e a uma padronização que servem a uma hipotética indústria – no caso do Brasil, mas não ao público leitor ou mesmo aos artistas.

Isso acaba sendo curioso, porque temos por aqui um mercado de HQs que não possui o tal padrão. Temáticas, gêneros, estilos… são um tanto quanto diferenciados entre si – o que é um fator um tanto positivo. Justamente por isso, aliás, não imagino que nenhum dos nomes que citei vá oferecer fórmulas ou receitas de bolo aos participantes. Em minhas experiências em encontros do gênero, o que vi acontecer é que as pessoas acabam tendo insights, descobrindo referências e nutrindo identificações – um viés estimulado pela maioria dos ministrantes. Mas não que isso vá necessariamente acontecer. Você pode sair de um curso sem aprender nada de novo, sem se identificar com nada do que foi dito… porque é só isso que eles podem fazer: transmitir suas experiências pra que você as reconstrua diante do seu trabalho e da sua realidade – ou não. No máximo, alguns macetes práticos, vá lá. Mas poderia a criatividade – essa característica tão pessoal e tão fluida – ser estimulada a partir de macetes técnicos e despertada em modo automático?

Assim como a questão de que o curso trará “sucesso garantido” é quase perigosa. Pressuponho que se trate de sucesso comercial – que depende de vários fatores, nem sempre justos, além da qualidade do trabalho. Daí, há uma pergunta bem prosaica, mas que deve ser feita: o que é sucesso? O Henrique Magalhães, por exemplo, toca a editora Marca de Fantasia lá na Paraíba há mais de vinte anos, publicando ótimos títulos, mas com tiragem baixíssima, impressa de acordo com a demanda, cuja distribuição acontece majoritariamente em eventos e cuja propaganda acontece mais no boca a boca, com pouquíssima penetração no tal do mercado – e ele é felicíssimo dessa forma. Pra ele, sucesso é continuar ele mesmo a costurar os livros da Marca na mão, de dez em dez exemplares, e pronto.

Também há o fato de que tratar o sucesso comercial como algo líquido e certo diante da obediência a determinados preceitos faz com que os quadrinhos sejam apenas um produto que pode ser submetido à produção industrial. A gente sabe que isso é possível (em termos) com todo produto de massa, inclusive as HQs; o mainstream de super-heróis e tirinhas sindicalizadas prova isso. E mesmo quando ela não necessariamente segue esses padrões, pensar sua obra enquanto algo vendável não é ruim – quadrinista também come e paga conta. E OK, também, se você quer só fazer uma parada pra encher a burra. Mas mesmo com essa intenção, não é interessante que você conheça o meio mais profundamente? Que possa pensar a linguagem e o próprio mercado com uma visão mais ampla sobre as possibilidades que eles oferecem? Isso pode não ser garantia de sucesso, mas com certeza é um estímulo ao desenvolvimento de um trabalho sólido.

Além disso, acho um desperdício que um evento de alcance tão potencialmente amplo tenha foco explicitamente direcionado aos quadrinistas (ou aspirantes a). No atual momento, há também necessidade de expandir o público leitor; não seria interessante deixar claro que esse pode ser um evento pra todo mundo que ama quadrinhos? Pra conhecer autores que você nunca viu, saber mais sobre aqueles cujo trabalho já caiu na tua mão, pra expandir os horizontes de todo mundo que se interessa por HQs, colocando os autores pra conquistar cada vez mais gente. Senão, a impressão que o L.M. Melite (Dupin) disse ter do FIQ – um evento em que um quadrinista compra gibi do outro – acaba se cristalizando por aí afora, mesmo, e o nicho fica cada vez mais hermético. Isso seria interessante?

Parêntese do parêntese: (só pra dizer que eu, na minha experiência de visitante-leitora do FIQ, tive uma outra percepção do evento.)

Explicitando esses moldes, o CONAHQ acaba nos fazendo pensar como nós enxergamos as histórias em quadrinhos no Brasil – e como o quadrinho vai continuar seu desenvolvimento no mercado/cenário brasileiro. É fato que ainda podemos nos considerar um nicho muito estreito e fechado e que nem só de discussões sobre a forma vive o homem; mas quais discussões e quais aspectos deveríamos estimular entre nossos autores e leitores para fazer com que esse nicho cresça em tamanho, mas também cada vez mais em sua diversidade?)

Só abro essa discussão porque tudo parece estar em uma fase muito nova no cenário de quadrinhos no país, atualmente: a quantidade e diversidade de gibis autorais, os eventos dos mais diversos tipos – incluindo os acadêmicos, jornais, zines e blogs sobre o assunto (cof, cof) e agora o CONAHQ. Mas muita coisa ainda tá se formando e é trocando ideias que podemos achar os melhores caminhos. E reafirmo que o CONAHQ é uma puta ideia, com um potencial enorme de criar pontes. Se há uma coisa inquestionável aqui é toda a paixão envolvida e o quanto o evento vem pra somar.

Ou seja: no fim das contas, o mais importante de tudo é que você clique aqui e SE INSCREVA! Palestra de graça com gente maneira sobre coisas que você ama, não tem pra que dar mole e deixar passar batido. Bom CONAHQ pra todos nós!

Um comentário em “[Palankeria] Reflexões sobre o CONAHQ”

  1. É muito pertinente a análise. É certo que o profissional de arte do Brasil precisa de direcionamento de mercado. Cultura é um troço difícil de vender aqui. Ao mesmo tempo a gente tem que lembrar que estamos falando de arte e que uma tentativa de “embalar melhor o produto” pode prejudicar a experiência em si a que a arte se propõe (que em alguns casos tem de ser autoral e questionadora dos padrões de mercado). Isso é complexo pra caralho. Não sei se por eu ser formado em administração e autor de quadrinhos, mas considero fundamental que o artista pelo menos entenda o processo de vender seu produto. A partir disso ele decide o que e como vai fazer com ele.

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