Depois de passagens muito breves em outras editoras, finalmente uma das melhores séries da Vertigo vai ser concluída no Brasil: falta só um volume pra Panini completar a saga de Os Invisíveis, escrito pelo ame-ou-odeie Grant Morrison (eu amo, bem muito).

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Os Invisíveis no traço de Phill Jimenez, um dos melhores desenhistas da série

Pra quem ainda não leu, é mais ou menos isso aqui: o gibi acompanha uma das células da Universidade Invisível, grupo anarquista que há séculos tem como objetivo evitar o domínio e consequente destruição da humanidade pelos Arcontes – seres transdimensionais há muito presentes em nossa realidade e que, através de seus agentes infiltrados em posições estratégicas e insuspeitas, direcionam nosso destino de acordo com seus propósitos. Em células formadas por cinco indivíduos, cada qual representando um elemento (terra, ar, água, fogo e espírito), Os Invisíveis travam a batalha contra os Arcontes se utilizando de seu conhecimento sobre universos paralelos, magia – muitas das vezes tendo como gatilho o uso de uma diversa gama de psicotrópicos – meditação transcendental e, claro, uma generosa dose de violência física.

Mas o grande barato é que a série apresenta uma gama de conceitos muito interessantes sobre nossa realidade, interpretando teorias de física quântica, de viagem no tempo e de teoria das cordas à teoria do caos, entremeados a teorias metafísicas e sobre o verdadeiro significado (e funcionalidade) da magia; tudo ligado por uma carga substancial de referências históricas, à literatura clássica e à cultura pop. É uma leitura que, por vezes, se mostra um tanto densa. Morrison afirma que se trata de uma obra semiautobiográfica: nas páginas de Os Invisíveis estariam transpostos não só seus interesses, mas também, diz ele, suas experiências com transcendentalidade e abdução.
Em grande parte, esses conceitos são apresentados através daquela que é, na minha humilde opinião, a personagem mais interessante da série: Lord Fanny, uma bruxa travesti brasileira de ascendência mexicana, nascida numa família de longa tradição na magia em sua linhagem feminina.

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Lord Fanny na capa de The Invisibles #14

A construção de Lord Fanny é praticamente uma afronta à visão de gênero presentes em nossa sociedade. A personagem pode ser considerada um dos maiores exemplos do queer nos quadrinhos, promovendo uma série de questionamentos à heteronormatividade praticamente compulsória no meio. Sua biografia é perpassada no arco She-Man, que está no segundo volume da série da Panini (“Abocalipse”). Pra quem ainda não leu os gibis, aviso que rolam uns spoilers ao longo do caminho – mas nada que vá prejudicar sua leitura.

Nascida um menino, em uma favela do Rio de Janeiro, o nome de batismo de Fanny é Hilde, filho de Adelinda e Eugenio Morales; Adelinda era uma bruxa, uma naualli (termo asteca para feiticeira) – bem como sua mãe, Isola, temida na favela por suas habilidades. Esta última, ao ver que a linhagem de mulheres havia sido interrompida com o nascimento de Hilde, insiste para que Adelinda continue tentando conceber uma menina. Mas após um aborto espontâneo da filha, Isola decide que iria tornar Hilde uma mulher.

Pois então: a teoria queer discorre justamente sobre a desconstrução dos conceitos naturalizados de gênero. Ela surgiu em meados da década de 1980, encarando a sexualidade e a ideia de gênero como construções sociais, em contraponto aos estudos sobre minorias sexuais que ainda mantinham em sua abordagem a concepção da heterossexualidade como norma a ser seguida, ligada inequivocamente ao gênero biológico. O termo queer, em inglês, originalmente se constituía como um xingamento – tipo um equivalente ao nosso “viado”; sua apropriação não só por essa corrente de estudos, mas pela própria comunidade gay denota uma tentativa de desconstruir a imposição das visões normativas de gênero e sexualidade.

Um marco dessa desconstrução é a afirmação de Michel Foucault de que as identidades sociais, inclusive aquelas ligadas à gênero e sexualidade, são um resultado da forma como os saberes são organizados em nossa sociedade, de modo que essa produção das identidades acaba sendo naturalizada; elas então constituem uma série de obrigações e demandas que se tornam, nas palavras de Richard Miskolci, “um conjunto de prescrições que fundamenta processos sociais de regulação e controle”. A construção da identidade feminina de Hilde vai ao encontro da teoria queer neste sentido; sua transformação em uma menina se coloca como uma afirmação contrária à essa naturalização da concepção de gênero. A implicação disso é não somente social, como também metafísica, uma vez que sua transformação é aceita pelos elementos naturais da própria existência em si – representados pelos deuses astecas com os quais Hilde passa a ter contato a partir de sua iniciação na brujería.

No início do arco She-Man, vemos como Isola proporcionou a Hilde a vivência de uma menina e passou a ensiná-la as artes da feitiçaria; quando acredita que ela já tem idade suficiente – ao despertar de sua maturidade sexual –, decide levá-la para a abandonada cidade sagrada de Teotihuacán, no México, para sua iniciação.

Neste momento da história de Fanny, existem alguns simbolismos importantes. O primeiro é a parte da iniciação em que Hilde precisa, nas palavras de Isola, “sangrar como uma mulher se quiser ser uma mulher”: Isola faz-lhe um corte na parte interna da coxa, próximo à virilha, de modo que possa não apenas oferecer seu próprio sangue no ritual de iniciação (como se faz em grande parte dos rituais ancestrais), mas também oferecer a imagem de uma menina sangrando como se menstruasse. Ainda que seu gênero biológico seja revelado logo adiante, é a característica da imagem de remeter à uma construção baseada em percepções anteriores que visa levar Hilde a uma primeira aceitação entre as divindades às quais seu sangue, seu corpo e seu espírito foram oferecidos, remetendo a uma imagem universal que, assim como toda imagem, é uma manifestação do sagrado (segundo François Laplatine e Liana Trindade).

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A iniciação de Hilde: “tem que sangrar como uma mulher se quiser ser uma mulher”.

O segundo simbolismo é o animal que, como Isola havia alertado, iria acompanhar Hilde ao longo de sua jornada e torná-la sua protegida, uma vez que ele se trataria da manifestação de uma divindade – o nagual, um protetor totêmico – o que significaria sua aceitação. Hilde torna-se protegida de Tlazolteot, deusa asteca que representa a luxúria e, também, a imundície e a purificação. Sua representação totêmica é a de uma borboleta. Aqui, a imagem não poderia ser mais óbvia – a da transformação, e também de delicadeza. Mas, ao mesmo tempo, é também um símbolo de renascimento, pois Hilde sobrevive ao momento de sua iniciação, quando encontra Mictlantehcutli, o deus da morte. Este, por sua vez, ensina a Hilde um segredo: “deuses são apenas máscaras”. E como ressaltam Kereth Cowe-Spigai e Patrick Neighly, em seu incrível guia de referências de Os Invisíveis chamado Anarchy for the masses,“religiões e modelos mitológicos de percepção ordenam experiências que nós não temos linguagem para definir”. Ou seja: imagens. O dom que Mictlantehcutli oferta a Hilde é o conhecimento de que são as imagens que evocam poder.

A última etapa de sua iniciação nessa jornada se dá com o presente de sua avó Isola quando a reencontra, após o fim do ritual: um batom vermelho. Em suma: A trajetória de Hilde em sua iniciação como mulher e como naualli é a recriação de seu gênero através da imagem, que não só carrega a simbologia do sagrado como reinventa o sagrado.

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O momento final do renascimento de Hilde como mulher.

A transformação de Hilde e sua consequente evolução até tornar-se Lord Fanny – sua própria máscara totêmica, sua própria imagem de poder – constroem uma representação, no meio das histórias em quadrinhos, de tudo aquilo desvendado pela ótica dos estudos queer. Nas palavras de Guacira Lopes Louro, em seu livro Um corpo estranho:

 Queer é tudo isso: raro, estranho, esquisito. Queer é, também, o sujeito da sexualidade desviante – homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis, drags. É o excêntrico que não deseja ser “integrado” e muito menos “tolerado”. (…) um jeito de pensar e de ser que desafia as normas regulatórias da sociedade, que assume o desconforto da ambiguidade, do “entre lugares”, do indecidível.

Sua transformação carrega um tanto de artífice; assim como, ao construir a persona de Lord Fanny, há um tanto de performance: características que concernem ao camp, que se convencionou como a estética queer por excelência. Lacerda Júnior resume o camp da seguinte forma:

(…) um certo tipo de comportamento – conjunto de gestos, posturas, expressões, gírias, tons de fala – baseado em atributos como teatralidade, drama, frivolidade, humor afiado e efeminação. O comportamento camp, que pode ser resumido pela gíria brasileira “dar pinta”, tem como uma de suas grandes expressões os shows de travestismo e drag, mas aparece também na vivência cotidiana, especialmente entre os homossexuais masculinos.

Em Fanny, o camp se traduz não apenas quando ela “dá pinta”, mas também em sua performance cotidiana, na medida em que a máscara de Lord Fanny que Hilde coloca se constitui através do travestismo e do drag.

O termo “performance” é empregado por Judith Butler, uma das pioneiras dos estudos queer, para determinar que as palavras que utilizamos para nos referir aos corpos não constituem necessariamente uma descrição desses corpos, mas uma produção deles, a partir do momento em que o ato de nomear é uma construção em si. E se é por meio de uma performance contínua que são criadas as noções de masculinidade e feminilidade, cabe a interpretação de JJ Domingos (em seu livro Discurso, Poder e Subjetivação) de que o engessamento dessas noções seria uma tentativa de encobrir esse caráter performativo, de modo a manter as estruturas de dominação masculina e heterossexual.

Assim, a adoção por parte de Fanny desses elementos estéticos não seria uma simples coincidência. Enquanto a própria existência da persona Lord Fanny configura uma não conformidade a conceitos deterministas, assim também é a missão a qual se propõe os Invisíveis. Desse modo, o camp no travestismo de Fanny é, ao mesmo tempo, uma expressão de sua identidade e também a sua “armadura de combate”:

 

Nesta sequência, Hilde “se monta”: uma torrente de pensamentos passa por sua mente ao longo dessa sequência – subentende-se que induzida por algum psicotrópico; ao referir-se a uma sensação negativa, Hilde afirma que “ela pode lidar com isso”; no quadro seguinte, já com a peruca colocada em sua cabeça, afirma que “eu posso lidar com qualquer coisa”: uma clara transição entre as personas de Hilde e Fanny, que explicita bem a afirmação sobre sua máscara drag ser não só uma imagem de empoderamento, como também de enfrentamento.

Susan Sontag, em seu pioneiro ensaio sobre as características do camp, afirma ser essa uma estética – logo, uma vivência – apolítica. Mas Lacerda Júnior afirma que a teoria queer (que surgiria apenas cerca de duas décadas depois do ensaio de Sontag) via as performances teatralizadas dos papeis de gênero dentro do camp como sendo essencialmente transgressoras, cujo deboche intrínseco era utilizado por muitos artistas deliberadamente como tática de combate. Nada mais natural, na verdade, que o camp seja político pela subversão do significado da frivolidade. Afinal, é uma estética que nasceu como resultado da opressão sofrida pelos homossexuais durante grande parte dos últimos séculos – para Richard Dyer, a habilidade de desenvolver a performance nasce diante da necessidade de se passar despercebido em uma sociedade que rechaça (violentamente) os indivíduos que se mostram donos de outra identidade que não aquela ditada pelas convenções vigentes. A própria vivência do camp, mesmo que estritamente em âmbito privado, se constitui como um ato de desconstrução, de transgressão – nada mais politizado; e afinal, como afirmavam os movimentos feministas da década de 1980, “o pessoal é político”. E se o camp na arte, diante do artífice, chama à atenção para o fato que estamos diante apenas de um ponto vista sobre a vida, então nenhuma outra estética poderia servir à Lord Fanny, que desde criança enxerga tantos outros lados da existência.

Ainda assim, há uma série de características enunciadas por Sontag que se adequam à caracterização da personagem. Para ela, a essência do camp é aquilo que não é natural, traduzido no artífice e no exagero: Fanny in drag. Mais: o camp seria esotérico – aquilo que é bastante incomum e entendido ou apreciado apenas por um pequeno número de pessoas, especialmente aqueles com conhecimento especial: uma definição que se aplica não apenas à comunidade homossexual, mas à própria condição de bruja de Fanny; transcendentalmente camp. E mais do que isso: é saber que, enquanto o mundo lhe impõe papeis, o camp lhe dá a oportunidade de escolher qual papel interpretar, de fugir das identidades pré-determinadas.

A criação de uma personagem com subtexto tão rico em sua criação não é somente fruto da imaginação de Grant Morrison. Como já dissemos anteriormente, é também resultado de suas vivências, ao passo em que ele afirma que Os Invisíveis se trata de uma série semi-autobiográfica, de modo que todos os personagens – até mesmo os vilões – representam algum aspecto de sua identidade e de suas experiências. No caso de Lord Fanny, não se trata de uma simples metáfora, como ele revela em seu livro Superdeuses:

Já havia lido sobre a tradição do travestismo berdache do xamanismo, e decidira que podia fazer uma versão lustrosa, magia do caos, anos 1990 daquilo para me livrar da minha identidade e me tornar meu oposto total. (…) As roupas e maquiagens permitiam que eu me transformasse num alter ego feminino que criara para ficar no meu lugar durante as operações mágicas lúgubres que conduzia. Eu estava entrando em zonas da consciência bem bizarras e descobri que a “garota” era mais inteligente e corajosa e podia negociar de maneira mais fácil e defender-se de entidades predadoras “demoníacas”. (…) Vestindo vinil negro com salto agulha, maquiagem de show girl e uma peruca loira, comecei a me locomover com facilidade entre forças angelicais, espíritos vodus, Reis e Senhores Enoquianos, a escória da Goetia e os túneis de Set, entidades lovecraftianas e outros personagens e alienígenas ficcionais.

A descrição de Morrison sobre sua persona in drag é muito semelhante ao figurino vestido por Fanny na abertura do arco She-Man (figurino no qual ela “se monta” na sequência que apresentei um pouco antes):

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Lord Fanny: transposição das experiências do próprio Morrison.

Ou seja: Lord Fanny é uma transposição das experiências do próprio autor com o camp, mas levando a proposta um passo adiante, em uma interpretação literal das afirmações de que se trata de uma estética que proporciona novos olhares sobre a realidade.

É nesse contexto que se dá a importância da existência de uma personagem como Lord Fanny. Como sabemos, há, até hoje, um forte conservadorismo no que concerne às questões de gênero e sexualidade na indústria dos quadrinhos. Ainda que o selo Vertigo pressuponha histórias e personagens mais impactantes, é significativo que um roteirista de tendências anarquistas ofereça aos leitores em grande parte oriundos do mainstream uma personagem que se traduz na encarnação de papel e nanquim de todas as questões levantadas pela teoria queer. Lord Fanny levou a contestação do sistema às questões de gênero, problematizando o que constitui as identidades masculinas e femininas e tomando estes questionamentos como essenciais em uma sociedade dominada por normatizações castradoras e reducionistas. Um choque para os fãs de colants coloridos.

O uniforme de Fanny: se montar. A performance: o camp – o artífice, a ludibriação. Hilde foi criada como uma mulher, mas adota uma postura de imitação daquilo que é considerado feminino, pela noção de que aquilo que consideramos feminino é também uma construção. Assim, através dessa composição da imagem é que ela engana os deuses e desafia a sociedade – uma sociedade que, no mundo de Invisíveis (nosso próprio mundo), também é puro artífice. Tudo é uma farsa e o que importa, no fim das contas, é a fruição da farsa, em uma dicotomia que, ao mesmo tempo em que a legitima, a desafia: e é essa fruição que se converte em subversão, em desmantelamento da norma, em desconstrução daquilo dito como sendo realidade – o objetivo máximo da Universidade Invisível.