[Vem Comigo] Tô Miró

Você já ouviu falar em Miró da Muribeca?

Não?

Tranquilo. Como dizem por aqui, é nenhuma.

Dá uma sacada logo ali embaixo, vinte minutinhos, depois tu volta.

Fosse? Massa.

Então, Miró é esse poeta da periferia do Recife que já há uns bons trinta anos declama seus versos bem crus, meio sujos e muito verdadeiros pelos bares e esquinas da cidade. Qualquer lugar em que se fizesse a vontade ou a necessidade, como provavelmente é com todo poeta dito marginal.

Daí que um pessoal anda se movimentando pra mostrar que ainda há uma fagulha de produção de quadrinhos em Recife – que mesmo sem ainda ter saído de um estágio que pode ser visto como embrionário, teve a Ragu, uma revista/antologia que, em seu último número, já tinha amealhado certa visibilidade país afora.

Pois três artistas que já participaram da Ragu (sendo um deles um de seus idealizadores/editores), mais um estreante e um dos principais nomes do quadrinho nacional contemporâneo se juntaram pra transformar alguns dos poemas de Miró em histórias em quadrinhos. E olha, ficou bem lindo.

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Os pernambucanos Raoni Assis, Ayodê França, Flavão e Mascaro, mais o paraibano Shiko, entregaram no início deste ano João Flávio Cordeiro da Silva: Tô Miró. O gibi é uma realização da Casa do Cachorro Preto, residência artística capitaneada por Raoni e que visa agora encampar outros projetos em quadrinhos. Cada um dos autores assina seis histórias, transformando em narrativa visual a poesia de Miró.

Ainda que uns sejam mais experientes que outros na produção de quadrinhos, são todos artistas maduros, com estilos bem definidos e diferentes entre si. Assim, ainda que todas as histórias venham de poemas que tem como característica um olhar agridoce sobre o cotidiano, esse espectro de sensações é ampliado não só pela estética de cada segmento, mas também pelas diferentes visões na transposição dos versos.

Dia desses, estive conversando com Mascaro e João Lin (artista que não está nessa obra, mas é um dos fundadores da Ragu); ouvi que, em outras regiões, frequentemente esperam deles que suas obras possuam algum traço que destaque o que se convencionou como a estética nordestina – o sertão, a xilogravura, essas coisas. Este é um gibi que foge disso – mas não de forma intencional.

Até porque os poemas de Miró sangram Recife. Só que isso aqui é só mais uma cidade grande de país subdesenvolvido. Mais provinciana, certamente, mas sofrendo das mesmas mazelas humanas que todas as outras. Assim como os artistas claramente têm influências das mais diversas – inclusive regionais, sim – mas que fogem do estereótipo.

Assim, Tô Miró escapa de qualquer possibilidade de bairrismo. É uma obra que, em todas as histórias que a compõem, pode dialogar com qualquer leitor e mostrar que Recife não é só mangue, mas também concreto, canais imundos e almas ao léu. Seria lindo se o livro chegasse em outras regiões do país.

Eu digo “seria” porque o livro, depois de vender uma tuia no seu lançamento, ter uma parte da tiragem doada para bibliotecas (exigência do Funcultura, que é o dispositivo de fomento daqui de Pernambuco e que bancou o livro), ainda tem alguns exemplares, mas sem um canal de vendas específico ou distribuição (um problema tão velho pra quem publica alguma coisa nesse país que nem vale a pena se estender muito). E aí, o que fazer?

Bom, os nomes tão ali em cima. Facebook tá aí pra isso. Eu, se fosse vocês, perturbava esse povo até conseguirem um exemplar, a Ugra mandasse buscar, etc. Ou que pelo menos em algum momento disponibilizassem online. Se até agora você não ficou curioso, vê mais um pouco:

Né? Pois é. Mas mesmo que você não consiga o seu, o mais importante é o seguinte: o cenário tá se ampliando, o rolê tá se espalhando, e Recife tá se redescobrindo. Esse pode ser o começo de uma boa fase por aqui.

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