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Por que eu sempre penso no risco de ler um gibi do Quintanilha? Risco de que eu não entenda, de falar merda em resenha… eu não fiquei confortável lendo nada dele depois de Tungstênio, não na primeira leitura, pelo menos. Mesmo que eu tenha adorado Talco de Vidro logo de cara, eu sabia que tinha muita coisa lá que eu não tinha sacado de cara. Mas tá, bora lá.

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Tipo, não é um desconforto ruim, se bobear não é nem desconforto. Foi que nem quando eu assisti A Bruxa… eu jurava que o diretor ia fazer cagada no meio do filme, ia acabar com tudo, daí assisti o filme preso nessa tensão. Bom, na real é viagem achar que o Quintanilha é autor pra se ler só uma vez. Oxe, claro que não é. Ainda mais a partir do Talco de Vidro, lá mesmo o cara assume outro patamar na hora de contar as nuances da vida normal. Quer dizer, o “normal” corrupto. O normal que a gente não olha muito a fundo pra não ver que na real é uma natureza violentada.

Dá até pra prever um pessoal comentando que o cara tá se repetindo, que de novo trata dos mesmos assuntos… só que o assunto não se encerrou pra ele. Ele ainda tem história pra contar. E, porra, é sobre o cotidiano, sobre as miudezas, então tem material pra uma vida inteira.

IMG_20160416_114148319Não viaja, não da pra comparar desse jeito. Mas sei lá, parece que tem sim… não é que nem Bergman, mas me passa uma sensação parecida. Aquela disfuncionalidade que rola em Gritos e Sussurros… não é o que ele faz, mas o que ele se propõe em apontar… tem uma carga emocional muito forte aqui, bastante particular. Tem que pausar nas imagens, dar espaço pro texto reverberar, soar…

 

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Eu não vou conseguir escrever sobre isso, esquece… pra fazer justiça, vou ter que esmiuçar, colocar as mesmas frases, descrever os momentos e comentar milímetro por milímetro… no Talco de Vidro ele tem fôlego pra discorrer sobre a personagem principal, dá espaço pra falar dela, o contexto, mostrar as perversões, a disfunção, mas porra… aqui no Hinário Nacional são histórias bem mais curtas e ele consegue fazer a mesma cirurgia.

 

 

 

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Esse livro parece que tem o ritmo emocional de um álbum.  Parece que tô ouvindo um disco, cheio de sonoridades mutáveis, cada uma com seu propósito de ressaltar uma emoção.

 

 

 

———————Mais café———————————

 

 

Pô, essas duas mesmo, Hinário Nacional e Pai Doce… porra, Pai Doce é muito corajosa. Esses termos que ele usou, essa abordagem racial, é muito violenta… caraca, tá certo isso…? Essa disposição de painéis, a mudança de enquadramento pra revelar uma coisa importante… caraca, Pai Doce é muito ousada, muito forte… pô, parabéns por essa… e Hinário Nacional tem um grau de obviedade que quebra no meio da história… de novo, é o que ele faz de melhor, uma relação entre texto e imagem que é obrigatoriamente contemplativa… rever aqui… ok, Hinário e Pai Doce são as melhores, mas porra, Ave Maria tá linda… viu, é disso que tô falando… a mulher tá sufocada, esmagada debaixo do Arruda, que é um porra dum pseudointelectual que usa essa cinefilia rasa pra deixar a Michele pra baixo, afinal, a mãe do cara precisa de netos… disputa de gêneros, conservadorismo cristão, tudo isso contido naquele espacinho curto que só é manipulado por quem sabe usar bem a mídia… ele é o cara que faz isso… Ele é o cara que vai te mostrar esses problemas, essas questões, sem panfletarismo… ele é o cara que pega o asfalto, o concreto, as ferragens, as risadas, o apartamento, a blusa, o passeio, o marido, os filhos, a esposa, vai fazer uma poesia com isso tudo e vai te mostrar o que ninguém quer ver. Ou melhor, ele não vai mostrar, ele vai apontar.

Uhm, difícil dizer se é melhor do que Talco de Vidro… não sei, um é um trabalho de fôlego, este são histórias curtas… pode ser incapacidade minha… mas acho que emocionalmente esse me pegou mais… acho que já é o suficiente…

Eu confesso que tava com medo, tava desconfiado. Acho que o Quintanilha é desses, ele faz um negócio tão animal que você espera que ele deslize em algum momento… mas porra, ainda bem que não passava só de uma suspeita.

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OBS: O Daniel dos Santos também postou um texto sobre o Quintanilha aqui no blog. Dá um bizu.