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Chegamos ao quarto episódio de nossa busca sobre o que seria a abstração nas histórias em quadrinhos. Aqui vou falar mais um pouco sobre texto abstrato e propor um conceito de abstração que tente estabelecer contato com diversas artes e, claro, incluir os quadrinhos nisso.

Anteriormente, em A consciência de Zeni:

Roland Barthes, Dessin n°218, daté du 26 décembre 1971

Roland Barthes, Dessin n°218, daté du 26 décembre 1971

– o autor assumiu que investiga e reflete conforme escreve esses textos;

– ele testou algumas definições de abstrato, apontou problemas, mas ainda não arredondou isso;

– no último texto mostrou literatura que se chama de abstrata, falou de confusões com outras escolas estéticas, escreveu sobre Finnegans Wake e meio que disse que a palavra não pode ser abstrata. Segue daqui.

Recomendo a leitura dos outros ensaios sobre quadrinhos abstratos: no primeiro plantei a definição, no segundo apresentei alguns problemas dela e no terceiro falei de literatura.

Estamos assim: que abstração na pintura é uma obra que existe pelo valor das linhas, pontos, cores, pinceladas, espessura da tinta e qualquer um dos seus elementos de composição, sem se importar com a questão da representação do real (a mimese fica de lado). Adaptando esse conceito pra literatura, teríamos que ter um grupo de palavras que estivessem juntas pelo seu valor sonoro ou, no caso da escrita, pelo desenho das letras (ou ideogramas) e ocupação dos espaços do suporte, a despeito de seu poder de representação do real (o sentido que a palavra carrega).

Cy Twombly Sans titre, 1954, craie et crayon de couleur sur papier, 48,3 x 63,4 cm, coll. Robert Rauschenberg

Cy Twombly Sans titre, 1954, craie et crayon de couleur sur papier, 48,3 x 63,4 cm, coll. Robert Rauschenberg

Já que as histórias em quadrinhos não têm uma existência sonora[1], vou me concentrar em pensar na sua existência visual, sobretudo a estática e de duas dimensões (vale lembrar que a escrita é a visualidade da palavra) e passar batido pela música e pelo “corpo sonoro” da palavra.

Propus na parte 3 desta série que a literatura não é abstrata porque a palavra sempre referencia e aponta para o mundo percebido do receptor (ou seja, representa esse mundo); a palavra não consegue se despir de seu significado. Isso porque pensamos em abstração como uma forma da linguagem em que ela se volta a si mesma, sem interesse em representar o mundo percebido de seu leitor/expectador[2].

Mas e as onomatopeias?

Howard Chaykin, Time²: Epiphany

As onomatopeias[3] são palavras que representam sons de ação, que ACHO que não configura abstração. Onomatopeias tornam visíveis em palavras alguns sons e passam a significar a ocorrência deles (“o au-au era muito alto”; “o atchim me assustou”; “corri assim que ouvi o bum”). Nesse processo de significar, elas deixam de ser abstratas no sentido de nossa investigação aqui.

Seguindo com essa tentativa de testar a hipótese da parte 3, que a palavra não é abstrata, vamos pensar em sinais de pontuação. Afinal, o que uma interrogação significa em si? Vem por esse capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis:

CAPÍTULO LV / O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA

BRÁS CUBAS…………………………..?

VIRGÍLIA………………………….

BRÁS CUBAS……………………………………………………………………………………………………………………………………..

VIRGÍLIA……………………………………!

BRÁS CUBAS……………………………

VIRGÍLIA……………………………………………………………………………………………………………………………………….?……………………………………………………………………………………………

BRÁS CUBAS……………………………

VIRGÍLIA………………………………………..

BRÁS CUBAS…………………………………………………………………………………………………………………….!…………………………!………………………!

VIRGÍLIA…………………………………………….?

BRÁS CUBAS……………………………………….!

VIRGÍLIA……………………………………………!

Aos meus poréns: a pontuação tem uma significação. O caractere “?”, em português, indica que tudo que veio antes do ponto anterior é uma pergunta. Ele não aparece na frase pela graça de ser um ganchinho com ponto embaixo.

Tratando especificamente de “O velho diálogo de Adão e Eva”, ter um título, nome dos personagens e, principalmente, ser seguido de capítulos anteriores, faz com que, juntos, esses elementos apontem a significação que esses sinais gráficos podem assumir. Ou seja, o uso dos pontos é pensado pra gerar uma narrativa e não somente pela distribuição deles na página ou pela graça dos sinais gráficos.

Alexandre Lourenço fez algo parecido em Você é um babaca, Bernardo, mas não usou sinais de pontuação. Diálogos importantes entre os personagens são apenas linhas dentro de um balão de fala.

Página de Você é um babaca, Bernardo

Página de Você é um babaca, Bernardo

Porém, tanto em Lourenço quanto em Machado de Assis, se trata de aumentar a participação do leitor e não apenas do recurso gráfico por si mesmo.

O que rola aqui é que o gesto abstrato justaposto à narração, pela noção de montagem, é englobado pela narrativa, empresta o significado desse elemento que não é abstrato e lhe devolve modificado ao leitor.

A modificação aqui é abertura: o leitor completa esses diálogos nas cenas, o que faz com que esse leitor encontre o que esperaria da situação, pois foi ele que concluiu a montagem do diálogo na sua mente.

Isso leva a gente a especificar umas coisas na nossa definição:

1) é possível pensar em momentos abstratos nas obras e não apenas em uma obra plenamente abstrata;

2) o fato de gerar ou fazer parte de uma narrativa a partir dos elementos que podemos pensar como abstratos não elimina o conceito de abstração;

Resumindo: abstrato não está proibido de significar e é possível lidar com a ideia de momentos de abstração em uma obra que não seja abstrata.

Agora, antes de passar a régua na questão texto, voltemos à não-palavras. Aquela junção de letras de um idioma que não existe (ou até de um alfabeto inventado). Vamos falar um pouco sobre escrita assêmica.

Resumindo toscamente, são várias letras separadas como se fossem palavras sem conteúdo semântico.

“A escrita não contém simplesmente informações semânticas. Contém também informações estéticas (quando vista como forma e imagem) e informações emocionais (como poderia dizer um grafólogo). Ao eliminar informações semânticas, a escrita assêmica traz à tona esses conteúdos emocionais e estéticos. Como exemplo contrário disso, o email é uma escrita quase destituída de conteúdos estéticos e emocionais, pois os despreza.”[4] (Tim Gaze, Revista Confraria, n. 10).

Neste link tem um monte de artistas que trabalham desse modo e uma explicação bem decente do que é escrita assêmica por um poeta assêmico.

Luigi Serafino, Codex Seraphinianus

Luigi Serafini, Codex Seraphinianus

Se liga, por exemplo, no Codex Seraphianus de 1981, do italiano Luigi Serafini.  É um livro com cara de enciclopédia sobre um mundo que se parece com o nosso, mas até que não. Tem desenhos que não são abstratos (eu enquadraria de surreais) com explicações em um texto escrito num idioma que ninguém conhece, mas é alfabético. Ou seja, assêmico.

autor desconhecido, Manuscrito Voynich

Tem um antepassado do século 15 desse livro, o Manuscrito Voynich, com as mesmas características: texto assêmico e arte que vou chamar figurativa. Minha proposta é que um texto assêmico se enquadra bonitinho na definição de abstrato que levamos até aqui.

São palavras distribuídas pelas página por seu efeito estético e, no caso dessas duas obras, pela relação entre o texto assêmico e a imagem.

Aliás, vamos retocar a nossa definição de abstração e passar o cadeado na bodega: a abstração pode aparecer em qualquer arte e usar dos elementos de composição dessas mídias para expressar esteticamente, deixando a representação do real (a mimese) como algo de menor interesse. A isso se junta que um gesto abstrato pode surgir em meio a uma obra não abstrata.

Vou falar de quadrinhos no próximo texto? Espero que sim.

Roland Barthes, Significante sem significado

Roland Barthes, Significante sem significado

[1] Experiências como Cena HQ, em que quadrinhos têm uma leitura dramática ou um radiofumetto como este de Dylan Dog não são histórias em quadrinhos em formatos expandidos, mas obras de outros meios criadas a partir de HQs.

[2] Isso que chamo “se voltar a si mesma” não é a mesma coisa que a metalinguagem ou que a função poética de Roman Jakobson, pois nesses casos a linguagem usa de seu poder de representação para falar de si mesma ao materializar o material linguístico. Na definição proposta, os elementos constitutivos da linguagem são tudo que importa, independente de representar algo ou não.

[3] Mas e nas histórias em quadrinhos em que as onomatopeias têm, além do apelo sonoro, um corpo pictórico? A onomatopeia visual faz parte do desenho daquela página, é um dos elementos de composição dos quadros (assim como balão, letra, legenda, recordatório, requadro, linhas de ação, etc.), mas que pode ser também uma palavra e não apenas a representação do som (saca o Dash Shaw em Umbigo sem fundo, por exemplo).

[4] Se considerarmos os emojis e as novas possibilidades de formatação de texto dos e-mails, talvez possamos contestar essa parte, mas eu não vou. Quem quiser, mete ficha.