[A Consciência de Zeni] Quadrinhos Abstratos? – Parte 5

Gnut, de Paulo Crumbim

Eis que 2017 vai registrar uma coluna aqui sobre Quadrinhos Abstratos! A investigação segue, desta vez analisando um artigo do poeta, teórico e professor belga Jan Baetens chamado “Abstraction in Comics”.

O que você viu por aqui antes (ou não viu, se é a primeira vez que chega — nesse caso, bem vindo e puxe um cepo), pois anteriormente, em “A consciência de Zeni”:

Nesta coluna, vou comentar o artigo de Jan Baetens sobre quadrinhos abstratos (estamos cada vez mais perto de falarmos de quadrinhos!) “Abstraction in Comics”, que saiu na revista Substance 124, volume 40, 2011.

Página de Found Florest Floor, de Gareth A Hopkins

Pondo ordem na bagunça: AQUI você acessa o artigo completo de Baetens no Jstor em inglês (o cadastro é grátis e você pode ler online no site); CLICANDO AQUI você tem o arquivo de minhas anotações sobre o texto; e por eu ser mui misericordioso, NESTE LINK você tem um PDF do artigo completo – de resolução precária feito a partir de imagens.

Não sou capaz de falar muito sobre o todo do trabalho de Jan Baetens, porque esse foi o primeiro artigo dele que li. O artigo nos interessa enormemente, pois tenta localizar o que seria a abstração nos quadrinhos.

O objetivo do artigo não é pensar os quadrinhos em relação a outras artes (exatamente o que eu fiz até aqui nessa série), nem pensar a especificidade da narrativa de quadrinhos por si mesma (como já fizeram os teóricos dos quadrinhos como Thierry Groensteen e Thierry Smolderen), mas olhar pra narrativa de quadrinhos e dali tirar algo sobre a narratividade em geral. Gosto disso numa teoria, me seduz.

Com essa diretriz, Baetens puxa uma ideia do crítico Douglas Wolk (autor de Reading Comics), em sua resenha sobre o Abstract Comics (coletânea de quadrinhos abstratos organizada por Andrei Molotiu), de que os leitores tentam decifrar os quadrinhos abstratos, como se a abstração fosse uma camada de disfarce sobre a verdadeira narrativa.

…boa parte do material acolhido sob a bandeira dos quadrinhos abstratos resiste de forma muito ativa a qualquer tentativa de reconhecimento imediato e de tradução pra narrativa. Mas a dificuldade de narrativizar não pode ser equiparada com ausência de narratividade. (BAETENS, 2011, p.96)

Baetens propõe que no caso específico dos quadrinhos não se trata de definir abstração em oposição a figuração (falei disso já, mas vai aqui um resumo imagético):

Figurativo

Red haired man in a chair (1962-63), de Lucian Freud

Não figurativo

Ochre gris (1958), de Antoni Tàpies

Ao se olhar cada painel de uma história em quadrinhos isoladamente pode-se pensar em figuração versus não figuração, porém, a PIRA dos quadrinhos acontece na sequência dos painéis (na articulação de imagens solidárias, pra ir na do Groensteen), por isso

…‘abstrato’ deixa de ser ‘não figurativo’; ele se torna não narrativo, mesmo elementos figurativos podem tornar-se abstratos se sua função narrativa não está mais evidente.” (BAETENS, 2011, p.96)

Pois é, a proposta agora é mudar o olhar sobre o que seria o abstrato nessa mídia/linguagem específica e Baetens joga suas fichas que a abstração nos quadrinhos seria a “não narratividade”. Eu parafraseio, mas um tantico acrescento aqui: elementos não figurativos assumem características narrativas pela justaposição com os demais elementos da página e da montagem da página em que estão  com as demais páginas da história.

Se liga nesse trecho de Talco de Vidro (Veneta, 2015), de Marcello Quintanilha, abaixo:

Talco de Vidro (Veneta, 2015), de Marcello Quintanilha, páginas 105-108

Os traço, manchas e fios, justapostos ao textos e montados nessa ordem, como que embutidos entre momentos claramente representativos da protagonista, tornam esses elementos não representacionais em elementos narrativos.

Sendo que o contrário também pode rolar: elementos figurativos gerarem uma página não narrativa.

Samplerman #375: Ubu Teeeet

Se abraçarmos a causa do Baetens, a página de Gnut, inspirada obra de Paulo Crumbim, que abre essa postagem não seria abstrata (aliás, não acho que seja mesmo, apesar de ter algum diálogo com abstração via figuras geométricas).

Seguindo na leitura do artigo, podemos ver que o autor concorda com Wolk sobre a tendência/desejo do leitor em narrativizar o que lê:

…é mais difícil os leitores se moverem do não abstrato para o abstrato do que do abstrato para o não abstrato: é mais fácil narrativizar do que desnarrativizar

[…]

O impacto de nossos hábitos de leitura é tão fortemente narrativo que esses hábitos nos conduzem a criar senso de narrativa em quadrinhos e desenhos que parecem resistir a qualquer figuração imediata. (BAETENS, 2011. p.100)

O passo seguinte do artigo é apoiar-se na teoria sobre fotografia abstrata de Lambert Wiesing. Não vou me deter muito nisso, mas nas minhas anotações sobre o texto isso está pormenorizado. Wiesing pensa o abstrato na fotografia de uma forma restrita e de uma forma ampla. Na forma restrita, não é possível a fotografia abstrata, por ser uma contradição em termos (a fotografia seria a produção de imagens de objetos visíveis, e o abstrato é algo que não mostra sua relação com algo visível ou concreto); na forma ampla, abstrato seria a redução ao essencial da fotografia.

Transportando isso para os quadrinhos, Baetens diz que é possível pensar quadrinhos abstratos tanto no restrito quanto no amplo, e que nos dois casos o que a abstração faz é apontar para a própria narratividade e questionar a bendita.

Página de What Would Paul Klee say?, de Kim Tabulo

Aqui o artigo aprofunda as propriedades específicas propostas pelos quadrinhos abstratos em três pontos de apoio: 1) como o não figurativo se relaciona com o não narrativo; 2) desenvolver um olhar mais funcional do que formal para os quadrinhos abstratos, se concentrando prioritariamente nos contextos maiores do que a estrutura das imagens ou as sequências; 3) ler quadrinhos abstratamente pode ser uma forma de resistência a normas interpretativas dominantes.

Disso, o autor propõe que parece inútil pensar em categorias fixas de análise, que prefere variar caso a caso de narratividade/não narratividade. Disso, traz que as HQ não são ou só narrativas ou só não narrativas, mas apresentam diversos níveis desses elementos. O pulsar entre narratividade e não narratividade é algo não próprio do experimentalismo, mas dos cursos de roteiro mais basilares. Ou seja, um elemento não ser narrativo não quer dizer que ele não participe da narratividade em algum nível.

…abstração pode ser descrita como algo que resiste à figuração narrativa, que luta pra retirar a coerência narrativa do material a ser lido, e que combate a propensão natural humana de contar a história.

[…]

…a relação entre abstração e narrativa nunca é simétrica. Abstração não é apenas aquilo que sobra depois de lermos algo narrativamente. Tampouco é narrativa o que emergir desses lugares que não são abstratos o bastante para estar fora do mundo da narrativa. Portanto, a relação entre abstração e narração é uma espécie de conflito ativo. (BAETENS, 2011, p.107)

Dessa tensão dialética entre narrar e não narrar surgem as próprias possibilidades e limites do meio e por isso o olhar acadêmico pros quadrinhos abstratos pode ser tão revelador.

Páginas de Rival Connections (Press Rappel, 2013), de Rosarie Appel

Baetens ainda volta à questão da figuração: ele comenta que as imagens costumam representar e esperamos isso delas, a menos que estejamos em um contexto específico em que esperamos a abstração (por exemplo, em um museu de arte contemporânea). Dessa noção, o autor propõe que a narrativa de imagens seria um nível mais complexo de representação, por organizar essas várias imagens figurativas.

Joga, então, luz e sombra sobre a narrativa: ela seria muito massa por nos fazer criar um sentido naquele bando de imagens lado a lado (a justaposição do Sergei Eisenstein); mas ela seria também não tão massa por nos cegar pro abstrato, ao nos fazer tentar por sentido de sequência em tudo.

Talvez a lição mais intrigante que alguém pode tirar sobre narrativa, a partir da análise da abstração como resistência a essa narrativa nos quadrinhos, é a importância de explorar, nas narrativas gráficas, as tendências antinarrativas que já foram percebidas em estudos de outros gêneros visuais e meios. (BAETENS, 2011, p.109)

Abstração nos quadrinhos demonstra duas coisas: narrativa e antinarrativa são apenas duas formas não tão diferentes de fazer o expectador/leitor/receptor ver e olhar para algo. A segunda é que ela demonstra a fragilidade da narrativa. (exemplos meus de ordem não abstrata: pessoas podem se encantar com um gesto do personagem, se emocionar com sequências de ação que não fazem a trama caminhar, gostar de um animal de estimação em cena etc).

Página de Mate minha mãe (Companhia das Letras, 2015), de Jules Feiffer

Por exemplo, a página acima: o traço do Feiffer me encanta tanto, que passo um tanto olhando pra cada detalhe do desenho, mudando o ritmo narrativa de uma forma muito pessoal, em uma arte representativa, em uma sequência bastante canônica de narrativa.

Acho bastante interessante a noção de que a abstração em quadrinhos seja uma resistência à narratividade. Mas preciso pensar mais um pouco se concordo de todo com isso.

Prometo que volto a isso.

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