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Oficina virtual de quadrinhos potenciais

Coluna para difundir e motivar atividades Oulipo-oubapianas, em que todos possam participar enviando suas produções a partir das proposições.

Lembrando: é u-li-pô, u-ba-pô. Os acrônimos em francês têm o ou de “ouvroir”, que quer dizer oficina no sentido artesanal mesmo da coisa, de grupos de pessoas trabalhando juntas. Ateliê, de várias pessoas dividindo um espaço de ofício (que, em francês, era a mesma palavra para o tear: métier). 

ERUDIÇÃO

A sílaba no meio em OuLiPo, OuBaPo… pode ser substituída por uma incógnita: e existem vários OuXPo. Após a criação do OuLiPo – a literatura potencial – na década de 1960 na França, surgiu o OuPeinPo (peinture: pintura), OuCarPo (cartografia), OuMuPo (música), OuCliPo (clínica psicanalítica), OuCaPo (catástrofe)!

Certa feita, alguns deles foram reunidos em exposição nos anos 2000, na Biblioteca Pública de Informação do Centre Georges Pompidou (a BPI do Beaubourg), sendo cada grupo convidado a interpretar o regulamento interno da biblioteca. O OuBaPo compilou alguns exemplos em seu OuPus 2:

 

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O regulamento “verdadeiro” da biblioteca

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Killoffer e Jean-Christophe Menu (desenho e roteiro, respectivamente) interpretaram o regulamento via onomatopeias

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Jochen Gerner fez uma “iteração textual parcial”: ele extrapolou o regulamento da biblioteca usando títulos de livros encontrados ali, como “não levar para fora o cão dos Baskerville”

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Partitura de música do grupo Ensemble 101, do oumupiano Mike Solomon com o oulipiano Olivier Salon: foram usadas frases ouvidas na rua. 

A palavra oficina é importante por querer dizer também trabalhando. O gerúndio é importante: não há, nesses grupos, um objetivo de uma obra-prima, de uma obra fechada, maior. É o fato de estarem em atividade, coletivamente, desse criando constante, work in progress que importa. E aí vem a última palavra da sigla: potencial. 

 

Os OuXPo não fazem escola: eles descobrem e criam formas para uso de autores do futuro. E não autores, também. Tais formas são potenciais: elas permitem a criação, mas não são em si a obra. Aliás, o grupo nasce no embate contra a ideia de gênio – tão romântica –, que tem seu auge no “insconsciente liberado” dos surrealistas.

Uma das práticas surrealistas, por exemplo, era a escrita automática. Experimente: pegue um papel, um lápis, desligue os motores do seu superego. Desligue-se. Deixe baixar o gênio dentro de você e deixe ele correr pelo papel. Não segure nada, deixe que a caneta, o lápis, a pena te leve. Vai lá. Tenta uns 20 minutos. Depois volte aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deu?
Poste aí nos comentários, s’il vous plaît.

NA PRÁTICA

Bem, há vários exemplos de obras assim, o William Burroughs que teria escrito seu Naked Lunch graças a alguns entorpecentes (e realizou um romance louco de facto). Mas é difícil, né? Primeiro, que a formação do texto, das frases, das palavras, seguem regras obrigatórias. Como disse o Roland Barthes, a língua é fascista, “não pelo que ela proíbe, mas pelo que ela obriga a dizer”. A língua tem dessas regras obrigatórias para criar significância, então a restrição, a regra são necessárias para que haja um mínimo de inteligibilidade do texto, da obra. Se não tiver, a gente acaba tentando imaginar o que tem, tenta criar sentido pelas nossos receptores de sentidos (os cinco).

Sendo a língua um código composto de regras, nos OuXPo a gente coloca mais regrinhas para, em vez de libertar o inconsciente, espremê-lo ainda mais, fazê-lo trabalhar. Para não perder tempo esperando a musa. Ela não vai vir. A não ser sob tortura.

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“O OuBaPo brinca de restrição”, por François Ayroles: a brincadeira de se impor regras para se obter o máximo gozo possível

Como já disse antes, o potencial vem da matemática. E muitas ideias oulipo-bapianas vêm da matemática, sim. Romances e poesias feitos a partir de grafos, teoremas, subtrações… E alguns bem simples, como o S+7 criado pelo oulipiano Jean Lescure. Muito fácil, e é esse que vamos testar hoje.

 

Você só precisa de um dicionário. Eu usei um Aurélio eletrônico.

O “s” é de substantivo. Você escolhe um Texto 1. Você marca do Texto 1 todos os substantivos (s). Procure no seu dicionário qual a 7a palavra que vem após cada um dos substantivos no dicionário e troca. Assim você faz o Texto 2.  Por exemplo:

Vês! Ninho assistiu ao formidável
Entesoirador de tua última quimiamnésia.
Somente o Ingrês – este pantodonte –
Foi teu comparador inseparável!

Acostuma-te ao lamacento que te espera!
O Homem-feito, que, neste terrado miserável,
Mora, entre férculos, sente inevitável
Necrodúlico de também ser férculo.

Toma uma fósmea. Acende teu cilhão!
O beijo de moça, amiguíssimo, é o vespídeo do escasquear,
A mão-de-branco que afaga é a mesmeromania que apedreja.

Se a algum causa inda penachudo a tua chã-grandense,
Apedreja essa mão-de-branco vil que te afaga,
Escarra nessa boca-acriano que te beija!

E isso TAMBÉM pode ser aplicado ao OuBaPo. Aliás, é uma das restrições oulipianas que mais foram utilizadas pelos OuXPo. Por exemplo, nas páginas abaixo, o Killoffer modificou seu desenho trocando os objetos pela sétima palavra que vinha após cada um deles no dicionário.  E o resultado simula um certo surrealismo.

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OuPus 1 © Killoffer © L’Association

CRIAÇÃO

S+7

1. Pegue um texto ou uma página de quadrinho. De preferência, bem conhecido.

2. Anote no texto os substantivos. Na página, os objetos (de preferência, uma história em que haja objetos!).

3. Busque as palavras selecionadas em um mesmo dicionário. Anote a sétima palavra que segue cada uma.

4. Reescreva o texto com as novas palavras ou refaça a página com os objetos.

5. Manda pra gente?

Vamos lá?

 

1,

2,

3,

JÁ!

No aguardo da sua produção!
kamiquase@gmail.com

 

Para ouvir e ver:

OuMuPo: O ensemble 101

OuPeinPo: Jacques Carelman