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Ontem, Rafael Coutinho declarou o encerramento da Narval Comix, loja virtual e editora dinâmicas e no ar há seis anos. É bom lembrar que a casa é um desdobramento de outro organismo-cetáceo, a Cachalote. De uma loja de quadrinhos (2009~2010) a um selo (2010), até a fundação da Narval, primeiramente loja virtual editando alguns quadrinhos (Revista 1000, a série Beijo Adolescente). Em tempos geológicos parece pouco para que, de repente, virasse essa sustância dos equivocadamente chamados “alternativos” nacionais (e vou explicar melhor esse meu ponto adiante).

 

É o fim de um empreendimento, e também o entreato de um novo ciclo dos quadrinhos nacionais.

 

Atenção: a que vos fala não diz história em um sentido positivista, e o relato que segue compreende os eventos não como sucessivos, mas vários tempos diferentes acontecendo mais ou menos em momentos variáveis. Então, faço um recorte, aqui, de um movimento no espaço-cena dos quadrinhos nacionais, o que se convencionou chamar “alternativos” – um calque nos “alternativos” americanos e franceses visto que, como apontou Marcello Quintanilha, não há um mercado consolidado no BR, o termo sendo besta por não haver nada a que se “alternar”.

 

O recorte que faço, portanto, é daquele quadrinho distante do calque no herói americano, e bem longe do dirigido ao público infantil. De forma fluida, nunca apagando por completo as veias cômica e/ou política (nossos fundamentos), coexistindo e muitas vezes integrando-as em um novo formato (de mídia, de gênero etc.).

 

O tal movimento do qual a Narval é uma grande participante foi o renascimento – ou um uma nova florescência – dos quadrinhos nacionais. No passado, as publicações estavam sobretudo ligadas a tiras, quadrinhos de humor ou política – o que nunca impediu movimentos de histórias mais longas com temáticas diversas! A gente sabe que a década de 1990 foi um grande baque para a história cultural brasileira (e não apenas para ela). Assim, só os anos 2000 permitiram que pessoas pudessem voltar a publicar, e o pulo foi tão alto que rapidamente começaram surgir livros de quadrinhos, objeto heteróclito no caminho até então trilhado pelos autores nacionais, e para além de antologias publicando séries de jornal, fanzines ou webcomics.

 

E aí, começaram a surgir até mesmo editoras especializadas em histórias em quadrinhos. Ajudem-me, serei provavelmente injusta nesse relato puramente emocional de memória de uma observadora com amnésia dessa cena. Completem as lacunas. Algumas revistas se firmaram por aí (?): a Front, a Ragu, a Graffiti 76%, Café Espacial. Já a Conrad, a Desiderata estão entre as primeiras editoras “especializadas”, seguidas da Zarabatana, da Barba Negra. Todas existindo e aparecendo ciclicamente, durando pouco ou alterando suas formas (menos a Zarabatana, firme e forte e guerreira!). E tudo acompanhado pelos coletivos que, no final da primeira década do milênio, começaram a se equipar como editoras – e isso graças ao avanço e redução de custos das técnicas de impressão, ao Advento da Internet e à multiplicação de eventos Brasil afora, é possível afirmar que nunca antes na história desse país se produziu tanto e se leu tanto quadrinhos. Não é um fenômeno isolado dos outros fenômenos de cultura, sobretudo de leitura nesse país.

 

Assim, foram vários movimentos se cruzando no miolo dos anos 2000: a publicação na internet, editoras surgindo, grandes editoras se interessando em publicar quadrinhos, e grupos de autores se reunindo para criarem suas revistas (Beleléu, Samba, Prego, Quarto Mundo).

 

Creio ser importante sublinhar, nisso tudo, a simbologia da empreitada do Sr. Rafael Coutinho. Sendo alguém que acompanhou de dentro essas oscilações no passado, conseguiu entender esses tempos passados e presentes para produzir e alcançar o público. Viva a Narval, como um empreendimento que não apenas publicou novos formatos, novos autores, como também experimentou novas mídias SEM fazer tabula rasa, inclusive trazendo de volta publicações ou permitindo novas criações da Laerte.

 

Outra coisa a destacar é que um movimento sempre traz outras mudanças consigo – aquela historinha da borboleta batendo asas. A Narval, carregada por Rafael, carregou vários autores e empolgou tantos outros. Digo porque a pessoa individual dele participou não apenas como empreendedor solitário, mas animador de colegas e amigos: esse microcosmo enlaça a gente de uma forma que não é difícil tantos de nós virarmos de fato amigos, e tenho o orgulho de ver isso acontecer ao longo desses anos, e o filho da Laerte é reconhecidamente um dos agregadores desse movimento, se emocionando com as conquistas de seus pares.

 

Contando, claro, com vários colaboradores na estrutura Narval, ele não trabalhava sozinho, mas Mr. Coutinho acumulava funções, um verdadeiro polvo editando, vendendo, desenhando, pintando, animando o povo, animando imagens, criando filhos e tudo ao mesmo tempo agora. Ele tinha que se lembrar vez ou outra AINDA ser um autor de quadrinhos querendo se publicar, antes de ser editor. Acredito que muitos de seus colegas entendem bem essa frustração, mesmo se acompanhada dessa grande alegria de conseguir fazer andar tanta coisa. A figura do Rafael se tornou de proa, uma marca levada a sério não apenas no meio, mas em editoras, editorias, instituições.

 

Foram algumas as tentativas dele em criar uma forma associativa, uma forma em se distribuir esse grosso das produções de forma coletiva. Mas aí a coisa se expandiu e, hoje, a produção é tão grande e múltipla em diversos movimentos, micro e macro, acontecendo ao mesmo tempo agora. Viva a Narval, que publicando autores de diferentes gerações, ajudou a dar um sacode bonito nessa história. Viva tantos outros que participaram desse movimento, junto e independentemente, somando essa força. E aí, um viva à Narval, que sai de cena na hora certa: agora é possível passar a bola para outras estruturas que surgiram: a Ugra vai levar adiante as vendas da Narval. E outras editoras estão sendo convocadas a assumir outros projetos, o Beijo Adolescente (exemplo, aliás, dessa transição “da internet para o livro” que transcendeu totalmente para o meio impresso) e O Fabuloso Quadrinho Brasileiro, a primeira antologia nacional em formato de livrão que deveria continuar a existir. A gente carece de história das histórias em quadrinhos tão bem documentada assim, de contexto e de valorizar o que se está fazendo.

A Narval acabou para poder deixar espaço a um novo movimento. E que venham mais.

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